Mostrando postagens com marcador Filósofo Paulo Ghiraldelli Jr.. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Filósofo Paulo Ghiraldelli Jr.. Mostrar todas as postagens

sábado, 19 de junho de 2010

Foucault cumprimenta a alma – na matrícula

By Paulo Ghiraldelli
I
Pronto para a morte, Sócrates a saudou dizendo que ela seria sua libertação do corpo. Modificada, essa expressão de Sócrates poderia endossar um platonismo rasteiro, que afirmaria algo como “o corpo é a prisão da alma”. Os cristãos preferiram não falar em prisão. Douraram a pílula dizendo que “o corpo é o templo da alma”. Por sua vez, o nietzschiano Foucault veio na contramão para dizer que “a alma é a prisão do corpo”.
A alma é a prisão do corpo? Como? O que Foucault quis dizer com uma frase dessas, que não deixa de ser esquisita? O que pensar?
O trecho em que Foucault expõe essa idéia está em Disciplina e punição: o nascimento da prisão, e é parte um parágrafo que dá o serviço:
“(…) Mas não vamos errar: não é este o homem real, o objeto do conhecimento, da reflexão filosófica ou da intervenção tecnológica, que foi substituído pela alma, a ilusão dos teólogos, é já ele próprio o efeito de uma subjetivação mais profunda do que ele próprio. Uma “alma” o habita e o traz à existência, a qual é ela própria um fator da dominação que o poder exerce sobre o corpo. A alma é o efeito do instrumento de uma anatomia política; a alma é a prisão do corpo” .
Foucault diz que a alma é produzida. Antes havia o corpo. Mas quando convocaram o corpo para ser indivíduo, eis que o chamaram já como sujeito e, assim, como quem deveria poder dizer “não, não vou” ou “sim, vou”. Quando o corpo começou a esboçar esse comportamento, acreditando no que lhe contaram, ou seja, na existência da liberdade, já o fez por meio da alma – eis que ela, recém nascida, abraçou o corpo e passou a conduzi-lo. Ao ser convocado como livre, o indivíduo respondeu não pelo corpo, a quem foi dirigida a pergunta, e sim pela alma. Mesmo jovem, a xereta se intrometeu na conversa. Mas isso porque a conversa já era mesmo com ela. A conversa era com quem já estava sendo tratado como indivíduo e, então, este deveria mesmo responder pela boca da alma. Seria estranho para quem iniciou a conversa que o corpo começasse a falar. Corpo não fala. A boca mexe, ela é corpo, mas quem fala é a alma. Não é assim que nós dizemos, na civilização?
O caso todo fica claro se notarmos que ao requisitar do corpo que viesse à luz como indivíduo, nesse exato momento, todas as ações do poder já estavam se desenvolvendo de modo a produzir quem iria responder – a alma. Por que digo que “fica claro”? Está claro, eu digo, nos textos de Foucault. Afinal, quem é que requisita a todos nós como indivíduos, ou seja, como sujeitos modernos? São as instituições nas quais adentramos, exatamente para sairmos delas, se sairmos, como indivíduos autênticos. Foucault fala de hospitais, penitenciárias, clínicas e várias outras, mas ele não se esquece de uma das principais, a escola.
II
Quando entramos na escola, muitos dizem que temos alma. Mas não é tão verdade assim. Até temos sim, e Foucault lembra isso no trecho citado ao dizer que quando somos requisitados já ocorreu uma subjetivação profunda, mas no âmbito da escola, ainda somos uma alma fraquinha. Entramos na escola como corpo. Somos levados lá na escola como corpos. Uma vez na escola, caímos nas malhas de algo chamado pedagogia. Suas regras não são diferentes do que nossos corpos criaram. São dizeres de “sim” e de “não” que nossos corpos inventaram. Uma vez tecidas sob o nome de “pedagogia”, ficam mais pomposas e se distribuem pelos sons emitidos pelos professores, pela maneira como a arquitetura da escola nos dispõe e pela legislação inerente aos estatutos dos estabelecimentos. Tudo isso é pedagogia. Ganha nomes particulares como currículo, laboratório, recreio, tarefa, prova, etc.
Na escola, sob a pedagogia, para tudo que nosso corpo quer temos de encontrar justificações. Temos de justificar e, depois, somos cobrados de modo a dizer se a justificação merece um “sim” ou um “não”. O outro lado da moeda liberdade que nos oferecem na escola é a responsabilidade. Quando estamos para sair da escola, percebemos que estamos mais pesados. Nosso corpo se desenvolveu? Sim! Mas o peso é bem maior que aquele dado pelo corpo. Saímos mais pesados porque ali dentro da escola ganhamos um regime para a alma. Ela foi sendo inflada por meio de ditos, não-ditos e desditos. Mas, também, é evidente, pelas punições, castigos e elogios que, enfim, nos deram responsabilidade.  A alma é moldada por isso tudo, mas seu recheio é a culpa.
Nosso corpo sai da escola preso pela alma. Ele sente agora que caminhará eternamente a partir do comando do tecido da alma. Este tecido se enerva a partir da culpa e, nos melhores, a partir do arrependimento. Disseram que era responsabilidade. Mas, sabe-se bem, não há responsabilidade alguma – eis aí uma palavra sem substância. Na hora que olhamos para alma, vemos inúmeras garrinhas de culpa que mordem veias, nervos e órgãos do corpo. A alma não prende o corpo “por fora”. Ela é como um musgo que prende a casa ao se distribuir por todas as suas paredes. E onde há frestas, esse musgo se enfia e tudo preenche. É assim que a alma prende o corpo. Qualquer tentativa de tirar o musgo, e eis que pedaços de carne, ossos e sangue vem junto. O corpo pode morrer se tentamos nos livrar da alma.
Quando o corpo está já plenamente preso pela alma, podemos sair da escola e, enquanto sujeitos (como sujeitos morais – pessoas), podemos nos proclamar indivíduos livres. O processo escolar pelo qual passamos recebe o nome, na terminologia de Foucault estampada em Vigiar e punir e no primeiro volume da História da Sexualidade, de “anátomo política do corpo”. Inicia-se então outro processo, o da “biopolítica da população”. Ambos compõem as práticas de poder que produzem a modernidade. Nasce aí, com a noção foucaultiana de modernidade, o que ele mesmo denomina de “sociedade disciplinar”.
Passamos diante do Estado e ele nos batiza cidadãos. Ganhamos números para respondermos à previdência social, ao emprego, ao fisco, ao trânsito, ao matrimônio e ao túmulo. Nossos esposos, uma vez viúvos, pegam esse número para reivindicar a parte de nossas aposentadorias. Esse número compõe ainda as estatísticas para os cálculos de vida média da nação. Ele medirá o “desenvolvimento” da nação.
O número nos devolve à abstração que a condição de indivíduo parecia nos ter tirado. Só nos tornamos números porque somos corpos presos por identificação clara, dada por nossa alma. Cada alma fala e se identifica. Ao dizer o nome e assumir toda e qualquer culpa que se está distribuindo naquele momento, ganha também um número, volta ao campo abstrato. Dilui-se entre tantos outros números.
Tudo que ocorreu nessa relação entre a alma que prende o corpo enquanto responde pela condição deste de ser indivíduo, se fez por tramas do “pode” e do “não pode”. Ou seja, tramas do poder. Tudo isso são as tais ações e relações do poder.  A essa altura, então, Foucault já está longe da idéia de um poder que se faz pela política em seu sentido tradicional, a política dos partidos e das ações de governo. Foucault vê o poder na governabilidade que se produz em cada um no interior das instituições, entre elas, uma principal porque realmente se ocupa da própria requisição e produção do indivíduo, que é a escola.
III
Volto à “anátomo política do corpo”. Ela começa com a matrícula. Alguém nos pega pela mão e atende a requisição da instituição para que se cumpra um direito que é um dever, a obrigatoriedade da educação. A escola lá está, sedenta por nós.
Quando cada um senta num banco escolar, seu corpo se conforma a um espaço. Ele recebe então a matemática ou qualquer outro conhecimento, mas ninguém conta grandes mentiras ali não, pois cada coisa já vem com o nome real: disciplina. A matéria é o assunto, mas a prática do assunto é a disciplina. Você passa pela grade curricular. Grade! E vai sendo disciplinado por meio da Matemática, Português, Geografia, História e tudo o mais.
A sala de aula é o lugar par excellence dessa disciplinarização. Conformado o corpo ao banco escolar, o corpo responde a chamada. Diz seu nome e já ganha um número. Começa então o ritual que, no seu todo, é o que os educadores irão dizer, ao final, que ocorreu. Ocorreu o exercer da pedagogia. Serva ou não da psicologia, essa pedagogia pode receber inúmeros nomes, pode-se falar que ela é construtivista ou libertadora. Uns a batizam com nomes tais como Vigotsky ou Piaget, outros preferem usar de auto-ajuda ou seja lá o que for que alunos de pós-graduação possam inventar. Mas, antes de tudo, a pedagogia é uma vitamina especial, que cria os ossos do corpo como paredes que devem ficar porosas de modo que o musgo possa se agarrar cada vez mais a elas. O musgo da alma precisa preencher tudo. Em todo cantinho ele precisa colocar aquilo que Nietzsche dizia que faz um homem ser homem: a culpa.
Quando você vai com seu corpinho fazer a matrícula, é para que você saia depois, anos depois, como um bípede-sem-penas que tenha alma. “Você não tem alma?” – perguntarão todos a você. “Você não é humano?” – também perguntarão isso. Todos cobrarão de você que abandone o Grilo Falante e não mais se comportem com bonecos de pau, só com corpo, mas com consciência, ou seja, com alma. Ora, mas você vai agir com alma e pela alma. Ela é o musgo inflado que não pode mais ser tirada do corpo sem que este venha a perecer.

©2010 Paulo Ghiraldelli Jr. filósofo, escritor e professor da UFRRJ

Mais sobre Foucault aqui: Foucault e a educação – como?

domingo, 10 de janeiro de 2010

O quiproquó do Plano de Direitos Humanos, by Paulo Ghiraldelli



O Plano Nacional de Direitos Humanos  (na íntegra em PDF) que agora está na berlinda não é bom porque foi iniciado por Fernando Henrique Cardoso e ruim porque foi alavancado por Lula. O Plano não é ruim porque a direita política e outros setores da mídia se insurgiram contra as cláusulas que interferem flagrantemente na liberdade de imprensa, nem porque a esquerda governista fustiga com ele o agronegócio. O quiprocó provocado pelo Plano tem outra história, evidente para qualquer um que teve a paciência de ler o documento antes de se alinhar aos grupos de pressão social já postos. Seu problema está na sua abrangência e mal acabamento.

Filosofia é filosofia, política é política. Quando filósofos ou outros teóricos sobem para postos de comando na máquina de governo e não distinguem a política da filosofia de uma maneira inteligente, tudo fica difícil. Quem criticou FHC por ele ter dito “esqueçam o que escrevi” agiu ou de modo muito tolo ou de modo mal intencionado. Pois FHC queria dizer algo mais ou menos assim: não vou governar praticamente, no cotidiano, com o que escrevi, pois caso eu pudesse fazer isso não estaríamos em uma democracia e, talvez, nem mesmo seríamos humanos. A redação final do Decreto não levou em consideração essa verdade de FHC. O documento saiu, ao final, enorme e como uma colcha de retalhos em que todo tipo de idéia que circulou nas esquerdas – das mais autoritárias até as mais generosas – nos últimos quarenta anos recebeu ali o seu feudo. É uma peça teórica. Serviria para um jovem aluno de pós graduação em ciências humanas, a partir dali, ter uma noção do conteúdo de um espectro político e doutrinário largo – do centro às esquerdas – posto no Brasil das últimas quatro ou cinco décadas. Não tem nenhuma utilidade governamental.

O plano é teórico em um sentido comum do termo. Há no plano todas as idéias que alguém pode imaginar a respeito de “produzir a República dos sonhos” de centenas de estudantes de primeiro e segundos anos de sociologia ou de filosofia. O resultado disso é que, agora, estamos todos envolvidos em uma discussão não mais adulta, e sim uma discussão entre pais e adolescentes.

Tudo se passa, agora, da seguinte forma. Um pai que quer ver os filhos “vencerem na vida”, mais ou menos independente de ideologias, e discute na mesa com seus muitos filhos jovens, entre, cada um de uma tendência política, questões do cotidiano. Um filho quer a “reforma agrária já” e o outro quer um “estado ateu” diante de um terceiro que quer o “estado agnóstico”. Há um filho que se diz “Anarco-Emo” e que não quer estado nenhum, mas quer antes do poder de estado para dissolver o estado. Há o filho que quer “parar a morte no campo” por decreto e há aquele que lembra dos crimes da Ditadura Militar, que ele não viu e que denomina por meio do jargão horrível “anos de chumbo”. Um filho está preocupado com a TV e o quanto ela pode fazer mal para os jovens (este é, na verdade, o (a) pré-adolescente, que ainda não descobriu que vão censurar os filmes de sexo que ele adora). Há ainda o que acredita que tudo se resume em resolver o problema das concessões de rádio e TV (o que mobiliza o Congresso hoje em dia, pois é o que Parlamento mais faz). Dois filhos desejam punir a Igreja Católica e outros dois querem “pegar o Bispo Macedo de pau”. Há um filho religioso, mas ele já tomou um “pedala Robinho” dos mais velhos e não falou nada, no máximo conseguiu dizer que “as religiões afro também deveriam ser respeitadas”. Há aquela filha que lembrou que “o maior sufoco” na sociedade é sofrido pela mulher. Ela também é a porta voz, na mesa do jantar, das reivindicações de dois irmãos, um gay e a outra lésbica, que não abriram a boca para nada durante a confusão – pois não são bobos de deixarem o pai perceber quem são. Um filho mais velho afirma que não poderia haver “revanchismo” (os mais novos não tem a menor idéia de onde ele tirou essa palavra). Os menores perguntam para o pai se é possível que o governo dê “bolsa vídeo-game”. Uma das filhas, tida com a alienada pelos irmãos, disse que se é para censurar, então que se censure o Orkut o twitter de um bando de amigas que colocam fotos semi-nuas lá ou aparecem de noite peladinhas para os namorados. Quando ela diz isso o irmão mais próximo de idade dela dá um grito: “Pai, a Ana levantou a blusa ontem na webcam para um monte de garotos”. A conversa só fica amena quando a mãe, que não diz nada, apenas “comam meninos que vai esfriar”, põe a macarronada na mesa.

Tudo isso aí acima, com esse grau de urgência e, de certa forma, ingenuidade, é o Decreto de FHC-Lula que, enfim, saiu publicado pelo governo petista.

O que pode fazer o pai, na mesa do almoço, faltando só alguns minutos para voltar ao trabalho num escritório infernal, com um patrão que é o próprio demônio, com seus filhos, todos felizmente na USP, PUC e Mackenzie? Ele levanta da mesa e diz: “filhos, no jantar tem mais bate papo”. Ele vai ao trabalho e torce para que os meninos comecem a lapidar as idéias, ampliar sonhos práticos e direcionar os teóricos. No fundo ele torce para que os meninos sejam felizes, apenas isso. Felicidade, para ele, é simples, é o “mundinho burguês”, como diriam seus filhos. Ele quer ver cada um casado, com sua casa própria e um bom emprego. Duvido que o governo Lula tenha outra intenção que esta, do pai. O próprio Lula é um pouco isso. Ela vai esperar a segunda rodada, a da janta.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo.

Não perca o Hora da Coruja, toda terça, 19 horas, na D+TV http://demaistv.com.br


quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Dia Mundial da Filosofia no Loucuras Filosóficas do Alexandrelli - JustTV - 19 11 09

No décimo quarto programa no dia 19 de Novembro de 2009, Paulo Ghiraldelli Jr e Alexandrelli debatem a importância da filosofia e em que ela consiste. Você realmente sabe o que é filosofia? Por que ainda filosofamos? Confira:
Assista TV pela internet, http://www.justtv.com.br. Fabio Alexandrelli apresenta o filósofo Paulo Ghiraldelli Jr., O Filósofo da Cidade de São Paulo e ambos discutem sobre diversos temas filosóficos. Seus neurônios nunca mais farão sinapses da mesma cor. Na Just TV: http://www.justtv.com.br (direto online no seu PC) . Programa transmitido ao vivo todas as quintas às 19h. Programa exibido dia 19/11/09 Powered By http://www.Goorila.com.br
Acesse e participe da Rede Social do Filósofo Professor Paulo Ghiraldelli Jr.
Rede: http://ghiraldelli.ning.com
Portal: http://filosofia.pro.br
Blog: http://ghiraldelli.pro.br
Twitter: http://twitter.com/ghiraldelli

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O que é e o que não é filosofia no ensino médio?

By Paulo Ghiraldelli

Se há uma coisa que realmente me irrita é entrar em uma livraria e encontrar lá “A filosofia na sala de aula” ou “A filosofia para crianças e jovens” ou “Filosofando com alunos” etc. Não, não sou contra a disciplina “filosofia” na Escola Média. Ao contrário, fui das primeiras vozes a brigar por ela e escrevi na imprensa, em várias ocasiões, às vezes solitariamente, o quanto deveríamos ler Platão na escola tanto quanto tínhamos de ler Machado de Assis ou saber as leis de Newton. O que traz dissabor são os livros que falam sobre o assunto e, no entanto, são escritos por pessoas que não se preocupam, elas próprias, em produzir algo em filosofia. Ou seja, é aquilo que os primeiros educadores do Movimento da Escola Nova no Brasil denunciavam: o beletrismo – fala-se sobre o assunto, mas não se fala no assunto. Traduzindo: uma boa parte dos que discutem na Universidade o “ensino de filosofia” não escrevem, eles mesmos, um manual de filosofia ou história da filosofia que possa ser realmente utilizado pelo aluno. O resultado disso é parecido com as teses de ensino a distância: não param de ser produzidas por gente que até hoje nunca conseguiu fazer o próprio blog!

Prefiro fazer diferente. Sempre escrevi muito pouco sobre “filosofia no ensino médio”, mas, em compensação, pratiquei muito e produzi material de todo tipo para os “passos iniciais de quem quer filosofar”. Aprendi no cafezal a cuidar do café, dormindo na Senzala, não na Casa Grande. Daí eu extraí o que é o mais difícil de fazer na filosofia com jovens, e que é, também, no meu entendimento, o mais importante. Eis a coisa: trabalhar com os textos clássicos básicos dos grandes filósofos e articulá-los aos problemas cotidianos de cada aluno, para que a história da filosofia seja, na mão deste, um instrumento de colaboração para que ele enfrente melhor a vida e os próprios estudos filosofando.

Qual a razão disso ser difícil? Há três problemas aí, que às vezes ficam potencializados quando se casam: 1) inexperiência de vida do professor; 2) incultura do professor a respeito de história da filosofia a partir dos textos clássicos; 3) incapacidade do professor, ele mesmo, de filosofar com a história da filosofia. Eu poderia traduzir tudo isso em uma palavra que, aqui, não obedece a qualquer conceituação teórica: alienação. O professor aliena sua vida do que ele lê na filosofia e, por isso mesmo, não consegue em nenhum momento dizer para o aluno algo como “sabe aquele drama que você vive com sua namorada? Pois bem, experimente pensar isso a partir do trecho X do autor Y”. Ou assim: “sabe aquele assunto de matemática que você não consegue aprender? Tente ler o filósofo Z na obra W e veja o tipo de raciocínio que ele usa”.

Para agir assim, isto é, provocar o aluno para a solução de problemas a partir da filosofia, o professor precisa, ele mesmo, ser antes de tudo um filósofo. No entanto, não raro, ele é treinado (quando é) para ser um scholar da ciência, não um filósofo e, portanto, um scholar da filosofia. Um cientista pode não fazer metaciência. Pode trabalhar em uma indústria e não ter nenhuma visão global da ciência e nenhuma compreensão maior desta na sua relação com a ética. Um tipo de formação em ciências se consagrou assim, principalmente a partir do final do século XIX. Mas é muito estranho que esse tipo de formação tenha contaminado a própria filosofia, a própria formação do filósofo e do scholar da filosofia. Vemos então vários jovens “fazendo” filosofia como trabalho de mestrado ou doutorado, ou mesmo de iniciação científica e, logo em seguida, fora disso, nem se preocupam se estão ou não agindo segundo o senso comum. Não contaminam a vida própria com a filosofia que estudam. Ora, uma vez na sala de aula do ensino médio, criam então alienados como ele mesmo.

Longe da minha mente a idéia de querer o professor engajado doutrinariamente para substituir o alienado que apontei. Não! Não quero um remédio que mate a doença por ter eliminado o doente. O professor doutrinário faz um serviço até pior que o alienado. Tanto à direita quanto à esquerda. O que quero é que o alienado (o doutrinário não tem cura!) saia dessa situação e comece a tentar, ele próprio, um processo de investigação de sua vida, para saber em que momento o que ele leu em filosofia começou a ir para um lado, e as práticas de sua vida para outro. Caso ele consiga achar esse início do fio de novelo, ele pode não resolver as coisas para si mesmo de modo rápido, mas ele já vai estar apto a ver no aluno em que momento ele, aluno, também está fazendo a mesma coisa. Ora, disso pode nascer um bom professor. Um professor jovem que começa a reestruturar sua vida para que esta se guie pela filosofia, pode incentivar o aluno a se envolver em aventura semelhante.

Nesse trabalho, nada melhor do que começar pelo começo. No ensino médio, a filosofia antiga dá tudo o que é o necessário para um jovem filosofar. Os pré-socráticos, Sócrates, Platão, Aristóteles e a filosofia helenista – para que mais? Os instrumentos que esse tipo de filosofia dá já são bem mais do que se pode aprender no ensino médio. Eles são bem suficientes para que um jovem comece a tomar toda a sua vida, do que vai comer ao que vai ler, como alguma coisa que pode ser feita de modo melhor se levada a cabo por meio da reflexão filosófica – alguma reflexão filosófica.

Vou dar um exemplo banal, ocorrido recentemente comigo em conversa no twitter. Uma garota, estudante colegial, ia convidar seu namorado para o cinema e me perguntou o que eu havia assistido naqueles dias. Eu disse que tinha ido ver o último filme do Tarantino, “Inglourius Basterds”. Bem, dado meu prestígio perante a menina, ela pegou a minha sugestão e, enfim, lá foram eles para o cinema. Voltando, ela veio comentar comigo a fita. Conversa vai e conversa vem, ele disse que achou estranho que o filme não tivesse conservado o Hitler. Bem, ali estava o gancho que eu precisava. Perguntei para ela o que sentiu no filme, como ela, emocionalmente, saiu do cinema. Ela respondeu rapidamente: “aliviada”. E mais: “foi a primeira vez que fui num filme de guerra, de sangue, e saí … aliviada!”. Investiguei com ela as outras vezes em que ela havia sentido aquilo e, enfim, não foi difícil (após algumas trocas dos meus sentimentos com os dela a respeito de cenas de outros filmes) arrancar dela uma noção que havia aprendido na escola: catarse. Perguntei se tinha a ver com alguma aula ligada à psicologia e ela disse que não, que era uma aula de filosofia, onde leram sobre o teatro grego e sua função catártica. Pronto! Ela havia chegado no que eu queria. Ela havia acabado de conseguir nominar um estado, que tinha a ver com o seu sentimento, com os elementos do ensino erudito da aula de filosofia.

É claro que, com outra pessoa, a discussão tomaria outro rumo e ela, talvez, não chegasse a essa reflexão e autoconhecimento. Mas, uma vez junto com o filósofo, e tendo tido um apoio da escola, do seu professor de filosofia, ela chegou. Mas eu queria mais.
 













Não era necessário parar neste ponto e, de fato, eu não parei. Fui trocando informação e fazendo um pouco o jogo socrático, o de por teses, ver sua aceitação das teses e, enfim, mostrar que ela seria refutada ao aceitar todas essas teses juntas. Com isso, o filme foi sendo esmiuçado. E eu tentei tirar dela o que poderia ter acontecido no filme que atrapalharia a catarse dela. Demorei um pouco nisso, mas arranquei dela uma resposta razoável, com a qual concordo. No filme, há uma judia que quer se vingar dos nazistas e, se a película terminasse com ela conseguindo isso, ela iria usufruir da catarse com o público. Todavia, Tarantino quis dar tudo para o público e só para o público. Quis dar exclusividade da catarse ao público e só ao público. Então, na hora H da vingança, ela, a judia, morre. E o gozo vingativo dela sobra apenas para o público, que vê a vingança ter continuidade sem a presença viva do vingador, mas com a presença do vingador – e seu sorriso – em um filme que está sendo exibido para os nazistas, na hora em que estão sendo massacrados.

Bem, nesse caso, a menina minha interlocutora já havia saído do exame de sua condição catártica. Ela já havia deixado a posição de quem assiste ao filme e, com ele, parte para o autoconhecimento. Ela havia voltado, comigo, para o filme, ganhando uma forma vê-lo de um modo superior. Ou seja, nesse segundo momento, ela já estava, comigo, avaliando a técnica de Tarantino.

Caso o leitor não tenha assistido ao filme, assista e depois volte a este meu texto, para melhorar o entendimento. Bem, mas, em suma o meu procedimento é este: trabalho no eixo que vai do cotidiano para a filosofia e desta para a vida pessoal do estudante (ou minha) para, em seguida, voltar ao que se viu no cotidiano e elevá-lo a uma nova leitura. Esse tipo de trabalho eu organizei em passos que, com nomes apropriados eu coloquei, entre outros lugares, no novo O que é Pedagogia (Brasiliense, 2007). Acho que servem perfeitamente para o professor de filosofia. É isso.


São Paulo, outubro de 2009-10-18

About Paulo:
Philosopher/Filósofo

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Em meio ao tsunami da informação por Paulo Ghiraldelli Jr



Logo após a crise do PT de 2005, a professora Marilena Chauí escreveu que não era dada à prática de ler jornais.  Uma parte da juventude, já decepcionada com ela por causa da sua defesa pouco racional do PT, ficou mais inconformada ainda com tal declaração. Afinal, ela, que tanto fez na imprensa, chegando até a ter uma coluna semanal na Folha de S. Paulo, uma vez vendo a imprensa ter de malhar o PT, agia como a avestruz: cabeça enfiada no buraco, xô realidade. Era isso?
Não vou dizer que não era. É claro que Marilena estava magoada. Ninguém coloca 40 anos de sua vida em uma proposta política e, então, vendo tudo desmoronar, aceita o destino com tranqüilidade. Todavia, as pessoas esperam que o filósofo saiba enfrentar coisas assim com sabedoria. Até mesmo quem não tem uma idéia correta do que é um filósofo, quer acreditar que se trata de um intelectual que tem a mente aberta, alguém que pode mudar de idéia, pode engolir adversidades sem teimosia. Essa cobrança recaiu sobre ela. Veio então o tal “silêncio obsequioso”. Marilena se recolheu à academia e desta à aposentadoria. Uma vez no Conselho Nacional de Educação, justamente ali, onde poderia falar grosso, parou de falar.
Nas cambalhotas desses passos pouco alvissareiros, penso que Marilena acertou em alguma coisa. Atirou no que viu e acertou no que não viu. Ela acreditou que não deveria mais dar importância à imprensa porque esta estava distorcendo tudo. Acertou, mas não pelo que falou, e sim pelo que não falou.
De 2005 para cá a imprensa brasileira, especialmente os jornais impressos e as revistas, tem caminhado rapidamente na mesma direção de fragilização da imprensa mundial. A divulgação das informações via Internet demorou a ameaçar a imprensa, mas, enfim, ameaçou. A crise, agora, é sentida por todos. Os jornais não estão se agüentando nas pernas. Então, inicia-se uma transformação psicológica, às vezes não clara para os próprios jornalistas que a vivem, que segue na direção de agradar o leitor a qualquer custo. Os jornais querem agradar. Os jornalistas querem ser lidos. Querem mostrar para os chefes de redação que eles são lidos, que são importantes. Empurram para fora dos jornais e para fora de todo lugar intelectuais que eram amigos, mas que, agora, são concorrentes. Ao mesmo tempo, há uma bajulação do leitor jamais vista. Com isso, o eco do senso comum cresce absurdamente. Nasce a ditadura do senso comum sobre a imprensa e, quanto mais democracia temos – graças à Internet – mais a informação é produzida por nós mesmos para nós mesmos segundo nosso gosto mais pasteurizado. O resultado é este que vivemos: a cada dia nós temos uma dificuldade imensa de usar da imprensa para levantar elementos corretos para uma crítica de instituições ou pessoas ou governos que não são criticados pela maioria, ou pelo que se pensa que é a maioria.
A situação fica engraçada, pois até as frases que foram usadas, no passado, para atacar essa situação, são reiteradas sem mais conteúdo algum, e criam o sentido oposto. Por exemplo, quem hoje diz “a unanimidade é burra”, não diz nada. Pois exatamente quem fala isso, está dentro de uma unanimidade setorizada, que lhe dá a impressão de estar atuando de modo crítico e ousado.  O fenômeno dos blogs, twitters, podcasts e vídeos criou um mundo de jornalistas amadores que competem quase de igual para igual com os profissionais dos jornais impressos. Conquistam leitores. Trabalham de graça. Os jornalistas profissionais, desesperados, não conseguem não publicar em seus próprios blogs seus furos, pois ficam com medo de que o furo não seja furo em um prazo de segundos. Então, eles próprios solapam as bases financeiras dos jornais. A idéia trazida pela Internet é que toda notícia é gratuita para o consumidor, e que a imprensa deva ser virtual e tire seu lucro da propaganda. Sim! Mas a fase de transição para essa situação que aponta ser a correta é terrível.
Nessa fase, muitos imaginam que não irão sobreviver – e estão certos. Então, se agarram ao lema, às vezes pouco claro, mas que está virando regra: “não podemos perder o leitor”. Assim, se eu publico uma pesquisa, encomendada pelo governo, e esta pesquisa diz que Lula está com 80% de aprovação popular e, depois, tenho de publicar outra em que ele cai de aprovação, fico temeroso de publicar esta segunda, pois posso não só desagradar o governo, que paga a maior parte de minha propaganda, mas posso desagradar o leitor, que não quer que o país entre em crise e prefere acreditar que seu presidente está fazendo a coisa certa, e que vai bem. Em poucos movimentos, o eco do senso comum vai catalisando a si mesmo e, ao final, há uma total incapacidade de crítica.
Não estou dizendo a bobagem que ouvimos nos anos noventa, de que estávamos sob o tacão do “pensamento único”. Há diversidade, é claro, pois mil coisas estão acontecendo e sendo noticiadas com uma velocidade nunca vista antes, e num volume assustador. Todavia, essa diversidade, ela própria, tende a formar uma perigosa unidade momentânea de fundo conservador.
Eis como isso funciona. O volume de matérias que vai de todos para todos é imenso e a velocidade da troca é intensa, mas cada vez mais ele pode, em determinados momentos, seguir um único corredor, com um efeito de falsa mobilização. E isso até pelo fato que a análise não é mais permitida, todo mundo repassa o que recebe sempre tentando só chamar a atenção.  O caso do fora Sarney na imprensa e no twitter foi significativo disso. Sarney ficou sólido a cada dia, com apoio de Lula – era visível isso. Mas a gritaria do eleitor aumentou contra ele, uma vez que ele começou a provocar o leitor a partir de suas declarações no Senado. Ao mesmo tempo, todo e qualquer movimento de rua contra ele foi barrado, uma vez que o PT, o único partido com capacidade de mobilização de rua, aderiu à proteção de Sarney. Isso não causou revolta contra Lula, pois a Internet catalisou a raiva, mas de uma forma esquisita. Vários que votam em Lula, mesmo sabendo da preferência do Presidente pelo Senador, vieram para o lado dos que reclamaram do Senador apenas por ódio geral à política, e todos descontaram o ódio contra Sarney no twitter. Ora, isso gerou um movimento falso de oposição. Não estou dizendo que o movimento virtual é falso, o que estou contando é que, neste caso, surgiu sem conteúdo. Enquanto isso, a própria Justiça conseguiu calar a boca do Estadão que, por sua vez, agradeceu o fato. Pois se pudesse atacar Sarney até o final, iria acabar por bater em Lula e, então, sofreria a retaliação. Retaliação não só de Lula mesmo, que poderia tirar as estatais da jogada de alimentar a imprensa, mas retaliação do leitor. Esta última talvez viesse a ser até mais perigosa que a de Lula. Ao menos é isso que corre pela cabeça de muitos dos jornalistas.
Pode ser que este fenômeno que estou descrevendo aqui não dure muito. Pode ser quer a própria Internet, daqui a pouco, mostre que ela tem caminhos de liberdade que não estamos sabendo usar no sentido de mudanças substanciais, e não da reiteração do senso comum que estamos vivendo. Mas, no momento, especialmente no Brasil, o que estamos vivendo é isso. Nenhum de nós que está nesta avalanche de dar e passar informações sabe se o que estamos ouvindo é algo que podemos repetir sem ferir nosso único real desejo atual, o de sobreviver na tarefa de dar e passar informações, de se fazer notar, mesmo que não sejamos profissionais da imprensa. Tudo que todos começam a desejar, em uma situação assim, é não ofender aquilo que imaginamos que é o pensamento do senso comum.
Dessa forma, uma série de questões são criticadas e comentadas, mas somente na sua superfície. Ninguém quer aprofundar nada. A autocensura, essa figura que parecia que não mais iria estar entre nós, voltou. Não temos medo do tal “censor da ditadura”, que não existe mais, temos medo de nós mesmos, de falarmos algo que não condiz com a psicologia cordial que se instaurou no meio intelectual. Todos nós queremos ser conscientes, críticos, mas cordiais. Não queremos nos inviabilizar perante o comprador de nosso produto, o texto. Assim é que estão funcionando os jornais impressos, e também a TV. Aliás, parte da academia já havia aderido a isso há algum tempo. O poder de fogo do blogs, de reiteração do senso comum, faz os jornalistas não afrontarem mais ninguém. Jornalistas de esquerda e de direita chegam a um acordo tácito. Eles só podem falar na medida em que não contrariam seus públicos cativos. E eles estão confusos em saber qual o seu público cativo. Tornam-se conservadores em costumes na medida em que disputam com os blogs a preferência do leitor. Pois os blogs, na sua maior parte, representam a emergência dos escolarizados não politicamente engajados. Eles representam uma classe média conservadora em costumes que, enfim, sempre odiou ter de ir para a rua ou para os partidos para ter de mudar as coisas. Os jornalistas acreditam que estão perdendo para essa gente, e então, passam a reiterar o que dizem os blogs. O senso comum se amplia assustadoramente com essa alimentação de dupla mão.
Dessa forma, o que ocorre entre nós é um movimento quase que inverso do que se deu com o “fenômeno Obama”. Nos Estados Unidos, os não participativos viram nos blogs, vídeos e similares a sua chance de terem “um novo partido” que, enfim, atropelou pela esquerda o Partido Democrata e o Partido Republicano. No Brasil, não sei se podemos falar do mesmo fenômeno, vindo da direita. Mas, ao menos no momento, podemos falar de um fenômeno parecido, mas no sentido do conservadorismo moral, tanto na direita quanto na esquerda.  Isso está levando de roldão os jornalistas, mesmo os mais atentos, mesmo os que se achavam sabidos e autoconscientes. Cada profissional da escrita está tentando esticar o braço e dizer “eu estou aqui, aqui ó”.
Ainda que esse movimento possa, em alguns momentos, ser menos conservador que agora, o fato é que tudo vai se tornar mais aguerrido logo. Pois junto com a imprensa jornalística também o livro vai se modificar muito, uma vez que aquele que seria o potencial leitor logo estará cativo de programas de TV em canais online dirigidos a um público diminuto e específico. Este público seria o leitor do livro daquele intelectual que, neste futuro próximo, estará dirigindo o programa de TV.  Isso nós vamos assistir ainda neste final de década.


© Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo


Acesse e participe  da Rede Social do Filósofo Professor Paulo Ghiraldelli Jr.


domingo, 27 de setembro de 2009

Loucuras Filosóficas do Alexandrelli - Programa Sobre Maquiavel - 17/09/09

Assista TV pela internet, http://www.justtv.com.br.

Loucuras Filosóficas do Alexandrelli Fabio Alexandrelli apresenta o filósofo Paulo Ghiraldelli Jr., O Filósofo da Cidade de São Paulo e ambos discutem sobre diversos temas filosóficos. Seus neurônios nunca mais farão sinapses da mesma cor.

Na Just TV: http://www.justtv.com.br (direto online no seu PC) Programa transmitido ao vivo todas as quintas ás 19h.

Programa exibido dia 17/09/09

Powered By ttp://www.Goorila.com.br

Fonte:http://www.youtube.com/watch?v=qVKnZIkvqoM

sábado, 5 de setembro de 2009

JustTV: Loucuras Filosóficas do Alexandrelli - Programa sobre Platão e o Belo



Loucuras Filosóficas do Alexandrelli Toda quinta com o filósofo Paulo Ghiraldelli Jr., O Filósofo da Cidade de São Paulo.
Seus neurônios nunca mais farão sinapses da mesma cor.
Na Just TV: http://www.justtv.com.br (direto online no seu PC)

No terceiro programa falamos principalmente sobre Platão.
Em Platão o assunto é como sair do amor das coisas, que admira o belo, para o o belo em sim. Assim sucessivamente.

Programa transmitido ao vivo todas as quintas ás 19h.
Programa exibido dia 03/09/09
Powered By http://www.Goorila.com.br
Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=lHmLeedTzto

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

O que é Ideologia pelo Filósofo Paulo Ghiraldelli Jr.


1. Características gerais
“Qual a ideologia que está por trás disso?” – eis aí uma pergunta estranha, mas que várias pessoas formulam, descuidadamente. Não há ideologia “por trás”. Caso exista algo “por trás” de um texto ou de  um vídeo ou de uma peça de teatro ou de uma bula de remédio ou de uma legislação, pode acreditar, você não está diante da ideologia.  Por uma razão simples: ideologia é algo que não vem “por trás”, ideologia é o que vem em primeiro plano, é o que está “na frente”.
Quando notamos movimentos sociais e de grupos, institucionais ou não, aprendemos rapidamente isso: a ideologia e a propaganda são parentes não distantes, e a semelhança familiar é justamente esta: ambas querem aparecer.
Um conjunto de caravelas espanholas ataca as caravelas inglesas. Eis aí o tempo de Elizabeth. O que carregam os espanhóis junto de suas velas, ou em bandeiras ou como figura estampada nas próprias velas? O Cristo na Cruz. É o desenho do Cristo o que está “por trás”? De modo algum, a gravura, que é sem dúvida, no caso, o símbolo ideológico, vai à frente. Não se esconde. Mostra-se. Tem de se mostrar.
Vejamos agora um documento educacional, uma peça de legislação. Vamos às reformas educacionais de Getúlio Vargas. Ali, claramente, o ensino médio aparece como voltado para a criação de “elites condutoras” – esta é a frase usada à risca, na letra da lei. Ora, a ideologia conservadora, que diz que o povo precisa ser conduzido por grupos da “elite”, está escondida? Está “por trás”? De modo algum. Está explícita e bem acomodada nas primeiras linhas. Está na frente.
A primeira característica de um conjunto de idéias que se pode chamar de ideologia é a de vir antes que qualquer outra coisa. Ela pertence ao que se quer mostrar e, de preferência, em primeiro plano. Ora, mas há outras duas características da ideologia.
A segunda característica é a busca de universalidade a qualquer preço. Um conjunto de idéias que é bem particular, que não tem grande força lógica para se tornar universal e, no entanto, busca se tornar universal e quer ser uma verdade independente de todos e uma verdade para todos, já está funcionando como ideologia. É próprio de um conjunto de idéias que se quer transformar em ideologia procurar se colocar de modo abstrato, para ganhar universalidade.
“O amor é a única lei” é uma idéia cristã, contra a idéia pagã da “lei do olho por olho e dente por dente”. Todavia, quando já ninguém sabe o que é que se quer dizer por amor, dado sua transformação em palavra abstrata, então a frase pode ser endossada por todos. Todo mundo diz que a coisa mais importante do mundo é “ter amor”. Assim, o próprio cristianismo, se está ligado a isso, se comporta como ideologia.
A terceira característica da ideologia é que ela quer antes mostrar a verdade “que se tem de seguir” do que um conjunto de enunciados que, possa levar à reflexão a respeito de outros conjuntos de enunciados e assim por diante. Ela, a ideologia, aceita pouco aquilo que Robert Brandom, louvado por Rorty, chamou de “o jogo de dar e pedir razões”. Nesse sentido, é próprio da ideologia o engodo, a ilusão ou o erro.
Nesse caso, não falamos de erro psicológico (da percepção ou do raciocínio). Trata-se de engano, certamente, mas como uma feição bem especial, a saber, nem sempre a ilusão ideológica se desfaz uma vez que seu mecanismo de engodo é revelado. Trata-se aqui do contrário do erro percetivo ou de um raciocínio equivocado, que pode ser corrigido, e geralmente o é, quando vemos que em que lugar a frase endossada está dando problemas O engodo ideológico permanece, mesmo quando denunciado. A realidade que vemos ideologicamente não muda, mesmo que o que tomamos por realidade esteja, então, denunciado como produto ideológico.
Por exemplo, se alguém olha para a realidade de negros e brancos, em um país fortemente racista, em que há discriminação contra os negros, e vê os negros como inferiores, o fato de se denunciar que isso não é nada senão uma visão ideológica, não extirpa dos “olhos” de quem assim vê tal realidade. Ele não vê algo novo. Ele não pensa de modo novo. A denúncia não altera a compreensão (imediata) como alteraria a compreensão de alguém que é denunciado ter cometido um erro lógico, como o de manter duas sentenças contraditórias ao mesmo tempo e no mesmo lugar. A denúncia não altera a compreensão (imediata) como mudaria a compreensão de alguém que vê um cachorro e, ao chegar mais perto, percebe que errou, que o que estava  ali era um gato.
2. Filosofia e senso comum
Não raro, a filosofia também se põe como um conjunto de idéias, uma doutrina e, nesse sentido, se parece com a ideologia. E muitos confundem uma com a outra quando ambas assim se apresentam, como doutrinas. Todavia, a filosofia, isto é, a filosofia que não se corrompeu em ideologia, não se apresenta “na frente”. Ela é o que vem “por trás”. Não que esteja escondida. Ela vem por trás por uma razão simples, a filosofia é uma atividade racional, e só podemos usar da razão de modo explicativo e como  fornecedora de boas justificações, quando os fatos já se passaram e quando o discurso histórico, ao menos em parte, já se fez.
“A Coruja de Minerva levanta vôo ao entardecer”, escreveu Hegel. Exatamente: só depois que há a história, então, ao final do dia, a razão passeia sobre tudo e fornece seu veredicto, tornando tudo que é insano, louco e sem sentido, em algo com algum sentido – o que se pode explicar aparece, e o que se pode compreender ganha vida. Esse trabalho da razão, o de dar sentido, não é senão o trabalho da filosofia. A filosofia vem depois, vem tardiamente, vem por trás, não tem como vir pela frente.
A coruja é ave de rapina, precisa enxergar todo o terreno à noite, caso queira conseguir alimento. Deve ver longe e de modo bem amplo, e não pode errar a rasante e não pegar sua presa. Nada tem a ver com as outras aves pequenas. O pardal acorda cedo e sai para revirar o esterco. Come bichinhos do esterco, mas quando perguntado por outros animais sobre o que é seu alimento cotidiano, vive dizendo que são bons pedaços de pão da mesa dos humanos. A coruja é a filosofia, o pardal, a ideologia.
O senso comum mais ou menos cru toma a filosofia e a ideologia como doutrinas. E há verdade nisso. São doutrinas. Mas não de modo absoluto. O senso comum não é analítico e, então, não fazendo o trabalho de distinguir o joio do trigo (alguns gostariam de dizer, crítico), engole indistinções que não se deveria engolir de modo algum. Então, não vê que se em algum momento a filosofia e a ideologia quase se igualam, ao serem doutrinas, ainda assim elas não podem ser tomadas como a mesma coisa. Pois há a doutrina da coruja e há a doutrina do pardal.
O senso comum não acredita que é necessário, a todo o momento, fazer distinções. Ele não aprendeu a lição dos filósofos medievais, que diziam que quando encontramos uma contradição, o que temos de conseguir esboçar é uma distinção. Sendo assim, ele toma ideologia e filosofia como doutrinas e não vê as características da primeira como bem distintas da segunda. Por agir assim, sem grandes preocupações com a distinção, sem achar que contradição é algo que não pode ser engolido, ele é mesmo o senso comum, o pensamento que tem dificuldade em se engajar na filosofia. Não raro, ele está envolto na ideologia e imagina estar fazendo filosofia.
Encontramos boa parte dos professores, jornalistas, médicos etc. totalmente imersos em ideologias. Eles acreditam que só os não escolarizados vivem sob o domínio do senso comum, e que eles próprios funcionam segundo o aparato dado pelo pensamento crítico, livres da ideologia. Todavia, talvez isso que dizem já seja, então, uma ideologia. Afinal, é o que vem na frente – é a primeira coisa que dizem, quando querem se distinguir dos outros. Caso seja assim, então imaginam estarem endossando, de modo esperto, filosofias. Podem não estar. E nesse caso específico, talvez não estejam mesmo. Por não se preocuparem em fazer distinções, e então ver em que poderiam ser ou não diferentes dos não muito escolarizados (“o povo”), eles próprios podem estar apenas no campo do senso comum.
Aliás, diga-se de passagem, esse tipo de intelectual acaba mesmo se envolvendo em uma ideologia específica, que é a que endossa a idéia de que o senso comum é o “pensamento ingênuo”, e que o “homem do povo” ou “o povão” é sempre enganado, ludibriado exatamente por se manter na ingenuidade.
É claro que a proteção contra a ideologia é o uso da razão. Todavia, temos de nos lembrar que o uso da razão, a racionalização de tudo, pode também ser ideológica.

sábado, 29 de agosto de 2009

JustTV: Loucuras Filosóficas do Alexandrelli - MITO E FILOSOFIA - 20/08/09



Loucuras Filosóficas do Alexandrelli
Toda quinta com o filósofo Paulo Ghiraldelli Jr., O Filósofo da Cidade de São Paulo.
Seus neurônios nunca mais farão sinapses da mesma cor.
Na Just TV: http://www.justtv.com.br (direto online no seu PC)

No primeiro programa: MITO E FILOSOFIA.

Programa transmitido ao vivo todas as quintas ás 19h.
Programa exibido dia 20/08/09

LinkWithin

Blog Widget by LinkWithin