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domingo, 28 de março de 2010

A edição é o livro

Fotos Michael Probst/AP e John Macdougall/AFP
DEPURAÇÃO Juergen Boos, diretor da Feira de Frankfurt: com a internet, a filtragem feita pelas editoras é essencial

Chega às lojas dos Estados Unidos no próximo dia 3 de abril o iPad, o aguardado tablet da Apple, a combinação de notebook com leitor digital (e-reader). Esse aparelho, assim como outros do gênero, tenta ser uma opção à relação secular mantida pelo homem com os livros impressos desde a invenção da prensa de tipos móveis pelo alemão Johannes Gutenberg, no século XV. Com a proliferação dos livros eletrônicos, o processo de impressão física está em via de extinção? Para discutir o impacto das novas tecnologias no setor, a Câmara Brasileira do Livro, em parceria com a Imprensa Oficial, convidou especialistas no assunto para participar do 1º Congresso Internacional do Livro Digital, que ocorrerá em São Paulo de 29 a 31 de março. Um dos palestrantes é Juergen Boos, diretor da Feira de Frankfurt, o maior e o mais importante evento do mercado mundial de livros. Na semana passada, dias antes de sua visita ao Brasil, Boos falou ao repórter Luís Guilherme Barrucho.

O IMPACTO DOS E-READERS

O mercado de livros já passou por uma série de mudanças na história. O tempo em que elas ocorrem, entretanto, tem sido cada vez menor. Essas transformações sempre impuseram novos desafios ao setor, mas recentemente se tornaram mais visíveis, porque nos obrigam a encontrar maneiras de oferecer ao leitor os mais diversos conteúdos. Com os dispositivos eletrônicos móveis e compactos, temos a oportunidade de atrair um novo tipo de leitor. Existe uma complementaridade entre entretenimento e educação. A proposta dos livros digitais é, dessa maneira, diferente da dos livros físicos, que devem continuar a existir. Acredito que, daqui para a frente, haverá maior quantidade de conteúdo sendo utilizada em meios diferentes, tanto físicos quanto eletrônicos. Teremos outras plataformas para a leitura que não se restrinjam à forma impressa.

Paul Sakuma/AP
NOVO GUTENBERG Steve Jobs, da Apple, com o iPad: fusão de notebook com leitor digital chega às lojas em 3 de abril

AS NOVAS LIVRARIAS

Há duas maneiras de garantir a sobrevivência das livrarias. A primeira é que elas não se limitem ao comércio de livros. É preciso transformar o espaço de venda em um centro de entretenimento com múltiplas ações de marketing. Nesses locais, seriam vendidos produtos relacionados ao autor, por exemplo. A segunda é que elas devem migrar seus negócios para a área digital, procurando oferecer serviços de alta qualidade. Qualidade é algo que ainda falta na internet. Na Amazon, por exemplo, os leitores podem postar comentários sobre os livros que compraram. Antes de qualquer coisa, entretanto, é preciso entender os assuntos de que eles mais gostam, direcioná-los para o que querem comprar e tornar essa experiência mais fácil e rápida. Uma das maneiras de assegurar essa qualidade é por meio das editoras e das livrarias. Quanto mais formas de acesso ao conteúdo, maior a necessidade de ter instâncias que filtrem esse material e assegurem ao leitor a qualidade do que está sendo produzido. Esse já é o papel atual das editoras e continuará sendo por muito tempo.

RELAÇÃO COM OS AUTORES

O conceito de autoria já não é mais o mesmo. Antigamente, somente literatos ou jornalistas podiam emitir opiniões sobre os acontecimentos mais marcantes da sociedade. Hoje, todos podem se manifestar com facilidade inédita, graças à internet. Esse processo tem sido liderado pelos mais jovens, que já nasceram na era digital. Acredito que muitos desses escritores "virtuais" formarão a nova safra de autores. Caberá às editoras identificar esses talentos. Não será surpreendente ver, com muito mais assiduidade, autores que iniciaram sua atividade na internet. Mas isso não prescinde de um forte exercício de editoração. Haverá mais autores, muitos deles amadores, que necessitarão de uma atenção especial das editoras. É preciso assegurar a confiabilidade daquilo que se lê. Por outro lado, temos visto casos em que grandes nomes dispensam a intermediação das editoras na venda de seus livros digitais. Paulo Coelho é um exemplo. O autor brasileiro negociou recentemente um contrato com a Amazon, sem interferência da editora da versão física de seus livros. Mas ainda é um caso raro. Não tenho certeza de que isso será uma tendência. Mesmo que esse tipo de relacionamento comercial vingue, acredito que somente será popular entre aqueles de maior vendagem.

"Cada vez mais, veremos escritores que surgem na internet. Mas isso não prescinde de um forte exercício de editoração. É preciso assegurar a confiabilidade daquilo que se lê"

PERENIDADE DOS LIVROS

Não acredito na morte dos livros em papel. Simplesmente porque o ato da leitura não é o mesmo, quando feito em leitores digitais. Ler um livro em papel requer uma habilidade especial. A começar porque se leva, pelo menos, meia hora para entender minimamente um contexto. Além disso, há uma forte conexão física entre o leitor e o livro. Essa relação se altera no mundo virtual. Na internet, é comum que se bus-quem informações bre-ves, para ser absorvidas num menor tempo possível. Essa falta de profundidade não se deve apenas ao tipo de plataforma em questão, mas também ao tipo de conteúdo produzido para esse fim. Há alguns fatores que, na minha opinião, permitem uma imersão mais profunda na leitura em papel. O primeiro deles é o próprio hábito. Em segundo lugar, a leitura significa mais do que simplesmente obter informação; representa a essência da alfabetização em seu significado amplo. Ou seja, a possibilidade de não apenas ler as palavras impressas no papel, mas entender o contexto, aprofundar-se nele, refletir e formar uma opinião. Os livros impressos exigem mais, intelectualmente, dos leitores.

O PAPEL DAS FEIRAS

As feiras de livros vão continuar a existir, mas de um jeito diferente. Elas serão mais parecidas a festivais, tais como os grandes concertos de música, e terão grande potencial de crescimento. O contato entre autores, editoras e público continua sendo vital. Os leitores querem conhecer os autores de perto. Por isso, não imagino que teremos feiras virtuais.

O BRASIL EM FRANKFURT

A cada ano, temos um país como nosso convidado de honra em Frankfurt. Na feira deste ano, em outubro, será a Argentina. O país foi escolhido, entre outros motivos, pela imigração europeia. Nossa intenção também foi pôr em destaque a língua espanhola e a cultura hispânica. O Brasil foi homenageado em 1994 e deve voltar a sê-lo em 2013. Mas isso ainda está em negociação e esperamos selar o contrato nas próximas semanas.

Fonte: Revista Veja

sábado, 14 de novembro de 2009

Respeito é bom

A minha primeira aula de Filosofia foi sobre "respeito", penso que sem respeito não chegaremos a lugar algum. E a nossa educação está como está, pela falta de respeito... do nosso aluno. Respeito já vem de casa.... Leia o excelente artigo da escritora Lya Luft sobre o respeito.
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Respeito é bom

"Sendo humanos, homens, mulheres e crianças, somos ainda animais predadores, querendo ocupar espaço a patadas. A gente precisa ser domesticado desde o dia em que nasce"

Respeito é bom e eu gosto", diz uma das mil frases feitas - esse sutil veneno ou pontapé no estômago - que pontilham nossa sabedoria dita popular. Vale para muitos aspectos da nossa vida. Vamos ver alguns.

Escuto frequentemente a queixa de mulheres de que ainda não são respeitadas como merecem, em seu trabalho ou individualmente. Primeiro, é uma questão de tempo, pois em quase todos os territórios da atividade humana, menos cozinhar e parir, mulheres são novidade. Ainda estamos buscando nosso jeito de trabalhar, de comandar, de usar nossa autonomia.

Certa vez, querendo me elogiar, um crítico escreveu: "(...) é uma excelente escritora, pois, embora sendo mulher, escreve com mão de homem". Isso por si basta para reconhecer a carga de preconceito que sobrevive mesmo entre pessoas com certo preparo, inclusive mulheres, diga-se de passagem, que em geral são os piores juízes de outras mulheres. Se ela faz bem um trabalho (vale para juízas, reitoras, governadoras, vereadoras, motoristas de ônibus, policiais, grandes cirurgiãs etc.), é porque o faz como homem. Quantas gerações terão de passar, para que isso mude?

Esse preconceito é demorado e obstinado, e nós mulheres colaboramos com ele dando nossa melancólica parcela, por exemplo, no jeito como nos portamos, como nos vestimos, como agimos no trivial, ou quando estamos no poder, qualquer poder. Não é por nada que boa parte das propagandas de quaisquer produtos usa mulheres quase nuas ou em trejeitos sensuais: vende, dá ibope, dá vontade de comprar... o que é um modo de poder. Falo com certa frequência na psicóloga que atende seus pacientes de minissaia ou profundos decotes, e digo que, lidando com a alma desses pacientes, a roupa não parece muito adequada. Nada contra a peça de roupa, desde que num corpo adolescente: adolescentes ainda não atendem pessoas com problemas psicológicos.

Enquanto nos portarmos feito crianças pouco inteligentes, ou enquanto nosso maior trunfo forem nádegas firmes, fica difícil reclamar que não nos respeitam o bastante. Estarei dando muito valor a exterioridades como saia, joias, trejeitos? Estou. A aparência é nosso primeiro cartão de visita, dizendo coisas como: eu me acho linda, eu sou sensual, estou consciente disso. O segundo cartão é a linguagem: se eu não sei nem articular direito meu pensamento falando ou escrevendo, não vou ser um grande candidato a um emprego razoável, pelo menos um cargo em que eu precise pensar... e falar.

Pais também se queixam de que os filhos não os respeitam. Um bom começo de diálogo é indagar como eles, pais, se portam em casa. Gentis um com o outro, com empregadas, com os filhos - ou a gente acha que dentro da porta de casa, com filhos, vale tudo, até grosseria e falta de compostura? O comportamento das crianças e adolescentes e seus conceitos sobre o mundo (eles os têm desde cedo, não se iludam!) refletem sua casa. Um pouco incômodo: querendo ou não, somos seus primeiros modelos, e eles percebem muito bem o que é natural e o que é fingido em nós.

Isso se estende para a escola, onde professores suportam violência verbal e física, agressividade, má-educação, hostilidade por parte de alguns alunos - não todos, possivelmente nem a maioria. Se pudéssemos pesquisar a vida familiar dessa meninada, com frequência iríamos constatar que ela apenas reproduz ou continua, na rua, no pátio da escola e na sala de aula, o tratamento que predomina em sua casa. Lá, talvez, os filhos não conheçam limites ou, quem sabe, o pai é do tipo que aprecia um coronelismo ultrapassado.

Observo muita gente, e não só jovens, dando de ombros ou rindo ao assistir a uma entrevista de alguns dos nossos líderes (ou escutando belas frases sobre ética): também na vida pública, o respeito tem de ser conquistado e merecido. Sendo humanos, homens, mulheres e crianças, somos ainda animais predadores, querendo ocupar espaço a patadas. Se pudermos, em vez de falar, rosnamos; em lugar de curtir, cuspimos em cima. A gente precisa ser domesticado desde o dia em que nasce.

Lya Luft é escritora

Fonte: Revista Veja – Edição 2139 – 18 de Novembro de 2009 Foto: 50 anos do Camilo - Acervo pessoal, em 14/11/2009.

sábado, 7 de novembro de 2009

Cem anos de solidão

Claude Lévi-Strauss construiu a cultura de nosso tempo – mas ao século XX, esse que ele atravessou, dedicava um olhar pessimista e incrédulo


Fábio Altman
Stephan Gladieu/Contour by Getty Images
HONESTIDADE INTELECTUAL
Com Tristes Trópicos, o antropólogo (em foto
de 2004
) solidificou um modo de entender
a sociedade que enterrou concepções eurocêntricas duradouras

Odeio as viagens e os exploradores." Essa frase, a primeira e a mais conhecida de Tristes Trópicos (1955), era provocação de um homem que amava as expedições. Claude Lévi-Strauss, belga radicado em Paris, viveu no Brasil de 1935 a 1939. Ajudou a criar a Universidade de São Paulo ao lado do psiquiatra Georges Dumas e do historiador Fernand Braudel. No Paraná, em Mato Grosso e na Amazônia, a partir da convivência com os índios cadiuéus, bororos, nambiquaras e tupis-cavaíbas, construiu uma catedral de pensamento que dominaria seu campo de estudos por quase todo o século passado. Ao chegar, tinha apenas 26 anos. Ao retornar para a França, com a publicação de seu clássico, solidificara um modo de entender a cultura que enterrou concepções eurocêntricas duradouras.
Tristes Trópicos foi o início de uma coleção de livros que sustentou a antropologia estrutural. O método estruturalista, que Lévi-Strauss cimentou, se propunha a estudar o mundo real de modo a identificar nele padrões comuns, ou estruturas, que sempre se repetiriam. Por essa visão, estruturas iguais poderiam ser discernidas na mente de um silvícola, na da gente culta das cidades, na cabeça de um prêmio Nobel ou na do pior aluno da classe. Para Lévi-Strauss, o indivíduo passa do estado natural ao cultural enquanto usa a linguagem, aprende a cozinhar, constrói objetos. Nesse caminho, o ser humano obedece a leis que não criou. Elas pertencem a um mecanismo inato do cérebro – são, portanto, estruturais. Antes dele, a antropologia apenas colecionava histórias avulsas, anedóticas. Lévi-Strauss demonstrou ser possível estabelecer conexões entre culturas de tempos e regiões diferentes. Hoje soa óbvio, mas eis a mágica dos raciocínios inaugurais. Ao seu tempo esse esquematismo significou uma libertação da visão predominante em uma Europa ainda presa ao preconceito de que os selvagens eram "metade demônios, metade crianças", como definiu o inglês Rudyard Kipling em seu poema O Fardo do Homem Branco.
O lugar-comum, antes do estruturalismo, tratava as sociedades primitivas como intelectualmente sem imaginação, ancorando seu contato com a vida e a religião na mera satisfação urgente das necessidades de comida, roupa e abrigo. No contato com os índios brasileiros, ele descobriu uma lógica refinada, além de senso de ordem e design. Lévi-Strauss deu nobreza intelectual ao pensamento selvagem, abrindo assim uma linha de investigação da vida dos povos isolados. "Com ele, tomamos consciência ao mesmo tempo da diferença e da universalidade", afirma Françoise Héritier, herdeira da cadeira de Lévi-Strauss no Collège de France. "O seu principal legado é este: somos diferentes, sim, mas podemos nos entender, porque nossas estruturas mentais funcionam da mesma maneira."
Elegíaco, melancólico e irônico, Lévi-Strauss era um pesquisador com a cabeça de antigamente incomodado com o presente. Avesso a todos os movimentos culturais modernos, considerava a literatura morta desde Diderot (1713-1784) e a evolução da música encerrada com Beethoven (1770-1827). Foram 100 anos de solidão, honestidade intelectual e de solene indiferença dedicada aos modismos e às apropriações do estruturalismo pelo marxismo (com Louis Althusser) e pela psicanálise (com Jacques Lacan). Lévi-Strauss marcou o pensamento de nosso tempo, mas o século XX, esse que ele atravessou, nunca recebeu o menor elogio de um homem que ia da modéstia à arrogância com rapidez. "Não há mais nada a fazer: a civilização já não é essa flor frágil que se preservava", escreveu em Tristes Trópicos. "A humanidade instala-se na monocultura; prepara-se para produzir civilização em massa, como a beterraba."
Seus escritos tangenciavam o romantismo francês de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Essa imagem o fez símbolo da contracultura nos anos 60 e 70. Era simplificação que rejeitava, por representar distorção de suas ideias. Para Lévi-Strauss, o selvagem não era intrinsecamente nobre por estar próximo da natureza. Em 1993, entrevistado pelo autor, então correspondente de VEJA em Paris, disse, ao tomar conhecimento das aventuras de Paulinho Paiakan, o índio estuprador que buscava impunidade: "Os índios não podem beneficiar-se ao mesmo tempo da cultura antiga e da cultura nova, é uma ou outra". Claude Lévi-Strauss faria 101 anos em 28 de novembro. No sábado 31, esse totem exótico e corajoso que abriu a mente da humanidade fechou os olhos.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Tempo de trapaça - Por J.R.Guzzo


"Nas demais sociedades civilizadas vale o princípio pelo qual é permitido tudo o que não é expressamente proibido em lei. No Brasil é proibido tudo o que não é expressamente permitido"

Todo cidadão que acompanha, mesmo de longe, o noticiário político seria capaz de jurar que há uma campanha eleitoral em andamento no Brasil e que diversas pessoas querem suceder ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais de 2010. Há a ministra Dilma Rousseff e o deputado Ciro Gomes, do lado do governo, o governador José Serra, pela oposição, e outros mais. Ao mesmo tempo, o público é informado diariamente de que não há nenhuma campanha eleitoral e nenhum candidato à Presidência. Os comícios não são comícios. A propaganda não é propaganda. Os candidatos não são candidatos. O que é isso tudo, então? É exatamente o que parece, mas o governo e a oposição não podem dizer que é. Podem fazer tudo. Mas não podem falar; aí já seria contra a lei, que, na sua ambiciosa lista de regras destinadas a regular tudo, marca o dia 6 de julho do ano que vem para o começo das campanhas. Como se sabe, temos leis eleitorais rigorosíssimas neste país, possivelmente as mais severas do mundo. Enquanto nas demais sociedades civilizadas vale o princípio pelo qual é permitido tudo o que não é expressamente proibido em lei, no Brasil dos tribunais eleitorais a coisa funciona ao contrário: é proibido tudo o que não é expressamente permitido. É uma surpresa, no fundo, que alguém consiga ser eleito com tanta proibição assim – e a saída para os políticos, inevitavelmente, é trapacear. É o que está acontecendo no momento.
É ruim, porque a campanha eleitoral de 2010, como tantas que vieram antes dela, começa em cima de uma falsificação por atacado da verdade. O presidente Lula, por exemplo, viaja sem parar pelo Brasil fazendo comícios e pedindo votos para quem for o candidato do governo – e ameaçando o país com a ruína se o eleitorado cometer a estupidez de preferir um outro nome. Mas ele diz que está "inspecionando obras". (Já da inspeção que a lei manda fazer, a dos tribunais de contas, o presidente vive reclamando.) E os comícios, com ônibus fretado, despesa paga pelo Erário e sorteio de casas entre a plateia? "Qualquer reunião com mais de três pessoas já é comício", diz Lula. Ou seja: o que é que se vai fazer? Afinal, o presidente da República não pode ficar trancado em casa. Se acham que é comício quando ele discursa em lugares onde há gente reunida, paciência. Quanto aos votos que pede para a ministra Dilma, nenhum problema. O presidente diz que está apenas elogiando uma grande servidora do governo – e apenas dando a opinião de que ela seria um colosso como sua sucessora. Que mal haveria nisso?
A ministra Dilma, por sua vez, faz rigorosamente tudo o que os coordenadores de campanha prescrevem para um candidato. Há tempos deixou de comparecer com regularidade ao seu local de trabalho e passou a correr de um lado para outro atrás de votos, seja em shows de música popular com o cantor Dominguinhos, seja em "fiscalização de obras" nas margens do Rio São Francisco; há pouco foi vista inaugurando um estádio de futebol em Araraquara. O que isso tudo teria a ver com as funções que é paga para exercer na Casa Civil? Do lado da oposição, a peça de teatro é estrelada pelo governador José Serra, que quer a Presidência tanto quanto qualquer um dos seus adversários, mas diz que só vai tocar no assunto no ano que vem. Serra não pode fazer campanha aberta como Lula faz; tem de se contentar com os limites impostos pelo seu cargo. Carrega a mão, por exemplo, na propaganda oficial; a última, no gênero, é a decisão da Assembleia Legislativa que autoriza o governo a fazer publicidade de suas obras em outros estados, para "promover o turismo" em São Paulo.
Registre-se, enfim, a notável contribuição do deputado Ciro Gomes, que recentemente passou a ter seu domicílio eleitoral em São Paulo, para manter aberta a possibilidade de candidatar-se ao governo paulista. Mas o deputado não mora em São Paulo; só a Justiça Eleitoral acredita nisso. Tudo o que fez foi passar quatro horas na cidade, no começo de outubro, apresentar um endereço de fantasia e assinar um papel num cartório garantindo que reside ali. Um cidadão "comum", como diria o presidente Lula, não pode ter um domicílio falso; aliás, vive tendo de provar onde mora com contas de luz, correspondência de bancos ou carnês de crediário, e se der um endereço que não é realmente o seu vai, com certeza, arrumar complicação. Já para ser candidato a presidente da República ou governador do estado não há problema nenhum.
Não se sabe, é claro, quem vai ganhar as eleições de 2010. Mas a verdade, desde já, está levando uma surra.

Fonte: Revista Veja - Edição 2136 - 28 de outubro de 2009.
Veja  a imagem em: estagio-e-trainee.blogspot.com/2008/01/fique-...

sábado, 10 de outubro de 2009

Em novo livro, o psiquiatra Irvin Yalom leva o Holocausto para o divã

Por Maria Carolina Maia


(Foto: Divulgação)
A perseguição aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial é o principal tema de Vou Chamar a Polícia - e Outras Histórias de Terapia e Literatura (Ediouro, 264 páginas, 49,90 reais), título do novo livro do psiquiatra americano Irvin Yalom, 78 anos. Chega às lojas nesta semana. Mais conhecido como o autor dos best-sellers A Cura de Schopenhauer (130.000 exemplares vendidos no país) e Quando Nietzche Chorou (410.000), Yalom adiciona o Holocausto à sua lista de assuntos preferidos, na qual figuram a psicoterapia e a filosofia.

Como Vou Chamar a Polícia é um pequeno conto, a Ediouro juntou ao texto uma obra lançada por Yalom nos Estados Unidos há cerca de dez anos, The Yalom Reader - O Leitor de Yalom, em tradução livre para o português. Nela, o autor analisa sua produção literária. "É uma espécie de antologia minha", explica o prolífico terapeuta, que já trabalha em um novo projeto, um livro sobre - adivinhe - um filósofo: Bento de Spinoza. O novo, o antigo e o futuro livro, além da psicoterapia e da filosofia, é claro, compõem a conversa de Yalom com VEJA.com.

A história-título de seu novo livro fala da perseguição aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial, um drama vivido por seu amigo, o também médico Robert Berger. É uma história curta. Por que resolveu publicá-la?
Depois que encontrei esse amigo e ouvi sua história, que é bastante marcante, me senti compelido a escrevê-la. Agora que Bob está ficando velho, ele quer que essa narrativa, guardada por mais de cinquenta anos, seja contada e conhecida - foi o que fizeram muitos sobreviventes. É uma forma de lidar com a questão, de suportar o que foi vivido. Tive ainda outras razões. O Holocausto é um assunto com o qual tenho dificuldade de lidar. Mas eu quero ajudar meu amigo a administrar essa questão. Então, são muitas coisas: amizade, uma mudança das minhas próprias atitudes, uma história poderosa.
O senhor já trabalha em um próximo livro?
Sim, estou mergulhado há cerca de dois anos em um projeto sobre o filósofo Spinoza, um personagem da Amsterdã do século XVII. Há uma série de histórias portuguesas envolvidas [a família de Spinoza migrou de Portugal para a Holanda por causa das perseguições aos judeus]. Devo levar mais um ano ou ano e meio para terminar o livro.
A filosofia é uma de suas paixões, ao lado da psicoterapia. Uma alimenta a outra?
Sim. Sinto que a psicoterapia deve muito à filosofia. O conhecimento da natureza humana não começa com Freud [Sigmund Freud, considerado o pai da psicanálise]. Os grandes filósofos vêm pensando o assunto há séculos. Olhe os pensadores antigos, como Epicuro: eles têm ideias profundas a respeito. Freud bebeu na filosofia antiga, e deixou isso claro. Ele também deu crédito, em seu trabalho, a Nietzsche [Friedrich Wilhelm Nietzsche, filósofo alemão atormentado por questões existenciais] e a Schopenhauer [Arthur Schopenhauer, outro filósofo alemão envolvido com temas da existência]. Para Spinoza, acho que não deu crédito nenhum, mas este é certamente um psicólogo muito importante, que merece ser citado.
O senhor flerta bastante com questões existenciais em seus livros, especialmente no romance Quando Nietzsche Chorou. Qual o peso disso em uma terapia?
Eu não trabalho apenas com questões existenciais, mas com todas as questões que podem surgir em uma sessão de terapia, questões que têm a ver com a maneira como o paciente se relaciona com as outras pessoas, questões ligadas a sexo, crescimento e desenvolvimento, casamento e amor. Para muita gente, as questões existenciais, como o medo da morte, a liberdade e a significação da vida, nunca surgem. Tudo bem. Mas um terapeuta deve estar preparado para percebê-las, caso apareçam. Um bom terapeuta é aquele que tem sensibilidade para questões existenciais.
Teme que sua obra seja confundida com autoajuda?
Se as pessoas podem obter em meus livros alguma ajuda, fico feliz. Invisto muito tempo neles, agora mesmo estou trabalhando seis, sete horas por dia no projeto de Spinoza, que vai levar, ao todo, de três a quatro anos. Continuo atendendo, mas apenas duas horas por dia. O resto do tempo eu não uso para outra coisa que não o livro. Uma parte do romance vai ser sobre o homem, não sobre o filósofo, então, eu preciso pesquisar, e leio muito. Portanto, não se trata de autoajuda superficial. Recebo e-mails diariamente, às vezes vinte, trinta, num único dia, de leitores que tiram algo dos livros.
A função da psicoterapia é curar pessoas?
Eu acho que a psicoterapia faz as pessoas se sentirem melhor, mais felizes, mais ajustadas, menos torturadas e atormentadas. Esta é a meta da terapia - uma melhor saúde mental, se você preferir colocar nestes termos. A psicoterapia tem também a função de fazer as pessoas assumirem responsabilidade por elas mesmas, por suas ações. É o que todo psicoterapeuta deseja.
No livro O Carrasco do Amor, o senhor diz que auto-consciência traz ansiedade. Vale a pena ser auto-consciente?
Claro que vale. Se queremos ser tudo o que podemos ser, se queremos ser humanos, se queremos realmente realizar o nosso potencial, então, acho que temos que nos pensar. Refletir sobre o significado da vida é um exercício, que requer a nossa habilidade de raciocinar, aquela que nos separa de todos os outros seres vivos do mundo.
Mas, em terapia, nós nos desconstruímos. E depois não conseguimos nos reconstruir tal como éramos - e apreender quem de fato éramos. Ainda assim, é válido?
Nós tentamos mudar, tentamos fazer de nós pessoas melhores, tentamos ser mais felizes, tentamos assumir responsabilidade por nossos atos, tentamos perceber o nosso potencial, nos tornar aptos para amar, para nos relacionar melhor com as pessoas. É isso o que faço: eu ajudo pessoas a se relacionar melhor com outras pessoas e consigo mesmas.
Na terapia, a relação estabelecida entre terapeuta e paciente é mais importante do que a escola seguida pelo terapeuta?
Essa é uma verdade absoluta. Um analista pode ser bem treinado, mas, se for frio, não tiver empatia e não proporcionar ao paciente uma relação verdadeiramente humana, mantendo uma distância entre eles, não vai ser de grande valia.
É cada vez mais comum as pessoas tomarem remédios. A medicação pode substituir a terapia?
Acho que há um uso excessivo de medicação. Posso falar, pelo menos, do que acontece nos EUA: aqui, há muita gente tomando remédio, mesmo sem terapia, e eu acho que não se deve tomar remédio sem acompanhamento médico. Há pesquisas que comprovam que a psicoterapia aliada à medicação é muito melhor que a medicação sozinha. Além disso, para muitos pacientes, a psicoterapia pode proporcionar os mesmos efeitos que a medicação, os mesmos benefícios mentais. Remédios não são a resposta para a maior parte das questões discutidas em sessões de terapia. Eles são relevantes quando se trata de transtornos bipolares, depressões profundas, manias intensas, esquizofrenia. Aí, sim, a medicação tem um papel importante a desempenhar.
Quando um terapeuta deve desistir de um paciente?
Quando ele trabalha com o paciente e vê que não pode ajudá-lo. É o próprio paciente quem deve querer mudar, se transformar durante o processo terapêutico. Se ele não faz nenhum esforço nesse sentido, se ele não trabalha na terapia, não há como lhe ser útil. Mas vale dizer que há pacientes que precisam da terapia simplesmente para continuar vivendo. São pacientes que não farão grandes reconstruções de si mesmos, que não sofrerão grandes transformações na terapia, que meramente os ajuda a tocar a vida. Nesses casos, apesar de não haver grandes mudanças, o tempo é bem gasto.

Fonte: Revista Veja

sábado, 18 de julho de 2009

DE FERNANDO HENRIQUE A WITTGENSTEIN

Estava eu aqui, tranquilamente, elevando meu conhecimento sobre o desenvolvimento, lendo aqui e ali as sábias palavras de Fernando Henrique Cardoso, o Lula barroco - Perspectivas para uma Análise Integrada do Desenvolvimento -, quando descobri ao lado (meus livros são tão bem arrumados como os da Biblioteca de Alexandria. Depois do incêndio) o Tractatus Logico-Philosophicus. Logisch-philosophische Abhandlung, de Wittgenstein. Como todos sabem, Wittgenstein revolucionou a Filosofia no século XX, que Fernando Henrique chama de século vindouro. Outros dizem que Wittgenstein acabou com a filosofia.

Para que os leitores de Paulo Coelho tenham noção da complexidade de Wittgenstein, Bertrand Russell, o último filósofo com que ele ainda mantinha contato, leu as últimas dez linhas que ele escreveu e declarou: "Não entendi nada. Mas é genial!".

Bondoso que sou, não resisto a separar um trecho, apanhado ao acaso, de qualquer parte da estupefaciente dissertação de Fernando Henrique sobre o desenvolvimento, em 323 páginas, e compará-lo com um trecho das 83 páginas do Tractatus do austríaco. Leiam e vejam como se simplifica a complexidade e se complica a simplicidade.

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

Perspectivas para uma Análise Integrada do Desenvolvimento

Em síntese, reconhecendo a especificidade das distintas formas de comportamento, a análise sociológica trata de explicar os aparentes "desvios", através da determinação das características estruturais das sociedades subdesenvolvidas e mediante um trabalho de interpretação. Não é exagerado afirmar que é necessário todo um esforço novo de análise a fim de redefinir o sentido e as funções que as classes sociais têm no contexto estrutural da situação de subdesenvolvimento e as alianças que elas estabelecem para sustentar uma estrutura de poder e gerar a dinâmica social e econômica.

As duas dimensões do sistema econômico, nos países em processo de desenvolvimento, a interna e a externa, expressam-se no plano social, onde adotam uma estrutura que se organiza e funciona em termos de uma dupla conexão: segundo as pressões e vinculações externas e segundo o condicionamento dos fatores internos que incidem sobre a estratificação social.

A complexidade da situação de subdesenvolvimento dá lugar a orientações valorativas que, apesar de contraditórias, coexistem. Pareceria que se produzem, por seu turno, certas situações nas quais a atividade dos grupos sociais corresponde às pautas das "sociedades industrializadas de massas", (e outras) em que têm preponderância as normas sociais típicas das "situações de classe" e até das "situações estamentais".

LUDWIG WITTGENSTEIN

Tractatus Logico-Philosophicus. Logisch-philosophische Abhandlung

PREFÁCIO

Talvez este livro só seja entendido por alguém que, ele próprio, já pense como o que está expresso aqui. Ou tenha pensamentos semelhantes. Este não é um textbook. Seu objetivo terá sido atingido se der prazer à pessoa que o leu e entendeu.

Este livro lida com os problemas da filosofia, e mostra, acredito, a razão por que esses problemas são aqui colocados: é porque a lógica da nossa linguagem não é compreendida. O sentido total do livro pode ser sintetizado nas seguintes palavras: o que pode ser dito pode ser dito claramente e aquilo sobre o que não podemos falar devemos passar por cima, silenciar.

Nota do editor desta página

Depois de lerem os dois textos acima, os leitores me digam qual preferem.

E se Fernando Henrique pode ser acusado de falta de decoro intelectual.

Fonte: Revista Veja - Edição 2122 - 22 de Julho de 2009.

domingo, 5 de julho de 2009

Os meninos-lobo

Por Cláudio de Moura Castro "Nossa juventude estará mal preparada para a sociedade civilizada se insistirmos em uma educação que produz uma competência linguística pouco melhor do que a de meninos-lobo"
Ilustração Atômica Studio

No velho conto de Rudyard Kipling Mogli, o Menino-Lobo, o autor descreve uma criança que, adotada por uma loba, cresce sem jamais haver usado uma só palavra humana, até ser encontrada e se integrar à sociedade. O conto é atraente, mas cientificamente absurdo. Porém, houve outros casos, supostamente reais, de crianças criadas por animais. E também casos reais (até recentes) de crianças que cresceram isoladas e sem oportunidades de aprender a falar.

Faz tempo, meninos-lobo e outros jovens criados sem interação humana despertaram o interesse da psicologia cognitiva e da linguística. A razão é que seriam um experimento natural que permitiria responder a uma pergunta crucial: esses jovens, sem conhecer palavras, poderiam pensar como os demais humanos?

A questão em pauta era decidir se pensamos porque temos palavras ou se seria possível pensar sem elas. Como os meninos-lobo não conheciam palavras, se podiam pensar, teria de ser sem elas. Nos diferentes casos de crianças criadas em isolamento, ficou clara a enorme dificuldade de ajustamento que elas encontraram ao ser reabsorvidas pela sociedade. Muitas jamais se ajustaram, fosse pelo trauma do isolamento, fosse pela impossibilidade de pensar humanamente sem palavras. Mas o fato é que não desenvolveram um raciocínio (abstrato) classicamente humano.

O interesse pelos meninos-lobo feneceu. Mas se aprendeu muito desde então, e hoje não se acredita que o pensamento sem palavras seja possível – pelo menos, o pensamento simbólico que é a marca dos seres humanos. Ou seja, Mogli não seria capaz de pensar.

"Vivemos em um mundo de palavras", diz o celebrado antropólogo Richard Leakey. "Nossos pensamentos, o mundo de nossa imaginação, nossas comunicações e nossa rica cultura são tecidos nos teares da linguagem... A linguagem é o nosso meio... É a linguagem que separa os humanos do resto da natureza." Para o neuropaleontólogo Harry Jerison, precisamos de um cérebro grande (três vezes maior do que o de outros primatas) para lidar com as exigências da linguagem.

Portanto, se pensamos com palavras e com as conexões entre elas, a nossa capacidade de usar palavras tem muito a ver com a nossa capacidade de pensar. Dito de outra forma, pensar bem é o resultado de saber lidar com palavras e com a sintaxe que conecta uma com a outra. O psicólogo Howard Gardner, com sua tese sobre as múltiplas inteligências, talvez diga que Garrincha tinha uma "inteligência futebolística" que não transitava por palavras. Mas grande parte do nosso mundo moderno requer a inteligência que se estrutura por intermédio das palavras. Quem não aprendeu bem a usar palavras não sabe pensar. No limite, quem sabe poucas palavras ou as usa mal tem um pensamento encolhido.

Talvez veredicto mais brutal sobre o assunto tenha sido oferecido pelo filósofo Ludwig Wittgenstein: "Os limites da minha linguagem são também os limites do meu pensamento". Simplificando um pouco, o bem pensar quase que se confunde com a competência de bem usar as palavras. Nesse particular não temos dúvidas: a educação tem muitíssimo a ver com o desenvolvimento da nossa capacidade de usar a linguagem. Portanto, o bom ensino tem como alvo número 1 a competência linguística.

Pelos testes do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb), na 4ª série 50% dos brasileiros são funcionalmente analfabetos. Segundo o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), a capacidade linguística do aluno brasileiro corresponde à de um europeu com quatro anos a menos de escolaridade. Sendo assim, o nosso processo educativo deve se preocupar centralmente com as falhas na capacidade de compreensão e expressão verbal dos alunos.

Ao estudar a Inconfidência Mineira, a teoria da evolução das espécies ou os afluentes do Amazonas, o aprendizado mais importante se dá no manejo da língua. É ler com fluência e entender o que está escrito. É expressar-se por escrito com precisão e elegância. É transitar na relação rigorosa entre palavras e significados.

No conto, Mogli se ajustou à vida civilizada. Infelizmente para nós, Kipling estava cientificamente errado. Nossa juventude estará mal preparada para a sociedade civilizada se insistirmos em uma educação que produz uma competência linguística pouco melhor do que a de meninos-lobo.

Claudio de Moura Castro é economista

Fonte: Revista Veja - Edição 2120 de 8 de Julho de 2009.

sábado, 13 de junho de 2009

Os vivos e os mortos - Lya Luft

"Morrer não é ser deletado: aquele que aparentemente nos deixou está preservado no casulo de seu novo mistério, sem mais risco, doença ou tormentos"

Por mais que as notícias falem de crianças assassinadas com um tiro na cara e de mulheres grávidas estupradas; por mais que ao nosso lado, de todas as formas, se banalize a morte, sempre que ela nos atinge sentimos um grande abalo e fundo estranhamento. Ela nos ronda, e mesmo assim não aceitamos a Senhora Morte, cujo aceno vai nos levar também, inevitável. Ninguém sabe quando virá essa surpresa que não quereríamos ter. Chegará, súbita ou sorrateira, dedo dobrado que sinaliza: "Venha comigo, chega de brincar de vida, agora a coisa é real".

Meu primeiro encontro com ela foi a pomba morta de frio que, menininha ainda, encontrei no pátio de casa: pensei que ela estivesse dormindo e a aconcheguei debaixo do casaco. Quando me fizeram ver que estava morta, chorei inconformada. Muita insônia também sofri naquele tempo, quando morreu o menininho de 2 ou 3 anos, filho de um vizinho nosso. Os gritos de agonia daquele pai vararam a noite e chegaram até meu quarto, trazendo susto e terror só de lembrar, por longo tempo ainda. Mais tarde, eu conheceria intimamente a Velha Dama sobre a qual tanto já escrevi: ela abriu-me as portas do mistério e, embora eu nunca passasse da soleira, me fez valorizar mais a vida, os afetos, o que há de belo e bom na natureza, na arte e no ser humano, e me fez acreditar nos laços de amor que ela, a morte, não desfaz.

No recente desastre de avião, que levou num golpe mais de 200 pessoas, está uma prova dramática do quanto vivemos alienados em relação à morte, e quanto ela pode ser cruel. Sabemos de apenas alguns dramas desse acidente: o casal em lua de mel, pais perdendo filhos, dez funcionários de uma indústria francesa premiados com quatro dias no Rio com acompanhante. A lista é longa e triste. Nem precisamos de um cataclismo de grandes dimensões: basta a vida cotidiana, olhar um pouco para o lado, e lá está a morte, trazendo angústias sem medida.

No começo tudo é horrível: só desespero e dor. No choque inicial, palavras e gestos de conforto, embora essenciais, podem até parecer ofensivos a quem sofre tanto. Paciência com a pessoa enlutada faz parte dos cuidados em relação a ela: a dor é natural e necessária. Mas nossa frivolidade abomina silêncio, recolhimento e tristeza; queremos que o outro não nos perturbe nem ameace com suas lágrimas. Então dizemos: "Reaja! Não chore! Controle-se!", embora seja até perverso exigir isso de alguém que está de luto. Uma jovem reclamou que sua mãe, viúva, não parava de chorar. Desconfiei daquela vagamente irritada preocupação e perguntei: "Quanto tempo faz que seu pai morreu?". A resposta veio imediata: "Quinze dias". Sugeri que ela deixasse a mãe com seu sofrimento, para que um dia ela pudesse se recuperar. Porque, mesmo que não haja verdadeiro consolo, existe a possibilidade de, a seu tempo, cada um se recompor. Ainda que a gente nunca mais seja a mesma, mudar não é tornar-se pior. Faz parte desse processo, entender que a melhor homenagem a quem se foi é viver como ele gostaria que a gente vivesse. Esse é um dos segredos de não sobreviver como vítima que se arrasta indefinidamente, mas como quem reencontrou em si, de uma outra forma, o que parecia perdido.

Quando seus amigos choravam porque ele fora sentenciado, por uma sociedade preconceituosa, a tomar veneno, o grego Sócrates os censurou: "Por que se lamentam assim? Se a morte for um sono sem sonhos, que bom será. Mas, se for um reencontro com pessoas queridas, que bom será também!". O tempo vai preservar e iluminar os melhores momentos havidos. Talvez passemos a valorizar menos o dinheiro, o sucesso, a beleza e o poder. Seremos mais abertos à vida, mais gentis com os outros, mais bondosos conosco mesmos. Morrer não é ser deletado: aquele que aparentemente nos deixou está preservado no casulo de seu novo mistério, sem mais risco, doença ou tormentos. Não vai envelhecer nem sofrer nem se apartar de nós, os vivos. E não o perderemos nunca mais.

Lya Luft é escritora

Fonte: Revista Veja - Edição 2117 - 17 de Junho de 2009

sábado, 11 de abril de 2009

Tudo pelo racial

Por J.R. Guzzo

"Como disse recentemente o escritor João Ubaldo Ribeiro, citando um dos seus personagens da Ilha de Itaparica, "quem tem raça é cachorro". Não poderia ter feito um resumo melhor da coisa toda"

O Brasil está fazendo o possível, nestes últimos tempos, para dar a si próprio algo que até hoje conseguiu não ter: um problema racial. Se tantos outros países importantes têm questões sérias de racismo, por que o Brasil também não poderia ter a sua? Parece um motivo de desapontamento, na visão das pessoas que foram nomeadas pelo governo para defender os interesses da "população negra", ou nomearam a si mesmas para essa tarefa, que o Brasil seja possivelmente o país menos racista do mundo. Que outros poderiam ser citados? Certamente haverá nações que têm um número maior de leis contra a discriminação, são mais sérias na sua aplicação e adotam medidas de proteção especial a minorias raciais. Mas não dá para sustentar, não a sério, que haja mais racismo no Brasil do que em qualquer delas. Como poderia haver, num país onde a grande maioria da população não sabe dizer ao certo qual é a sua cor, nem demonstra maior interesse em saber? "Moreno" é a sugestão de resposta mais frequente, quando a pergunta é feita para a imensa massa de brasileiros que não se identificam claramente como brancos, nem pretos, nem qualquer outra coisa.

Criar um racismo que se preze, num país assim, não é trabalho fácil – mas é possível. Uma das ferramentas mais utilizadas para isso é distribuir aos "brancos" uma espécie de culpa geral por tudo o que ocorre de errado aqui dentro. Não se citam nomes; só se cita a cor da pele. Tornou-se comum, por exemplo, o uso da expressão "elite branca" como símbolo de coisa do mal – com a agravante, em certos casos, de que essa elite, além de branca, pode ser "do sul". A mesma gente, de "pele clara e olhos azuis", é culpada também pelo que ocorre de errado lá fora, como a crise financeira internacional; por essa maneira de ver a vida, os desastres que produziram foram provocados por seu tipo físico, e não pelo seu comportamento individual. Outro esforço é criar repartições públicas para cuidar da questão racial – o que tem a tripla vantagem de dar uma cara oficial à existência do problema, passar a impressão de que o governo está cuidando dele e arrumar empregos para amigos. A mais notável delas é um órgão com nove palavras no título e status de ministério – a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. Seu grande feito, em seis anos de existência, foi a demissão da secretária-ministra Matilde Ribeiro, em 2008, quando se descobriu que ela usava o cartão de crédito destinado ao exercício de sua função para pagar despesas de free shop ou contas no Bar Amarelinho, no Rio de Janeiro.

Nada parece pior, porém, do que a tentativa de estabelecer por lei que cidadãos devem ter direitos diferentes de acordo com a cor de sua pele, como preveem os projetos de "cotas raciais" ora em debate no Congresso Nacional – pelos quais os brasileiros negros, ou definidos como tal, deveriam ter mais direitos que os brasileiros brancos, ou de outras origens, no mercado de trabalho, nas vagas universitárias ou nos concursos para cargos públicos. É o contrário, exatamente, do que deveria ser. A grande vitória da humanidade contra a discriminação racial foi excluir das leis a palavra "raça"; o objetivo era estabelecer que todos têm direitos idênticos, sejam quais forem as suas origens, dentro da ideia de que todos os homens pertencem a uma "raça" apenas – a raça humana. No Brasil de hoje, em vez de proibir o uso da noção de raça para dar ou negar direitos, tenta-se ressuscitar a tese de que os indivíduos são diferentes uns dos outros, em termos de cidadania, segundo a cor que têm.

"Os defensores de leis raciais ludibriam a boa-fé alegando que cota racial é ação afirmativa", escreveu, num artigo para O Estado de S. Paulo, o advogado negro José Roberto Militão, um especialista em antidiscriminação na OAB de São Paulo. "Ação afirmativa", de fato, é outra coisa: é a efetiva atuação da autoridade para coibir a discriminação contra minorias e multiplicar oportunidades, sem criar cotas, exigir reparações pelo passado ou estabelecer diferenças de direitos. "Ao estado cabe atuar para destruir a crença em raças", diz Militão. "Leis raciais não servem para a redução das desigualdades entre brancos e pretos, pois atacam os efeitos, mas aprofundam as causas." São, além disso, o oposto da harmonia: como se sabe, nada é mais fácil do que passar da distinção à divisão.

Fonte: Revista veja - Edição 2108 - 15 de abril de 2009.

sábado, 21 de março de 2009

A mentirosa liberdade - Lya Luft

"Liberdade não vem de correr atrás de ‘deveres’ impostos de fora, mas de construir a nossa existência"

Comecei a escrever um novo livro, sobre os mitos e mentiras que nossa cultura expõe em prateleiras enfeitadas, para que a gente enfie esse material na cabeça e, pior, na alma – como se fosse algodão-doce colorido. Com ele chegam os medos que tudo isso nos inspira: medo de não estar bem enquadrados, medo de não ser valorizados pela turma, medo de não ser suficientemente ricos, magros, musculosos, de não participar da melhor balada, do clube mais chique, de não ter feito a viagem certa nem possuir a tecnologia de ponta no celular. Medo de não ser livres.

Na verdade, estamos presos numa rede de falsas liberdades. Nunca se falou tanto em liberdade, e poucas vezes fomos tão pressionados por exigências absurdas, que constituem o que chamo a síndrome do "ter de". Fala-se em liberdade de escolha, mas somos conduzidos pela propaganda como gado para o matadouro, e as opções são tantas que não conseguimos escolher com calma. Medicados como somos (a pressão, a gordura, a fadiga, a insônia, o sono, a depressão e a euforia, a solidão e o medo tratados a remédio), cedo recorremos a expedientes, porque nossa libido, quimicamente cerceada, falha, e a alegria, de tanta tensão, nos escapa.

Ilustração Atômica Studio

Preenchem-se fendas e falhas, manchas se removem, suspendem-se prazeres como sendo risco e extravagância, e nos ligamos no espelho: alguém por aí é mais eficiente, moderno, valorizado e belo que eu? Alguém mora num condomínio melhor que o meu? Em fileira ao longo das paredes temos de parecer todos iguais nessa dança de enganos. Sobretudo, sempre jovens. Nunca se pôde viver tanto tempo e com tão boa qualidade, mas no atual endeusamento da juventude, como se só jovens merecessem amor, vitórias e sucesso, carregamos mais um ônus pesadíssimo e cruel: temos de enganar o tempo, temos de aparentar 15 anos se temos 30, 40 anos se temos 60, e 50 se temos 80 anos de idade. A deusa juventude traz vantagens, mas eu não a quereria para sempre: talvez nela sejamos mais bonitos, quem sabe mais cheios de planos e possibilidades, mas sabemos discernir as coisas que divisamos, podemos optar com a mínima segurança, conseguimos olhar, analisar e curtir – ou nos falta o que vem depois: maturidade?

Parece que do começo ao fim passamos a vida sendo cobrados: O que você vai ser? O que vai estudar? Como? Fracassou em mais um vestibular? Já transou? Nunca transou? Treze anos e ainda não ficou? E ainda não bebeu? Nem experimentou uma maconhazinha sequer? E um Viagra para melhorar ainda mais? Ainda aguenta os chatos dos pais? Saiba que eles o controlam sob o pretexto de que o amam. Sai dessa! Já precisa trabalhar? Que chatice! E depois: Quarenta anos ganhando tão pouco e trabalhando tanto? E não tem aquele carro? Nunca esteve naquele resort?

Talvez a gente possa escapar dessas cobranças sendo mais natural, cumprindo deveres reais, curtindo a vida sem se atordoar. Nadar contra toda essa louca correnteza. Ter opiniões próprias, amadurecer, ajuda. Combater a ânsia por coisas que nem queremos, ignorar ofertas no fundo desinteressantes, como roupas ridículas e viagens sem graça, isso ajuda. Descobrir o que queremos e podemos é um bom aprendizado, mas leva algum tempo: não é preciso escalar o Himalaia social nem ser uma linda mulher nem um homem poderoso. É possível estar contente e ter projetos bem depois dos 40 anos, sem um iate, físico perfeito e grande fortuna. Sem cumprir tantas obrigações fúteis e inúteis, como nos ordenam os mitos e mentiras de uma sociedade insegura, desorientada, em crise. Liberdade não vem de correr atrás de "deveres" impostos de fora, mas de construir a nossa existência, para a qual, com todo esse esforço e desgaste, sobra tão pouco tempo. Não temos de correr angustiados atrás de modelos que nada têm a ver conosco, máscaras, ilusões e melancolia para aguentar a vida, sem liberdade para descobrir o que a gente gostaria mesmo de ter feito.

Lya Luft é escritora

Fonte: Revista Veja - Edção 2105 - 25/03/2009

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