sábado, 30 de maio de 2009

Conhecimento de si Mesmo

Sérgio Biagi Gregório

1. INTRODUÇÃO

O objetivo deste estudo é dar ênfase à tomada de consciência de nossas potencialidades e de nossos limites, no sentido de fazermos uma avaliação mais serena e mais tranqüila de nós mesmos. Os tópicos a serem abordados são: conceito de conhecimento, Sócrates e o Conhece-te a ti mesmo, Senso Crítico e Como Conhecer-se.

2. CONCEITO

Conhecimento. 1. Ato ou efeito de conhecer. 2. idéia, noção. 3. Informação, notícia, ciência. 4. Filos. No sentido mais amplo, atributo geral que têm os seres vivos de reagir ativamente ao mundo circundante, na medida da sua organização biológica e no sentido da sua sobrevivência 5. Filos. Apropriação do objeto pelo pensamento, como quer que se conceba essa apropriação: como definição, como percepção clara, apreensão completa, análise etc. (Dicionário Aurélio)

Conhecimento de si mesmo. [Nosce te ipsum]. Conceito que se encontra inscrito no pórtico do Santuário de Delfos, em grego: "Gnôthi seauton" e que significa: "Conhece-te a ti próprio", estrutura moral da filosofia de Sócrates, na sua escola maiêutica. (Equipe da FEB, 1995).

3. FILOSOFIA E HISTÓRIA DA FILOSOFIA

Enquanto a Ciência tenta explicar como se dão os fatos, construindo a partir de um objeto e do saber que num momento se possui acerca dele, medindo-os, comparando-os e classificando-os, a Filosofia, que trata dela mesma, quer saber porque se deram desta forma e não de outra. Assim, para que possamos penetrar no "conhece-te a ti mesmo" de Sócrates, temos de colocá-lo dentro de um contexto geral, pois a Filosofia parte de coisas já conhecidas, e segue pelas descobertas de outros filósofos como que acrescentando algo ao já existente.

Os pensadores que precederam Sócrates queriam descobrir o princípio das coisas. Este princípio é expresso, para cada um deles, nos seguintes termos: para Tales de Mileto, o princípio de tudo era a água; para Anaximandro, o infinito, o ilimitado; para Anaxímenes, o ar, o fogo, as nuvens e a rocha; para Pitágoras, o número; para Parmênides, o ente, o ser; para Heráclito, o ser dinâmico; para Empédocles, o ar, o fogo, a terra e a água; para Anaxágoras, tudo em todas as coisas; para Demócrito, o átomo – última divisão do ser.

Sócrates, por seu turno, faz o indivíduo voltar-se para si mesmo, a fim de conhecer-se melhor.

4. O PROBLEMA DO CONHECIMENTO

4.1. PENSAMENTO E VERDADE

Conhecer é reproduzir em nosso pensamento a realidade. Damos o nome de conhecimento à posse deste pensamento que concorda com a realidade. À concordância do pensamento com a realidade chamamos verdade.

Que é pensar bem? André Maurois, em A Arte de Viver, diz-nos que é chegar a fazer, de nosso pequeno modelo interior de mundo, uma imagem tão exata quanto somos capazes, do grande mundo real.

Que é verdade? Pauli, em Que é pensar, entende por verdade, no mais amplo sentido, a autenticidade que o conhecimento deve oferecer. Os dados são verdadeiros se são o que anunciam. Se os dados, na hipótese do psicologismo, se comportam como dados puros, a autenticidade se encontra nesta pureza. Se os dados, na hipótese do intencionalismo, anunciam objetos, a autenticidade se encontra em efetivamente noticiá-los, não dizendo que noticiam (quando de fato não noticiam e enganam), nem dizendo que noticiam tal espécie de objetos (quando de fato noticiam outra espécie). (1964, p. 88 e 89)

4.2. ESTOQUE DE CONHECIMENTO

O conhecimento acumulado pela humanidade está registrado nos arquivos das bibliotecas espalhadas pelo mundo inteiro. Ele compõe-se de livros, revistas, jornais, periódicos etc. A invenção da imprensa por Johann Guttenberg (1398-1468) é responsável por esse fato, pois a nova técnica de produção literária propiciou a veiculação de uma grande quantidade de conhecimentos que até então estava adormecida. É que os trabalhos dos grandes pensadores, podendo ser duplicados com mais facilidade, aumentou sobremaneira o número de obras à disposição da população.

4.3. AQUISIÇÃO, RETENÇÃO E UTILIZAÇÃO DO CONHECIMENTO

O conhecimento pode ser adquirido de forma empírica, vulgar, intelectual, científica e intuitiva. Porém, a freqüência em cursos, a pesquisa em livros e os diversos tipos de conversações fazem-nos penetrar objetivamente no estoque de conhecimento acumulado pela humanidade. Além do mais, a associação de idéias que dessas pesquisas advém, aumenta ainda mais esse estoque.

A retenção do conhecimento envolve não só o interesse acerca de um assunto como também a apreensão de técnicas de memorização das informações. Lembremo-nos de que nem sempre uma boa memória é sinal de grande inteligência. É o caso do médico, de excelente memória, que tinha dificuldade em prescrever uma receita médica.

A utilização do conhecimento deve ser sempre para o bem, procurando-se não colocar a candeia debaixo do alqueire. (Lessa, 1960, p. 240 a 246)

5. DA MAIÊUTICA SOCRÁTICA AOS AUTOMATISMOS DA VIDA PRESENTE.

5.1. MAIÊUTICA

Como vimos anteriormente, os ensinamentos e reflexões dos primeiros filósofos se voltaram para os problemas do ser, do movimento e da substância primordial do mundo, a "physis", procurando dar-lhes uma explicação racional. Entre tais mestres, situamos Heráclito, Pitágoras e Demócrito. Sócrates, dizia ser boa, mas queria apresentar algo mais substancioso, ou seja: o homem deveria voltar para si mesmo.

Conhece-te a ti próprio é o dístico colocado no frontispício do oráculo de Delfos. Após a visita de Sócrates a este templo, emanam-se dois diálogos, que podem ser encontrados em: Platão (Alcibíades, 128d-129) e Xenofontes (Memoráveis, IV, II, 26).

Sócrates procura o conceito. Este é alcançado através de perguntas. As perguntas têm um duplo caráter: ironia e maiêutica. Na ironia, confunde o conhecimento sensível e dogmático. Na maiêutica, dá à luz um novo conhecimento, um aprofundamento, sem, contudo, chegar ao conhecimento absoluto.

5.2. REFLEXÃO

É uma volta sobre si mesmo. A reflexão seria mais perfeita se fosse somente sobre o próprio pensamento, sem a intervenção dos sentidos; mas, como o pensamento e os sentidos são inseparáveis, de qualquer forma é uma reflexão.

A reflexão faz-nos comparar e raciocinar, a fim de chegarmos a um acordo com a nossa própria consciência. (Pauli, 1964, p. 88)

5.3. HERANÇA E AUTOMATISMO

O princípio inteligente estagiando no reino mineral adquiriu a atração; no reino vegetal, a sensação; no reino animal, o instinto; no reino hominal, o livre-arbítrio, o pensamento contínuo e a razão. Hoje, somos o resultado de toda essa herança cultural.

Nosso passado histórico propiciou-nos a automatização de hábitos e atitudes. É nossa herança, que começa desde o reino mineral. Há hábitos positivos e negativos. Os positivos devem ser incrementados; os negativos, extirpados. A função da reforma íntima, no seu sentido amplo, é melhorar o reflexo condicionado, arquitetado pelo nosso Espírito.

A lei do progresso exige que o princípio inteligente vá-se despojando dos liames da matéria. Para que tenhamos um olhar crítico, devemos libertar-nos da obscuridade da matéria, consubstanciada no egoísmo, no orgulho e no interesse próprio. (Xavier, 1977, p. 39)

5. COMO CONHECER-SE

De acordo com Peres, no capítulo I do seu Manual Prático do Espírita, podemos nos conhecer:

6.1. PELA DOR

a dor é teleológica e leva consigo um destino. Por ela podemos saber o que fomos e, também, o que tencionamos ser. Ela é sempre positiva; no sofrimento, estamos purgando algo ou preparando-nos para o futuro.

6.2. CONVÍVIO COM O PRÓXIMO

Podemos avaliar-nos, observando as reações dos outros com relação às nossas atitudes.

6.3. AUTO-ANÁLISE

A auto-análise fundamenta-se numa cosmovisão transcendental da vida. A compreensão integral do homem se apoia em três esteios fundamentais: filosófico: paz com a verdade; o psicológico: paz consigo mesmo; religioso: paz com o ser transcendental.

São técnicas que permitem o homem chegar a autenticidade de sua doença, não de tirar o homem da doença.

As questões 919 e 919A de O Livro dos Espíritos auxiliam-nos a praticá-la. Santo Agostinho sugere que todas as noites devíamos revisar o dia para ver como fomos em pensamentos, palavras e atos.

7. CONCLUSÃO

Embora haja dificuldade de conhecermos a nós mesmos, uma avaliação serena de nossa dor e do nosso relacionamento com o próximo pode oferecer-nos uma luz no fim do túnel. Além do mais, tomando consciência de nossa ignorância, estaremos alicerçados para detectar a nossa verdadeira capacidade.

8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

EQUIPE DA FEB. O Espiritismo de A a Z. Rio de Janeiro: FEB, 1995. FERREIRA, A. B. de H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, [s. d. p.] KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. São Paulo, FEESP, 1972. LESSA, G. Em Busca de Claridade. Rio de Janeiro, Fundo de Cultura, 1960. PAULI, E. Que é Pensar (Teoria Fundamental do Conhecimento). Florianópolis, Ed. Biblioteca Superior de Cultura, 1964. PERES, N. P. Manual Prático do Espírita. São Paulo, Pensamento, 1984. SAUVAGE, M. Sócrates e a Consciência do Homem. São Paulo, Agir, 1959. XAVIER, F. C. e VIEIRA, W. Evolução em Dois Mundos, pelo Espírito André Luiz, 4. ed., Rio de Janeiro, FEB, 1977.

São Paulo, 10/07/1988

Diálogo sobre o Conhece-te a Ti Mesmo

I

Sócrates — agora, qual será a arte pela qual poderíamos nos preocupar conosco?

Alcibíades — Isto eu ignoro.

Sócrates — Em todo o caso, estamos de acordo num ponto: não é pela arte que nos permita melhorar algo do que nos pertence, mas pela que faculte uma melhoria de nós mesmos.

Alcibíades — Tens razão.

Sócrates — Por outro lado, acaso poderíamos reconhecer a arte que aperfeiçoa os calçados, se não soubéssemos em que consiste um calçado?

Alcibíades — Impossível.

Sócrates — Ou que arte melhora os anéis, se não soubéssemos o que é um anel?

Alcibíades — Não, isto não é possível.

Sócrates — Entretanto, será fácil conhecer-se a si mesmo? E teria sido um homem ordinário aquele que colocou este preceito no templo de Pytho? Ou trata-se, pelo contrário, de uma tarefa ingrata que não está ao alcance de todos?

Alcibíades — Quanto a mim, Sócrates, julguei muitas vezes que estivesse ao alcance de todos, mas algumas vezes também que ela é muito difícil.

Sócrates — Que seja fácil ou não, Alcibíades, estamos sempre em presença do fato seguinte: somente conhecendo-nos é que podemos conhecer a maneira de nos preocupar conosco; sem isto, não o podemos.

Alcibíades — É muito justo.

Platão, Alcibíades, 128d-129

II

— Dize-me Eutidemo, estivestes alguma vez em Delfos?

— Duas vezes, por Zeus!

— Viste, então, a inscrição gravada no templo: conhece-te a ti mesmo?

— Sim, certamente.

— Esta inscrição não te despertou nenhum interesse, ou, ao contrário, notaste-a e procuraste examinar quem tu és?

— Não, por Zeus! Dado que julgava sabê-lo perfeitamente: pois teria sido difícil para eu aprender outra coisa caso me ignorasse a mim mesmo.

— Então pensas que para conhecer quem somos, basta sabermos o nosso nome, ou que, à maneira dos compradores de cavalo que não crêem conhecer o animal que querem comprar antes de haver examinado se é obediente, teimoso...

— Parece-me, de acordo com o que acabas de dizer-me, que não conhecer o próprio valor equivale a se ignorar a si mesmo.

— Os que se conhecem sabem o que lhes é útil e distinguem o que podem fazer daquilo que não podem: ora, fazendo aquilo de que são capazes, adquirem o necessário e vivem felizes; abstendo-se daquilo que está acima de suas forças não cometem faltas e evitam o mau êxito; enfim, como são mais capazes de julgar os outros homens, podem, graças ao partido que daí tiram, conquistar grandes bens e livrar-se de grandes males... Contrariamente, caem nas desgraças.

Xenofonte, Memoráveis, IV, II, 26.

Fonte: SAUVAGE, M. Sócrates e a Consciência do Homem. São Paulo, Agir, 1959.

Fonte: http://www.ceismael.com.br/filosofia/filosofia016.htm

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Onde há fumaça há fogo!

Esta conhecida máxima é um exemplo que, apesar de trivial, cumpre bem o papel que aqui lhe cabe: ressaltar como alguns pensamentos se petrificam, entram na “tradição” e passam a fazer parte das nossas vidas. Tornam-se verdades, sem passar pelo questionamento sobre a sua fundamentação. Quantas e quantas vezes não afirmamos “isto aconteceu por causa daquilo”. Mesmo sem saber, estamos fazendo uso de um caro conceito filosófico, o de causalidade, que afirma que todo efeito tem, necessariamente uma causa.

Desde Aristóteles (século V a.C.), a causalidade tem fundamentado vários sistemas filosóficos. Até que, no século XVIII, o pensador David Hume a questiona.

Hume não chega a negar a existência da relação causal. Nega simplesmente que se possa ter conhecimento dessa realidade e atribui ao hábito mental (hábito poderia ser entendido como vício) a afirmação dessa concepção. Dois exemplos: se perguntado por que o sol nascerá amanhã, provavelmente responder-se-ia que ele voltará a nascer porque há milhares de anos, todos os dias isso vem acontecendo. Assim, incorre-se numa falácia (erro no raciocínio ou argumentação), a falácia da falsa causa que considera que um acontecimento é causa do outro simplesmente porque um antecede o outro (ontem aconteceu, hoje aconteceu, amanhã deve acontecer). Outra falácia comum é considerar a causa de um efeito algo que não é sua causa real, por exemplo: ao tomar um remédio à base de erva, o senhor Sebastião, depois de duas semanas, curou-se de um resfriado (isso aconteceria com ou sem remédio).

A causalidade é capaz de produzir uma conexão a ponto de nos dar certeza de que a existência de um objeto foi seguida ou precedida de outra existência. Através dela, afirmamos a existência de objetos que não vemos nem ouvimos. Pegando como exemplo o ditado que intitula esse texto: a relação de causalidade entre fogo e fumaça me faz acreditar que quando vejo a fumaça, deve haver fogo em algum lugar que eu não veja.

Mas não poderia ser neblina ou, até mesmo, uma máquina de fumaça?

A noção de causalidade, como vimos, acontece devido ao hábito. A repetição da seqüência de duas impressões faz que cada uma delas comunique a “vivacidade” de outra idéia e nos leva a crer que a outra também existe. Se a existência de uma é acompanhada pela crença na existência da outra, convencemo-nos de que uma não pode existir sem a outra. Convencemo-nos de que entre elas há uma conexão necessária.

A relação causal é intuída, não é captada imediatamente (sem mediação). Essa tese é evidente para os objetos que conhecemos pela primeira vez: “Adão, ainda que tivesse sua racionalidade totalmente desenvolvida, não poderia ter inferido da fluidez e da transparência da água que esta o poderia afogar”. Nem mesmo para os objetos que já conhecemos experimentamos a ação causal: quem poderia intuir o poder nutritivo de um pão? Os sentidos nos informam sobre algumas de suas propriedades (cor, sabor, peso, aroma), mas se nos fosse dado outro corpo semelhante, desprovido de nutrientes, certamente não perceberíamos.

O intuito desse artigo não é que entendamos perfeitamente a lei de causalidade. Esta foi utilizada como pano de fundo para fomentar a nossa reflexão, para que coloquemos em xeque tudo o que temos como verdade absoluta.

Às vezes temos que agir como Descartes que, para iniciar seu sistema filosófico “destruiu o edifício do saber” e começou do zero, desde o alicerce.

Precisamos nos despir de certos conceitos e preconceitos e esvaziar o nosso copo do saber para que possamos enchê-lo com água cada vez mais límpida.

Matheus Arcaro Blog: oqueinspira? - http://oqueinspira.blogspot.com

Fonte: http://www.centro-filos.org.br/odiad/

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Superprático Big Brother Brasil e a sociedade do espetáculo

Por Augusta Cristina de Souza Novaes

Leitor, no momento em que inicio a escrita deste artigo (4/3/2009) está sendo exibida pela Rede Globo a edição nove do reality show Big Brother Brasil. Não assisto ao BBB, mas ao entrar no IG para ler meus e-mails, corri os olhos sobre as notícias do Último Segundo e vi uma chamada para uma entrevista de Pedro Bial concedida ao jornal. Lendo tal entrevista deparei-me com a seguinte fala do apresentador do programa BBB: "Ralf e Milena fazem sexo com regularidade. Quem tem pay per view acompanha.

Augusta Cristina de Souza Novaes é ex-aluna do colégio Sagrado Coração de Jesus de Belo Horizonte, é psicanalista, bacharel em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais e mestre em Letras com ênfase em literaturas de Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. (novaesaugusta@ig.com.br)

A câmera não fica muito tempo neles, não por pudor, mas porque é chato". Em outro momento da entrevista Pedro Bial comenta sobre a rentabilidade do programa: "Este programa está batendo todos os recordes de faturamento (...). É um merchandising matador. Você faz o gosto do freguês." Desse dito o que nos interessa à reflexão é pensar como na sociedade do espetáculo, termo de Guy Debord, ocorre o esvaziamento, a banalização da intimidade e o estrangulamento do desejo humano.

Sabemos que Guy Debord (1931-1994), filósofo e cineasta, publicou, em 1967, o livro Sociedade do espetáculo (Editora Contraponto, 1997), livro este que foi e continua sendo recepcionado pela academia como a crítica insuperável do nosso tempo. De acordo com o próprio filósofo em prefácio à edição de 1992 (Edições Gallimard), uma teoria crítica não se altera, enquanto perdurarem as condições histórico- culturais que lhe deram origem.

Na sociedade capitalista atual, a produção alienada vem juntar-se ao consumo alienado. O consumidor é consumidor de ilusões, conforme afirma Richard Gombin no seu livro As origens do esquerdismo (Lisboa Editora, 1972). Consumidores de ilusões são todos os que, hipnotizados pela cultura de massa, consomem imagens irrefletidamente e da vida autêntica volvem à inautêntica. Quanto mais eles consomem as "imagens dominantes", menos eles compreendem suas existências, seus desejos. Assim, em termos de Debord no livro já citado, o espetáculo é a negação da vida que se tornou visível.

É da ordem do grotesco pessoas copularem diante de câmaras cônscias da existência dessas e de que, o que supostamente seria um momento de intimidade e privacidade de ambas, está sendo filmado. Seria o caso de uma perversão exibicionista, gerada e alimentada pela perversão do nosso triste sistema capitalista2, que não tem pudor e não se detém, quando recordes de faturamento estão sendo obtidos. O fim é fazer o gosto do freguês... Mas, gosto de qual freguês? Do freguês que patrocina ou o do freguês que consome? Antes, qual é o gosto do freguês? O trágico é que o freguês, qualquer que seja ele, encontra-se alienado do seu desejo. Ele simplesmente goza, goza de todos os objetos de gozo que produz e dos que lhe são oferecidos , cedendo ao imperativo do gozo: goze! No discurso do capitalista, todos são escravos!

Na sociedade do espetáculo, as imagens exibidas e consumidas não provocam nenhum movimento de estranhamento no sujeito, o que - se houvesse - o levaria a se perguntar por si mesmo, ao embate com os seus desejos, à escuta do outro de si mesmo; ao acolhimento de outrem. Enfim, à autenticidade. Tal sujeito se subordinaria à lei do desejo, à lei simbólica, e não cederia à face mortífera do gozo. Subordinar-se-ia à força da ética e não à força bruta da razão instrumental.

A intimidade e o erotismo não interessam à sociedade do espetáculo, pois são transgressores. A intimidade e o erotismo apontam para o desejo, para a falta, para a Lei, para a vida e à sua fruição. Apontam para a liberdade, na sua acepção filosófica; apontam para outrem e à sua recusa em se dar como objeto. Apontam à complexidade da realidade humana e nunca para a sua banalização.

Para terminar, leiamos o aforismo 37 de A Sociedade do espetáculo: "O mundo (...) que o espetáculo faz ver é o mundo da mercadoria dominando tudo o que é vivido. E o mundo da mercadoria é assim mostrado como ele é, pois o seu movimento é idêntico ao afastamento dos homens entre si e em relação a tudo que produzem."

Leitor, o mundo vivido em sua autenticidade certamente é o único mundo que interessa ao exercício da nossa humanidade; mundo no qual a dor da gente não sai no jornal!

"O espetáculo na sociedade representa concretamente uma fábrica de alienação"

Debord

"O espetáculo é a ideologia por excelência, porque expõe e manifesta em sua plenitude a essência de todo sistema ideológico: o empobrecimento, a sujeição e a negação da vida real"

Debord

divulgação

Para saber mais

A sociedade do espetáculo, de Guy Debord, publicado pela editora Contraponto em 1997

Fonte:http://filosofiacienciaevida.uol.com.br/ESFI/Edicoes/34/big-brother-brasil-e-a-sociedade-do-espetaculo-133506-1.asp

quarta-feira, 27 de maio de 2009

A Quebra de Paradigmas e o Salto Quântico

Por Tiago A. S. Sowmy

O orbital de um elétron é definido como a somatória das regiões em que você pode encontrá-lo num determinado instante. Se dermos a ele um pouco de energia ele vai dar um salto; um salto definido como quântico, pois quantum é a quantidade de energia que ele necessita para dar esse salto.

Depois do salto, o seu orbital muda. As regiões que ele passa a percorrer são outras, e outras são as suas trajetórias e possibilidades.

Assim também é a consciência. Ela está presa a paradigmas que lhe mostram apenas algumas possibilidades. Quando a consciência recebe um impulso, ou através de um raciocínio, ou através do Amor, esta dá um salto quântico (tem um “insight”) que a muda de posição.

E agora, assim como o elétron, ela irá percorrer possibilidades diferentes e aprenderá trajetórias novas, descobrindo um novo universo a sua volta. Continuará, porém, carregando consigo as experiências passadas, pois estas fazem parte de sua bagagem e de sua essência.

As descobertas de novas vias ou as quebras de um paradigma ocorrem devido à criatividade, que irá ser exercida se a consciência tiver uma mente livre e amorosa.

Fonte: www.viciadosemlivros.com.br - Foto de Louise no SABINA em Santo André - SP.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Paradigmas e a Mente

Por Tiago A. S. Sowmy

A mente é essencialmente um instrumento de identificação, que classifica os objetos por ela percebidos. Ela usa para isso referências pré-concebidas de outras experiências.

Isso não quer dizer que a mente faça uma depuração boa da realidade, já que ela é passível de erro, cabendo ao ser humano discernir entre o certo e o errado usando outros meios.

A mente precisa, então, de um pano de fundo para trabalhar. Esse pano contém regras e exemplos obtidos que são frutos de nossas experiências passadas.

Cada vez que mudamos esse pano de fundo, ocorre uma quebra de paradigma; ocorre uma mudança na nossa forma de pensar e até uma mudança no sentir.

O maior problema é que nos apegamos de tal forma a esse pano de fundo que nos esquecemos de sua fragilidade. O apego escurece o pano e impossibilita que vejamos através dele.

Deixe, portanto, a mente livre e solta para observar o novo e tecer ela própria o pano da realidade, este sim isento de paradigmas, porque está sempre mudando.

Fonte: www.viciadosemlivros.com.br - Foto: Rodovia Ayrton Senna acesso a Itaquá - 26-09-2009 .

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Os Paradigmas

Gustavo Mormesso de Abreu

É provável que você alguma vez já tenha ouvido falar em PARADIGMA. Essa palavra, comumente empregada em referência à ciência, cada vez mais vem sendo utilizada nos mais diversos argumentos e discussões, sejam de cunho filosófico ou espiritual. Lentamente, esse conceito vem adentrando nosso dia-a-dia, despertando novas indagações. O que tem a ver, porém, essa simples palavra com a vida de cada um de nós? O que há de tão importante nesse conceito para merecer o foco de nossa atenção?

Antes de responder a essa pergunta, vamos primeiramente levar nossa consciência ao passado, em busca da compreensão da origem do termo e de seus significados:

A palavra paradigma deriva do grego parádeigma, significando modelo, padrão, estalão.

Thomas Khun, físico e filósofo da ciência explora em sua Estrutura das Revoluções Cientificas, de 1962, a importância dos paradigmas para o desenvolvimento da chamada “ciência normal”. De acordo com sua exposição, os paradigmas atuam como conjuntos de regras, modelos e padrões responsáveis por sustentar e focar os esforços de obtenção de conhecimento científico. Seriam como “guias”, dando rumo às investigações dos cientistas.

A utilização de um paradigma, ou seja, de um conjunto específico de pressupostos teóricos, permitiria aos estudiosos deter sua atenção a questões mais profundas e detalhadas, investigando-os minuciosamente. De outro modo, sem o embasamento de um paradigma vigente, a ciência torna-se por demais tênue e inobjetiva, necessitando cada investigador desenvolver uma explicação a cerca de todos os fundamentos básicos do tema estudado.

O progresso do conhecimento científico dá-se através das chamadas revoluções científicas, ou trocas do paradigma vigente por um outro mais adequado. Essas revoluções surgem de crises geradas por anomalias, ou problemas graves cada vez mais freqüentes na explicação do paradigma vigente, surgindo a necessidade de substituição. Quando um novo paradigma emerge, capaz de melhor explicar os fenômenos e anomalias em questão, e este é aceito pela comunidade científica em sua maioria, ocorre uma revolução científica. Um exemplo dessa revolução foi a surgimento da física relativista proposta por Einstein, cuja explicação de mundo parecia mais acurada do que a explicação newtoniana anteriormente aceita.

A atuação e importância dos paradigmas não se resumem, porém, meramente a questões científicas. Esses valores, regras ou padrões estão de tal modo arraigados em nosso ser, que comandam cada ação e pensamento de nossa vida sem que sequer tomemos consciência de sua existência.

Pensemos por um instante em nossas ações diárias. Recordemo-nos dos momentos em que pagamos uma conta, entramos em uma igreja, realizamos um trabalho espiritual, beijamos nosso companheiro ou companheira, assistimos a uma aula. Lembremos também do modo como realizamos cada uma dessas tarefas, e façamos então a pergunta: o que nos levou a agir de tal modo e não de maneira diferente? Essa escolha entre atitudes foi baseada em experiência pessoal, ou aprendida de alguma outra forma?

Certamente é uma pergunta difícil de ser respondida. Não devido à alguma complexidade existente, pelo contrário, a questão é bem simples e direta. O que ocorre é que estamos tão condicionados a aceitar influências externas que não sabemos mais separar o que é verdadeiramente nosso e o que não é. Até porque o costume de olhar para si mesmo e observar-se profundamente não é freqüente nem estimulado.

A própria estrutura social em que vivemos, sob todos os aspectos, é grandemente responsável por tal comportamento. Nossa educação, seja básica, fundamental ou superior, é baseada em um método reprodutivo, de transmissão de informações prévias, onde não há espaço para questionamentos ou para formação de um conhecimento original. Através da educação paternal atual, do modelo “professor-aluno” de transmissão de conhecimentos - no qual os estudantes vão à aula unicamente para ouvir o que um professor irá dizer - e em tantos outros padrões espalhados por nossa sociedade, aprendemos a assimilar de modo subserviente e passivo o meio externo. Aprendemos a não questionar, nem o outro, nem nós mesmos. O curioso é que quando fazemos isso estamos na verdade nos esquecendo de viver!

Muito radical essa afirmação? Então atentemo-nos um pouco aos detalhes e levemos nossa consciência novamente ao passado e às ações diárias:

É provável que você se lembre muito bem de seu primeiro beijo, por exemplo. Pois bem, lembre-se agora de como surgiu essa ocasião do primeiro beijo. Faça um esforço, e tente lembrar de quantos anos você tinha, dos pensamentos que passavam por sua cabeça na época, e responda para você mesmo: Porque eu dei meu primeiro beijo com essa idade? Por necessidade, para que me sentisse bem? Claro, mas de onde surgiu essa necessidade? O que fez com que eu sentisse esse grande desejo ou curiosidade de beijar alguém? Busque a raiz de seu comportamento, vá até o mais fundo possível e tente perceber a origem da necessidade. Se era esta verdadeiramente devido a fatores internos, ou se era algo aprendido e gerado devido ao meio.

Pode parecer um exemplo bobo - bem provável que o seja -, mas se o leitor se atentar verá que pode ilustrar bem a situação que tento explanar. Continuemos, então, com algumas outras considerações;

Pensemos agora nos discursos que usamos diariamente, em cada argumento utilizado a cada diferente situação. O que dizemos é fruto de experiência, refletindo o que realmente vivenciamos, ou é mera reprodução de um discurso externo? Nossos pensamentos são realmente nossos, ou são ecos de vozes alheias, reproduzindo-se em nosso espaço mental?

Por mais difícil que seja, olhe atentamente. Lembre-se dos conselhos que damos aos amigos, das informações que passamos para frente. De onde tiramos essas informações? De nossa experiência? Ou passamos adiante algo que simplesmente lemos em algum lugar, ou ouvimos de um professor “competente”?

Quantas e quantas vezes emitimos julgamento sobre o discurso de outras pessoas, criticando-o, achando-o até absurdo, baseando-nos para isso em uma vivência que não é nossa, mas sim dos autores dos livros que lemos e das palestras que assistimos. Quantas vezes desconsideramos a pessoa por seus argumentos serem contrários aos nossos valores mais profundos, esquecendo que estes muitas vezes baseiam-se em pura CRENÇA.

Façamos um real balanço de nossa vida, de todo o conjunto de valores que possuímos e experiências por que passamos. Deixemos de lado por alguns instantes tudo o que aprendemos indiretamente durante toda a jornada de nossa vida, despojando-nos de todas as informações, pré-conceitos, valores e idéias introduzidos através de leitura, diálogos, ou qualquer outro meio externo. Façamos isso, e respondamos honestamente: O que sobrou? Quanto de nosso ser é realmente nosso, fruto de verdadeira experiência, obtida diretamente? De quem é a vida que vivemos nesse momento?

Provavelmente nos surpreenderemos com a resposta. Estamos tão acostumados a acreditar em tal sorte de coisas, tão habituados a tomar tantas e tantas crenças como verdades incontestáveis que acabamos por não nos preocupar em vivenciar o que aprendemos. Acreditamos firmemente quando cientistas nos dizem que a matéria é composta por átomos, mesmo que estes nunca tenham sido verdadeiramente vistos. Afirmamos certeza ao discursar sobre os mais detalhados aspectos de teorias religiosas e espirituais, mesmo que não tenhamos vivenciado plenamente a realidade das palavras que proferimos, ou dos fenômenos que ocupamo-nos em explicar.

Essas crenças básicas que caracterizam a nossa vida, fazendo parte da maioria absoluta de nosso repertório de experiências, são na verdade os paradigmas a que este texto se refere. Como pôde ser visto, não se trata apenas de um conjunto de regras e padrões determinantes de um contexto científico. Muito além disso, trata-se das unidades básicas pelas quais geralmente formamos as nossas idéias e opiniões. O nosso contato com esse termo inusual é certamente muito maior do que poderíamos anteriormente imaginar.

Não quero com essas palavras dizer que os paradigmas são de todo ruins ou indesejáveis. Pelo contrário, eles têm grande utilidade, pois nos permitem focar certos objetivos, investir melhor nosso tempo. Podemos mesmo dizer que a nossa forma atual de vida seria impossível sem a presença de paradigmas. (ou não será isso um paradigma?)

O importante é atentar-se a eles, entender a sua origem e as conseqüências de cada valor internalizado. É ser coerente e verdadeiro para consigo mesmo, buscando a experiência de modo direto e não por mera reprodução de experiências alheias. É construir os valores através de uma experiência pessoal, deixando de ACREDITAR e passando a SABER.

O modo pelo qual a sabedoria se dá não importa. A certeza vem, de dentro, e por todos os lados, cabendo a cada um descobrir como buscá-la.

Possamos primeiramente ter coragem e discernimento para aceitar a ignorância sobre nosso próprio ser e o mundo. A partir daí, possamos buscar juntos a sabedoria, o verdadeiro conhecimento sobre a realidade que nos cerca. Quando essa busca se originar de dentro, de dentro também a experiência virá. Deixaremos então de pensar por pensar, e passaremos a sentir. Deixaremos de acreditar, e passaremos a saber. Deixaremos, por fim, de nos imaginar. Passaremos a ser, simplesmente SER.

Fonte: www.viciadosemlivros.com.br

domingo, 24 de maio de 2009

Filosofia Geral e Os Pensadores - Download

Alberto Mesquita - Dialética e Ciência oriental antiga (doc-capítulo de livro) Alberto Onate - A noção husserliana de subjetividade transcendental Aldous Huxley - A Filosofia Perene Aldous Huxley - Regresso ao Admirável Mundo Novo André Duarte - O Pensamento à sombra da cultura política e filosofia em Hannah Arendt Ann Margaret Sharp - Projeto Filosofia para Crianças Anônimo - Apostila de Filosofia Anthony Quinton - A Filosofia Analítica António Damásio - O Mistério da Consciência Auguste Comte - Discurso preliminar sobre o espírito positivo Bento Prado - a filosofia e a visão comum do mundo - oswaldo porchat Boaventura de Sousa Santos - Discurso sobre as ciencias Breton - Manifesto do Surrealismo Bryan Magee - Apontamentos de história da filosofia Caio Prado Jr. - O que e filosofia Cesar Ramos - Maquiavel - O Exterminador do Futuro César Schirmer dos Santos - A Árvore do Conhecimento e a Certeza dos seus Frutos Charles Taylor - Argumentos Filosóficos Comte - Discurso Preliminar Sobre o Espirito Positivo Eduardo Sugizaki - Aforismos e máximas em La Rochefoucauld, Pascal, Nietzsche e Cioran Eduardo Sugizaki - Apostila de curso - A moral e a ética definições e origens Eduardo Sugizaki - Apostila de curso - A moral e a Ótica Definições e Origens Eduardo Sugizaki - Segunda Apostila de Curso - Aforismos e Máximas em La Rochefoucauld, Pascal, Nietzsche e Cioran Einstein - Sobre a liberdade Ensino de Filosofia e Esegese Erasmo de Rotherdan - O Elogio da Loucura Ernst Cassirer - antropologia filosofica Fernando Savater - Ética para meu filho Ferrater Mora - Fundamentos de filosofia [pdf-espanhol] Filosofia - Textos sobre Paradigmas Filósofos Clássicos e Problemas da Filosofia Francis Bacon - A Sabedoria dos Antigos Georges Politzer - Albert Bayet e Sören Kierkgaard Hilan Bensusan - Alguns racionalismos e empirismos contemporâneos Inácio Pinzetta - O Edificante em Hegel e Kierkgaard Introdução ao Discurso Filosófico da Modernidade [pdf] James Rachels - Elementos de filosofia moral Jean Paul - Richter - Cristo Morto Jean-Paul Dumont - Ceticismo John Gray - Voltaire e o Iluminismo Jose N. Heck - Moral e Etica em Habermas Jostein Gaarden - O Mundo de Sofia Karl Jaspers - Introducao Ao Pensamento Filosófico Karl Popper - Em Busca de Mundo Melhor Laerte moreira - Apostila de filosofia - 1ª parte Laerte moreira - Apostila de filosofia - 2ª parte Laerte Moreira dos Santos - Apostila de Ética e Política Laerte Moreira dos Santos - Apostila de Filosofia da Ciência Lewis Edwin Habo - A filosofia de paul ricoeur Lou Marinoff - Mais Platão Menos Prozac Marco Aurélio Werle - Hegel e Walter Benjamin Maria Leonor Xavier - O Mestre Santo Agostinho Mariluze Ferreira - As Teorias Humanistas (DOC-Artigo) Mathew Lipman - A Filosofia e o Desenvolvimento do Raciocínio Michel Maffesoli - Elogio da Razão Sensivel Miguel Spinelli - O Um existe em si ou é uma exigência da razão Mircea Eliade - A Prova do Labirinto Montesquieu - O Espírito das Leis ND - A Filosofia e sua Importância nos Dias Atuais ND - Analise Camus e o Suicidio Newton Aquiles von Zuben - Os Caminhos da Fenomenologia O Existencialismo Básico O que é Epistemologia Os Pensadores-Burke-Kant-Hegel-Tocqueville-Mill-Marx Pascal - O Homem perante a natureza Pascal - Pensamentos (RB-Livro com 25 Artigos do autor) Paulo Ghiraldelli - O Futuro Filosofia e o mundo virtual Paulo Ghiraldelli - Pragmatismo e Neopragmatismo Paulo Ghiraldelli Jr. - Pragmatismo e Neopragmatismo Pe. Leonel Franca - O Positivismo de Augusto Comte Pedro Caldas - Comparação Nietzsche e Hegel PUC Campinas - A equipossibilidade volitiva e cognitiva do puro sujeito-objeto em Schelling PUC Campinas - O realismo e o idealismo focalizando o conhecimento matemático PUC-Rio Artigo - Crítica da cultura em torno de Goethe e Dostoievsky Remo Bodei - A Filosofia do Século XX Remo Bodei - A Filosofia do Século XX Revista de Filosofia PUC-PR Revista dois Pontos - Dialética e experiência Revista Episteme - O conhecimento matemático no idealismo e no realismo Revista Kriterion - As Filosofias de Schelling [pdf-resenha de livro] Revista Kriterion - Cassirer e Sartre sobre o esclarecimento Revista simposium PUC-PE Revista Tempo social USP - A Dialética como discurso do método Revista Transformação - Berkeley - Dos infinitos Revista Transformação - Heidegger e Foucault críticos da modernidade Ricardo Di Bernardi - Dos Faraos a Fisica Quantica Ricardo Feldmann - Epistemologia (doc-capítulo) Rom Arré - As Filosofias das Ciências Rosaura Paranhos - A Caminho do Super-Homem - Quixote e Carlitos -Dois Símbolos para a Compreensão do Homem Atual Rosemary Pedrosa & Rochelle Garcia - Dicionário de Filosofia Clínica (lit) Sêneca - Sobre a Brevidade da Vida Simon Blackburn - Para que serve a Filosofia Simon Blackburn - Para que serve a Filosofia Sociedade das Ciências Antigas (SCA) - Introdução à Filosofia Spinoza - Tratado da Correcao do Intelecto Spinoza - Tratado da Correção do Intelecto Susan Haack - Filosofia das Lógicas Túlio Velho Barreto - Positivismo Universidade de Coimbra - A Intuição intelectual de Fichte www.ief.uc.pt Universidade Estadual Campinhas Tese - O Sentido ético-estético do corpo na cultura popular William James - Pragmatismo Download http://www.4shared.com

sábado, 23 de maio de 2009

Karl Marx - O filósofo da revolução

O pensador alemão, um dos mais influentes de todos os tempos, investigou a mecânica do capitalismo e previu que o sistema seria superado pela emancipação dos trabalhadores

Márcio Ferrari

Foto: Hulton Archive/Getty Images
Foto: Hulton Archive/Getty Images

Numa de suas frases mais famosas, escrita em 1845, o pensador alemão Karl Marx (1818-1883) dizia que, até então, os filósofos haviam interpretado o mundo de várias maneiras. "Cabe agora transformá-lo", concluía. Coerentemente com essa idéia, durante sua vida combinou o estudo das ciências humanas com a militância revolucionária, criando um dos sistemas de idéias mais influentes da história. Direta ou indiretamente, a obra do filósofo alemão originou várias vertentes pedagógicas comprometidas com a mudança da sociedade (leia quadro na página 54). "A educação, para Marx, participa do processo de transformação das condições sociais, mas, ao mesmo tempo, é condicionada pelo processo", diz Leandro Konder, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. No século 20, o pensamento de Marx foi submetido a numerosas interpretações, agrupadas sob a classificação de "marxismo". Algumas sustentaram regimes políticos duradouros, como o comunismo soviético (1917-1991) e o chinês (em vigor desde 1949). Muitos governos comunistas entraram em colapso, por oposição popular, nas décadas de 1980 e 1990. Em recente pesquisa da rádio BBC, que mobilizou grande parte da imprensa inglesa, Marx foi eleito o filósofo mais importante de todos os tempos.

Luta de classes

Na base do pensamento de Marx está a idéia de que tudo se encontra em constante processo de mudança. O motor da mudança são os conflitos resultantes das contradições de uma mesma realidade. Para Marx, o conflito que explica a história é a luta de classes. Segundo o filósofo, as sociedades se estruturam de modo a promover os interesses da classe economicamente dominante. No capitalismo, a classe dominante é a burguesia; e aquela que vende sua força de trabalho e recebe apenas parte do valor que produz é o proletariado. O marxismo prevê que o proletariado se libertará dos vínculos com as forças opressoras e, assim, dará origem a uma nova sociedade. Segundo Marx, o conflito de classes já havia sido responsável pelo surgimento do capitalismo, cujas raízes estariam nas contradições internas do feudalismo medieval. Em ambos os regimes (feudalismo e capitalismo), as forças econômicas tiveram papel central. "O moinho de vento nos dá uma sociedade com senhor feudal; o motor a vapor, uma sociedade com o capitalista industrial", escreveu Marx. A obra de Marx reúne uma grande variedade de textos: reflexões curtas sobre questões políticas imediatas, estudos históricos, escritos militantes – como O Manifesto Comunista, parceria com Friedrich Engels – e trabalhos de grande fôlego, como sua obra-prima, O Capital, que só teve o primeiro de quatro volumes lançado antes de sua morte. A complexidade da obra de Marx, com suas constantes autocríticas e correções de rota, é responsável, em parte, pela variedade de interpretações feitas por seus seguidores.

Trabalho e alienação

Em O Capital, Marx realiza uma investigação profunda sobre o modo de produção capitalista e as condições de superá-lo, rumo a uma sociedade sem classes e na qual a propriedade privada seja extinta. Para Marx, as estruturas sociais e a própria organização do Estado estão diretamente ligadas ao funcionamento do capitalismo. Por isso, para o pensador, a idéia de revolução deve implicar mudanças radicais e globais, que rompam com todos os instrumentos de dominação da burguesia. Marx abordou as relações capitalistas como fenômeno histórico, mutável e contraditório, trazendo em si impulsos de ruptura. Um desses impulsos resulta do processo de alienação a que o trabalhador é submetido, segundo o pensador. Por causa da divisão do trabalho – característica do industrialismo, em que cabe a cada um apenas uma pequena etapa da produção –, o empregado se aliena do processo total. Além disso, o retorno da produção de cada homem é uma quantia de dinheiro, que, por sua vez, será trocada por produtos. O comércio seria uma engrenagem de trocas em que tudo – do trabalho ao dinheiro, das máquinas ao salário – tem valor de mercadoria, multiplicando o aspecto alienante. Por outro lado, esse processo se dá à custa da concentração da propriedade por aqueles que empregam a mão-de-obra em troca de salário. As necessidades dos trabalhadores os levarão a buscar produtos fora de seu alcance. Isso os pressiona a querer romper com a própria alienação. Um dos objetivos da revolução prevista por Marx é recuperar em todos os homens o pleno desenvolvimento intelectual, físico e técnico. É nesse sentido que a educação ganha ênfase no pensamento marxista. "A superação da alienação e da expropriação intelectual já está sendo feita, segundo Marx", diz Leandro Konder. "O processo atual se aceleraria com a revolução proletária para alcançar, afinal, as metas maiores na sociedade comunista."

Tempo de utopias e rebeliões na Europa

Militares cercam estátua de Napoleão derrubada durante a Comuna de Paris: Marx chega às ruas. Foto: Hulton Archive /Getty Images
Militares cercam estátua de Napoleão derrubada durante a Comuna de Paris: Marx chega às ruas. Foto: Hulton Archive /Getty Images

Marx viveu numa época em que a Europa se debatia em conflitos, tanto no campo das idéias como no das instituições. Já na universidade, as doutrinas socialistas e anarquistas se encontravam no centro das discussões dos grupos que Marx freqüentava. Alguns dos pensadores que então alimentavam as esperanças transformadoras dos estudantes hoje são chamados de "socialistas utópicos", como o britânico Robert Owen (1771-1858) e os franceses Charles Fourier (1772-1837) e Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865). Dois momentos da história européia foram vividos por Marx intensamente e tiveram importantes reflexos em sua obra: as revoltas antimonárquicas de 1848 – na Itália, na França, na Alemanha e na Áustria – e a Comuna de Paris, que, durante pouco mais de três meses em 1871, levou os operários ao poder, influenciados pelas idéias do próprio Marx. A insurreição acabou reprimida, com um saldo de 20 mil mortes, 38 mil prisões e 7 mil deportações.

Aprendizado para a mente, o corpo e as mãos

Litografia do século 19 mostra metalúrgica italiana: Marx aprovava ensino nas fábricas. Foto: Corbis/Stock Photos
Litografia do século 19 mostra metalúrgica italiana: Marx aprovava ensino nas fábricas. Foto: Corbis/Stock Photos

Combater a alienação e a desumanização era, para Marx, a função social da educação. Para isso seria necessário aprender competências que são indispensáveis para a compreensão do mundo físico e social. O filósofo alertava para o risco de a escola ensinar conteúdos sujeitos a interpretações "de partido ou de classe". Ele valorizava a gratuidade da educação, mas não o atrelamento a políticas de Estado – o que equivaleria a subordinar o ensino à religião. Marx via na instrução das fábricas, criada pelo capitalismo, qualidades a ser aproveitadas para um ensino transformador – principalmente o rigor com que encarava o aprendizado para o trabalho. O mais importante, no entanto, seria ir contra a tendência "profissionalizante", que levava as escolas industriais a ensinar apenas o estritamente necessário para o exercício de determinada função. Marx entendia que a educação deveria ser ao mesmo tempo intelectual, física e técnica. Essa concepção, chamada de "onilateral" (múltipla), difere da visão de educação "integral" porque esta tem uma conotação moral e afetiva que, para Marx, não deveria ser trabalhada pela escola, mas por "outros adultos". O filósofo não chegou a fazer uma análise profunda da educação com base na teoria que ajudou a criar. Isso ficou para seguidores como o italiano Antonio Gramsci (1891-1937), o ucraniano Anton Makarenko (1888-1939) e a russa Nadia Krupskaia (1869-1939).

Biografia

Karl Marx nasceu em 1818 em Trier, sul da Alemanha (então Prússia). Seu pai, advogado, e sua mãe descendiam de judeus, mas haviam se convertido ao protestantismo. Estudou direito em Bonn e depois em Berlim, mas se interessou mais por filosofia e história. Na universidade, aproximou-se de grupos dedicados à política. Aos 23 anos, quando voltou a Trier, percebeu que não seria bem-vindo nos meios acadêmicos e passou a viver da venda de artigos. Em 1843, casou-se com a namorada de infância, Jenny von Westphalen. O casal se mudou para Paris, onde Marx aderiu à militância comunista, atraindo a atenção de Friedrich Engels, depois amigo e parceiro. Foi expulso de Paris em 1845, indo morar na Bélgica, de onde também seria deportado. Nos anos seguintes, se engajou cada vez mais na organização da política operária, o que despertou a ira de governos e da imprensa. A Justiça alemã o acusou de delito de imprensa e incitação à rebelião armada, mas ele foi absolvido nos dois casos. Expulso da Prússia e novamente da França, Marx se estabeleceu em Londres em 1849, onde viveu na miséria durante 15 anos, ajudado, quando possível, por Engels. Dois de seus quatro filhos morreram no período. O isolamento político terminou em 1864, com a fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores (depois conhecida como Primeira Internacional Socialista), que o adotou como líder intelectual, após a derrota do anarquista Mikhail Bakunin. Em 1871, a eclosão da Comuna de Paris o tornou conhecido internacionalmente. Na última década de vida, sua militância tornou-se mais crítica e indireta. Marx morreu em 1883, em Londres.

Para pensar

A alienação de que fala Marx é conseqüência do afastamento entre os interesses do trabalhador e aquilo que ele produz. De modo mais amplo, trata-se também do abismo entre o que se aprende apenas para cumprir uma função no sistema de produção e uma formação que realmente ajude o ser humano a exercer suas potencialidades. Você já pensou se a educação, como é praticada a seu redor, procura dar condições ao aluno para que se desenvolva por inteiro ou se responde apenas a objetivos limitados pelas circunstâncias?

Quer saber mais?

A Ideologia Alemã, Karl Marx e Friedrich Engels, 168 págs., Ed. Martins Fontes, tel. (11) 3241-3677, 27,10 reais Marx – Ciência e Revolução, Márcio Bilharinho Naves, 144 págs., Ed. Moderna, tel. 0800-172-002 (edição esgotada) Marx e a Pedagogia Moderna, Mario Alighiero Manacorda, 200 págs., Ed. Cortez, tel. (11) 3864-0111 (edição esgotada) Marx – Vida e Obra, Leandro Konder, 126 págs., Ed. Paz e Terra, tel. (11) 3337-8399, 25 reais

Fonte: http://revistaescola.abril.com.br/historia/pratica-pedagogica/karl-marx-filosofo-revolucao-428135.shtml

sexta-feira, 22 de maio de 2009

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Onde estamos?

Todo mundo necessita de um abrigo, de um esconderijo. Nossa Casa precisa refletir isso. por Marcia Tiburi

Perguntar “onde você está” é tão importante quanto perguntar “quem você é”. É bom aproveitar essa distinção própria da língua portuguesa e rara em outras línguas para filosofar sobre o espaço. A resposta pode ser a mais simples e direta: estou “aqui”. Porém, dizer “aqui” impressiona por causa de seu caráter abstrato.

Ninguém consegue explicar direito o que é “aqui” sem descrever como é o “aqui”, e o que tem à sua volta. Explicar o que é o “lá” ou o “aí” onde o outro se encontra só é possível a partir das notícias do que pode estar acontecendo. O aqui ou aí é sempre um lugar construído. Depende do que encontramos nele para explicá-lo. Depende da interpretação de cada um. Ou seja, da capacidade de revelar uma experiência. A experiência, porém, depende da capacidade de contar o que se viu, se ouviu ou se pensou. O lugar enquanto tal não existe. Precisamos do nosso imaginário para construí-lo. Isso explica por que nossas casas, nossa cidade e nosso país são tão importantes para nós. Mas nem sempre. Podemos ser totalmente desatentos ao lugar onde vivemos.

A arquitetura é a arte do lugar. Surgiu para elaborar a experiência que temos com o espaço. Não é apenas a construção dos prédios, a escolha de sua estética, do estilo das casas e das cidades que mudam com o tempo. Não é apenas design, elaboração da aparência, mas a arte que nos mostra o que significa habitar um lugar.

Vivemos em tempos em que cada metro quadrado vale muito, em que as distâncias entre trabalho e casa tornam-se problema cotidiano. Só a arte pode nos ajudar a entender onde vivemos e por que vivemos como vivemos.

A caverna de Platão

Por isso, a alegoria da caverna de Platão, sobre a qual trata o livro 7 de uma das mais importantes obras desse filósofo, a República, é ainda relevante hoje. Muitos conhecem o texto como uma interpretação da lucidez dos filósofos contra a ignorância dos que não pensam e permanecem a crer nas sombras dentro da caverna. Essa é uma interpretação correta, mas podemos ir além. A caverna da alegoria é uma habitação. As pessoas vivem ali cegas do que se passa ao seu redor. Não têm experiência do que vivem e por isso podemos dizer que não habitam. Olham as sombras projetadas no fundo da caverna como se fossem as coisas reais. Para elas tanto faz o que acontece.

Quando Platão desenvolve essa narrativa, seu interesse é dizer que as idéias, não as coisas, é que são verdadeiras; que há algo mais verdadeiro além do mundo que a visão alcança. Hoje em dia podemos resumir a idéia de Platão à desatenção que temos pelo mundo que nos cerca.

Pensar e morar

Platão escreveu a República pensando numa utopia, na organização perfeita de uma cidade. A casa estava dentro dela e não deveria ser uma caverna. As pessoas teriam de ter paciência para sair dela.

Hoje, porém, a caverna, que para Platão era uma metáfora, tornou-se também real. Sair da caverna hoje significa enfrentar a verdade da rua. Perceber o quanto nossa casa, nosso modo de morar é o resultado do que nos oferece a sociedade. Nossa casa é o resultado da vida comum, do que entendemos que é a rua hoje. Apartamentos pequenos com cômodos onde apenas um pode entrar, muros altos, grades protetoras. Um dos aspectos mais significativos é o tamanho minúsculo das janelas dos apartamentos em prédios novos. Grandes vidraças ou sacadas são um luxo em um tempo em que ver a rua, a cidade com suas luzes e sombras, se tornou acessível a poucos. Ver é um luxo. Como posso entrar em casa e perceber que o mundo que está lá fora também me pertence? Que o que está fora de casa faz parte de minha casa, se sempre aparece separado do que eu vivo? Onde está a arquitetura que deveria nos ajudar a habitar o lugar onde vivemos?

Minha casa

Espaço é um luxo tão grande quanto o tempo. O espaço é a dimensão do corpo e da relação entre os corpos que nos permite ter sensação de aproximação e distância. A distância é o lugar onde não podemos habitar. É a rigor um não-lugar? Nosso mundo está cheio dela. Por isso, vivemos sem lugar e encontrar um traz a sensação de completude.

Todos os seres, animais e humanos, precisam de abrigo, esconderijo, descanso, conforto. Uma casa significa tudo isso. Mas podemos morar nela sem habitá-la. É o que acontece conosco quando desistimos de pensar no Universo, no planeta Terra, no continente, no país, na sociedade, na cidade, no bairro, na comunidade. Nosso lar é onde aprendemos o que é habitar. Nele a aproximação deve estar acima da distância.

Nossa casa mais próxima, a das quatro paredes ao nosso redor, pode se tornar uma caverna como a de Platão. Lugar onde nos escondemos e aos nossos tesouros, lugar sem relação com o mundo fora dele. A caverna é uma crença que deveríamos tentar desmistificar quando a tendência é que as casas se transformem em cavernas. Que a distância supere a aproximação. Nosso mundo será bárbaro se isso acontecer. Hoje, enquanto o espaço diminui, a distância entre nós aumenta. Saber da distância é o único jeito de ser maior do que ela.

Marcia Tiburi é filósofa, escritora e artista plástica. Integra o programa Saia Justa, do canal de TV a cabo GNT.

Fonte: http://vidasimples.abril.com.br/edicoes/064/filosofia/conteudo_269918.shtml

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Essa tal de filosofia

Saiba o que é filosofia

e descubra como ela

pode ajudá-lo a viver melhor

e com mais sabedoria

por Marcia Tiburi

“O que é filosofia?” é uma das perguntas mais formuladas na atualidade. A primeira resposta que vem à mente para explicar a intensidade e freqüência com que essa pergunta é colocada é a seguinte: se estamos em tempos de crise em campos tão diferentes quanto a ciência, a política, a arte e a religião, a filosofia nos faz uma nova proposta, não de nos livrar da crise, mas de compreendê- la. Ela se apresenta como uma promessa de lucidez no meio de toda a confusão que nos cerca.Mas de onde vem a lucidez prometida?

O que a filosofia nos oferece é o próprio sentido do pensamento como capacidade humana que pode nos mostrar outras dimensões da vida, nos oferecer novas visões sobre o que existe.Mas isso porque, em vez de nos prometer respostas, a filosofia nos ensina a perguntar. A filosofia investiga o sentido das múltiplas experiências, vivências e modificações de nossa época.Com isso, ela pode ajudar a entender, com a urgência que conhecemos, as ansiedades coletivas e nossas próprias angústias.

Perguntar para quê?

A pergunta pela essência (“o que é?”) se acompanha de outra: qual a função da filosofia nos dias de hoje? Ou seja, qual a função prática de algo que nos acostumamos a ver como apenas teórico?

A filosofia pode ser, acima de tudo, um lugar de exercício do imenso desejo de saber sobre a vida, sobre nós mesmos, sobre tudo o que experimentamos. O sentido das coisas é um problema que enfrentamos em nosso dia-a-dia mais comum. Mas o sentido não está pronto e acabado, ele precisa ser construído. O pensamento é a atividade de construção do sentido e, além disso, pensar também é um prazer muito específico.

O exercício da dúvida

Há uma curiosidade aqui de início, pois “o que é filosofia?” é uma pergunta que também pode ser uma resposta. Pois a filosofia é um processo de perguntar sobre todas as coisas – e que se inicia, desde os gregos, logo indagando sobre ela mesma. Perguntar sobre o que é filosofia é o primeiro passo para a descoberta essencial da própria filosofia: pois aquele que pergunta também é capaz de elaborar uma resposta. E assim é possível entender como funciona o pensamento filosófico.

Já entramos na filosofia quando perguntamos “o que é filosofia?”. A melhor imagem para ilustrar esse caminho é a do labirinto. Claro que podemos ir embora rapidinho, assustados, cansados, chateados com uma questão que pode nos soar banal. Ou até pensando que esse labirinto vai dar muito trabalho e que podemos não encontrar mais a saída. Podemos também circular e continuar abrindo portas, encontrando caminhos. É certo que, ao entrar nele, a cada possibilidade ficaremos em dúvida sobre que caminho seguir. Direita, esquerda, em frente, um passo atrás? O processo de pensamento a que chamamos filosofia é, sobretudo, um exercício constante de dúvida. E toda dúvida exercita-se pela pergunta que se desdobra em muitas outras e para as quais não há uma única resposta.

Por que não há uma única resposta? Veja, aí já apareceu outra pergunta como uma nova possibilidade no caminho do labirinto. Não apenas nosso pensamento é incansável e criativo e se diverte em seu próprio jogo, mas também existem perspectivas diferentes de todos os que perguntam e também da época em que perguntam: e tudo isso obriga a muitas interpretações. O que eu pergunto hoje, aqui e agora, ou você ou ele, é diferente em função da realidade cultural, social e histórica de cada um e exige, por isso, revisão das respostas. Mas é certo também que existem respostas interligadas e, muitas vezes, respostas até iguais. Tudo isso faz parte do grande labirinto a que chamamos pensamento. Não é à toa que nas sociedades antigas o labirinto era uma imagem do autoconhecimento. Como num labirinto, o pensamento nos leva de volta a nós mesmos.

Para muitos que desejam chegar direto à resposta, sem passar pelo processo, isso será mesmo assustador. Os que desistem espantados sempre escolhem alguma crença: a fé no trabalho, a fé religiosa, a fé no sistema financeiro, no amor, na família. A filosofia não é, necessariamente, incompatível com a multiplicidade da fé, mas ela certamente oferece espaço para a dúvida em nosso cotidiano. Ela nos ensina a tomar cuidado com as certezas. É ela também que fornece bases para a nossa vida mais comum, para compreender decisões, omissões, posturas, imposturas, o que entendemos como verdadeiro e o que percebemos como falso.Depois ela nos ensina a optar por algumas certezas. Sem essa dúvida inicial não somos capazes de firmar nenhuma certeza que nos dê paz de espírito.

Eu penso, nós pensamos

A filosofia precisa ser o exercício de cada um. Nossas ações dependem de conceitos e idéias, de definições e entendimentos. Se não os temos, ou não os compreendemos bem, acabaremos agindo com idéias, conceitos e definições que não são nossos. Olharemos o mundo com lentes emprestadas. Por usar óculos de outros é que nosso foco muitas vezes está errado, pois é impossível ver apenas pela perspectiva de outro.

Mas precisamos ouvir os outros. É preciso saber, portanto, que esse momento individual se complementa pela conversação (que é outra das maiores e mais importantes dimensões da vida de cada um). Se eu posso pensar sozinho, devo pensar também junto.Tudo o que eu penso, ainda que seja meu, é marcado pelo mundo onde nasci, pela língua e pela cultura que recebi. Não viemos do nada. Somos totalmente influenciados pelo que vemos e sentimos quando elaboramos nossos pensamentos. A filosofia melhora a forma da relação entre pessoas que se dedicam a conversar. É dessa troca (pensamento e conversa) que ela surge.

A conseqüência do processo do pensamento foi definida ainda nos primórdios da filosofia nas reflexões de Sócrates, o principal personagem dos diálogos escritos por Platão. Ele batizou de “maiêutica” o método de perguntar e responder e afirmou que por meio disso se chegava ao conhecimento de si mesmo.Mas para conhecer a si mesmo é preciso ter o outro.O outro sempre nos põe em dúvida. A filosofia nos ajuda, nesse caso, a nos descobrirmos, mas apenas porque descobrimos antes o outro que nos ouve, que nos olha e que (literalmente) “troca idéias” conosco. O caminho do autoconhecimento não é a meditação solitária, sem contato com outras idéias diferentes. É abrir-se ao outro, seja outra pessoa, seja o mundo lá fora. Pois a verdade sobre si mesmo se encontra naquilo que se contempla.

Filosofia é encontro

Quando pensamos juntos, a filosofia assume sua característica de encontro e se torna uma forma de ética e política. Não é por menos que o surgimento da filosofia na Grécia, por volta do século 5 a.C., é simultâneo ao nascimento da democracia, ou seja, uma forma de política que é consciente da relação entre cada cidadão e a sociedade. A filosofia clássica sempre trabalhou essa dimensão por meio das idéias de indivíduo versus totalidade, do que cada um é e do que a vida exige que cada um seja.

Aquilo que chamamos de ética, por sua vez, surgiu naquele tempo, logo depois do primeiro questionamento da filosofia sobre a natureza e o cosmo, quando os pensadores se voltaram para o humano e tentaram entender seu modo de ser dentro do cosmo e juntos uns dos outros. Ética e política estavam juntas com a filosofia, dependendo dela no trabalho da dúvida exigido na busca do conhecimento. Com isso os filósofos antigos deixavam claro que toda teoria envolvia uma prática, que os pensamentos moviam o mundo, que as idéias sustentavam posturas, que os conceitos organizavam formas de vida. A idéia de prática significava um modo de vida que orientava a pergunta “o que se deve fazer?” (que até hoje nos angustia em todas as horas da nossa vida).

E agora? A filosofia precisa ser, para todos nós, mais que mera teoria construída por filósofos que hoje habitam as estantes da biblioteca, deve ser mais que bela prosa ou belo pensamento. Só será verdadeira a filosofia que estimular a reflexão e nos orientar sobre o que estamos fazendo conosco, com o mundo, com nossa racionalidade e com nossos afetos.

Marcia Tiburi é filósofa, escritora e artista plástica. Integra o programa Saia Justa, no canal de TV a cabo GNT.

Fonte: http://vidasimples.abril.com.br/edicoes/045/filosofia/conteudo_237011.shtml

LinkWithin

Blog Widget by LinkWithin