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quinta-feira, 18 de junho de 2009

Republicação - Aula sobre "Reflexão" para 1º ano do ensino médio

Plano da Unidade – Filosofia

Tema: Reflexão

Série: 1ª ano do Ensino Médio

Aulas: 2 aulas de 50 minutos

Professora: Marise

Conteúdo e temas: Desenvolvimento de conceitos básicos de Filosofia, reflexão e reconhecimento do intelecto.

Objetivos:

Desenvolver as habilidades de reflexão e organização do pensamento.

METODOLOGIA:

Sensibilização: Um espelho de tamanho médio e seis espelhos pequenos e seis coelhito

( um ovo que vira coelho).

Dividir a classe no máximo em 6 grupos. Assim que os grupos estiverem formados, coloque as seguintes questões na lousa:

Como funciona um espelho?

O que o espelho pode mostrar?

O que o espelho não pode mostrar?

O que podemos fazer com um espelho, além de ver nossos reflexos?

Será que podemos refletir olhando no espelho?

Será que o espelho vai responder a minha pergunta: Quem sou eu?

Sobreviveremos sem o espelho?

Qual a importância do espelho na nossa vida?

O que poderemos fazer com o espelho além de ver os nossos reflexos?

Poderemos usar o espelho para ensinar a refletir?

Problematização: Cada grupo com o espelho na mão, vai discutir e responder as questões que estão na lousa. A partir das resposta cada grupo poderá formular novas questões

.

Investigação: Vamos comparar a “Reflexão do Espelho” com “Reflexão Intelectual” . Destacando as diferenças de ambos na lousa.

Qual a diferença entre o refletir do espelho e o refletir (pensar, imaginar)?

O espelho pode refletir sobre si mesmo? E nós podemos refletir sobre nós mesmo?

Onde esta reflexão nos leva?

Qual a importância do pensar, refletir?

E onde o espelho nos leva?

E se o espelho quebrar?

Num segundo momento usaremos “o Coelhito”. Ele está na forma de ovo, e vira coelho. Surpresa na classe. E coloco a seguinte questão: Se não desenvolvermos o intelecto (reflexão), seremos como o espelho, não existe nada além dele.

No momento em que refletimos desvendamos o mundo, levando ao crescimento interior do “ser”como o “coelho que sai do ovo”. A partir deste momento vemos o mundo com outros olhos.

Conceituação:

Cada grupo apresentará as suas reflexões à classe.

Para finalizar cada participante desenvolverá um texto:”Fazendo a sua reflexão sobre refletir.”

Avaliação:

Através da observação e anotações a respeito da participação oral e produção de texto escrito.

Conclusão:

No uso dos recursos “espelho, coelhito e copos descartáveis” os alunos ficam surpresos e concluíram que: A filosofia é um instrumento para se questionar, duvidar, ampliar nossos conhecimentos.Filosofar é refletir sobre nosso saber, interrogarmo-nos sobre nos mesmo, é conhecer a si mesmo. O primeiro passo para a filosofia é a inquietação que conduz ao questionamento. O objeto da filosofia é a reflexão, o movimento do pensamento que nos permite recuar, nos distanciarmos dos fatos aparentemente banais para buscarmos seus fundamentos.

“ A reflexão leva ao questionamento e ao encontro do eu.”

Observações:

Nessa mesma aula ocorreu o seguinte: Como usei o espelho do banheiro das meninas. Na hora do intervalo elas anunciaram que o "espelho do banheiro feminino tinha sido roubado".Aí surge a questão polêmica :

Como fica nossa vida sem reflexão?

E se a nossa capacidade de refletir for roubada ?

Complementando: Para fazer uso da interdisciplinaridade, esta aula pode ser trabalhada juntamente com o professor Física ( como está na proposta do 1º Bimestre).

O professor de Física poderá trabalhar na prática e a teoria como funciona o espelho , como os objetos absorvem a luz, que é composta das cores do arco-íris. O que é o reflexo? Afinal o que é um espelho?

sábado, 13 de junho de 2009

Origens da ideia de verdade

A nossa ideia da verdade foi construída ao longo dos séculos, a partir de três concepções diferentes, vindas da língua grega, da latina e da hebraica.

Em grego, verdade se diz aletheia, significando: não-oculto, não-escondido, não-dissimulado. O verdadeiro é o que se manifesta aos olhos do corpo e do espírito; a verdade é a manifestação daquilo que é ou existe tal como é. O verdadeiro opõe-se ao falso, pseudos, que é o encoberto, o escondido, o dissimulado, o que parece ser e não é como parece. O verdadeiro é o evidente ou o plenamente visível para a razão.

Assim, a verdade é uma qualidade das próprias coisas e o verdadeiro está nas próprias coisas. Conhecer é ver e dizer a verdade que está na própria realidade e, portanto, a verdade depende de que a realidade se manifeste, enquanto a falsidade depende de que ela se esconda ou se dissimule em aparências.

Em latim, verdade se diz veritas e se refere à precisão, ao rigor e à exactidão de um relato, no qual se diz com detalhes, pormenores e fidelidade o que aconteceu. Verdadeiro se refere, portanto, à linguagem enquanto narrativa de factos acontecidos, refere-se a enunciados que dizem fielmente as coisas tais como foram ou aconteceram. Um relato é veraz ou dotado de veracidade quando a linguagem enuncia os factos reais.

A verdade depende, de um lado, da veracidade, da memória e da acuidade mental de quem fala e, de outro, de que o enunciado corresponda aos factos acontecidos. A verdade não se refere às próprias coisas e aos próprios factos (como acontece com a aletheia), mas ao relato e ao enunciado, à linguagem. O seu oposto, portanto, é a mentira ou a falsificação. As coisas e os factos não são reais ou imaginários; os relatos e enunciados sobre eles é que são verdadeiros ou falsos.

Em hebraico verdade se diz emunah e significa confiança. Agora são as pessoas e é Deus quem são verdadeiros. Um Deus verdadeiro ou um amigo verdadeiro são aqueles que cumprem o que prometem, são fiéis à palavra dada ou a um pacto feito; enfim, não traem a confiança.

A verdade se relaciona com a presença, com a espera de que aquilo que foi prometido ou pactuado irá cumprir-se ou acontecer. Emunah é uma palavra de mesma origem que amém, que significa: assim seja. A verdade é uma crença fundada na esperança e na confiança, referidas ao futuro, ao que será ou virá. A sua forma mais elevada é a revelação divina e sua expressão mais perfeita é a profecia.

Aletheia se refere ao que as coisas são; veritas se refere aos fatos que foram; emunah se refere às acções e as coisas que serão. A nossa concepção da verdade é uma síntese dessas três fontes e por isso se refere às coisas presentes (como na aletheia), aos factos passados (como na veritas) e às coisas futuras (como na emunah). Também se refere à própria realidade (como na aletheia), à linguagem (como na veritas) e à confiança-esperança (como na emunah).

Palavras como “averiguar” e “verificar” indicam buscar a verdade; “veredicto” é pronunciar um julgamento verdadeiro, dizer um juízo veraz; “verossímil” e “verossimilhante” significam: ser parecido com a verdade, ter traços semelhantes aos de algo verdadeiro.

Atividades:

1 - O que significa dizer-se que a verdade é histórica? Significa que a verdade é relativa? Justifique a sua resposta com base numa interpretação do texto 1.

2 - A busca do verdadeiro é o fundamento da indagação filosófica. Apresente 4 argumentos que fundamentem esta asserção.

3 – A noção ocidental de verdade tem uma raiz tripla. Exponha cada uma dessas 3 raízes.

Fonte: http://www.espanto.info/f11ner/f1.htm

sábado, 9 de maio de 2009

Filosofia e seus Pressupostos

A Natureza da Atividade Filosófica Marco Antonio Franciotti

A atividade filosófica é sui generis. Parecemos viver muito bem sem ela. Aprendemos e ensinamos, trabalhamos, ouvimos música, vamos à praia e podemos construir nossas vidas com planos de sucesso e estabilidade financeira sem nos deixarmos envolver pelo discurso e pelos problemas filosóficos. Na verdade, os problemas filosóficos normalmente nos deixam incomodados, mal humorados, ansiosos. Isso porque, como normalmente ocorre, ao tentar resolvê-los, deparamo-nos com outros problemas que até então não havíamos considerado. A filosofia parece ser não apenas desnecessária para o bem viver; ela parece ser incompatível com a idéia de uma vida tranqüila. Somando-se a isso, devemos considerar o caráter abstrato da atividade filosófica. Por lidar com problemas distantes da vida comum, o filósofo é considerado freqüentemente uma pessoa destacada da realidade, perdido em especulações inúteis, alheio aos problemas que a vida diária se lhe impõem.

Essa visão negativa do filósofo rondou-o desde os primórdios da filosofia. Como ilustração, é interessante recorrer a uma lenda acerca de Tales, o grande matemático e filósofo grego que revolucionou a geometria, aquele que inventou o ‘Teorema de Tales’, estudado nas aulas de matemática do 2o grau. Em sua época, cerca de 580 a. C., não havia a divisão do conhecimento que há hoje, de modo que o intelectual era tanto matemático, quanto político, astrônomo, geômetra, etc. Conta a lenda que Tales certa vez passeava à noite olhando para as estrelas, com o intuito de estudar seus movimentos e regularidades. Com os olhos fixos no céu, ele não percebeu que caminhava em direção a um poço. Depois de tropeçar e cair dentro dele, uma jovem trácia que testemunhara o fato observou em tom sarcástico: "tão preocupado com os assuntos celestes que acabou esquecendo da terra que o sustenta" (cf. Platão: Teeteto, 174a). Essa lenda é utilizada para caracterizar a visão que o senso comum tem do filósofo. "Filosofia", diz o dito popular, "é aquilo sem o qual o mundo seria tal e qual". O filósofo é visto como um sonhador de sonhos inefáveis, ou ainda como uma pessoa que está sempre envolvida com assuntos que a grande maioria das pessoas não dá o menor valor.

Essa visão caricatural da filosofia não se restringe ao senso comum. Guimarães Rosa certa vez definiu o filósofo como "aquele que se encontra num quarto escuro, à procura de um gato preto que não está lá. E ele o encontra..." Fernando Pessoa, em seu famoso poema ‘Tabacaria’, escreve que "a metafísica... é uma conseqüência de se estar mal disposto..." Mas será que é assim mesmo, quer dizer, será que é tão simples descartar a filosofia como uma atividade intelectual inútil? Para obtermos uma resposta satisfatória, é necessário que especifiquemos o ofício do filósofo. Qual é a natureza do trabalho filosófico?

A leitura dos filósofos sugere que a primeira característica distintiva do filósofo é a de lidar com idéias ou conceitos e não com objetos palpáveis, como o lavrador e o ferreiro. É claro que estes últimos não dispensam (e não podem dispensar) o uso de idéias, o ferreiro recorrendo sempre à idéia ou ao modelo do martelo a ser construído e o lavrador à idéia do solo e da época de plantio. O filósofo, porém, lida com idéias que não são sempre traduzíveis em coisas concretas, tais como o conceito de ‘verdade’ ou de ‘bem’. Além disso, contrariamente ao psicólogo e ao sociólogo, por exemplo, o filósofo não está preocupado em colocar em prática as suas idéias. Isso não quer dizer que ele se recuse a fazê-lo; ele simplesmente não considera a concretização de suas idéias como fundamental para a sua atividade. Como diz Platão: "o filósofo permanece totalmente alheio ao seu vizinho mais próximo; ele é ignorante..., ele mal sabe se é um homem ou um animal; ele está investigando a essência do homem". Embora ele prefira o convívio das cidades, "sua mente, desdenhando da irrelevância e da nulidade das coisas humanas, está sobrevoando o estrangeiro" (Teeteto, pgs. 25-6).

O que há de peculiar em sua prática com conceitos, isto é, em sua prática teórica, é que ele está sempre buscando o fundamento ou a raiz dos problemas e das doutrinas analisadas. Para ilustrar esse ponto, creio ser necessário recorrer a Sócrates. Perguntado pelos chamados sábios acerca do que ele conhecia, Sócrates respondeu: "A única coisa de certa que sei é que nada sei". É claro que Sócrates sabia muito mais do que isso, mas o que ele queria dizer era que, contrariamente aos chamados sábios, ele procurava se definir em termos dos limites do seu conhecimento e não em termos da quantidade de conhecimentos adquiridos. Sócrates acreditava que a primeira atitude em direção ao conhecimento não era a certeza, mas a ignorância. Nesse contexto, a palavra ‘ignorância’ não está sendo usada no sentido pejorativo, mas sim no sentido de ‘ausência de saber’, ou ‘ausência de conhecimento’. O filósofo não é, então, nem o sábio nem o ignorante. Ele é, na verdade, aquele que busca a sabedoria, ou que procura ser amigo da sabedoria. Ele não é também o homem das respostas, mas das perguntas. Diante, por exemplo, do problema acerca da atitude justa ou não de um governante, o filósofo deve destacar que o que está em jogo é antes de tudo o conceito de justiça; somente a partir de uma idéia clara desse conceito é que se pode caracterizar a atitude do governante como justa ou não. É nesse sentido que o filósofo se diz estar preocupado não tanto com a concretização da sua idéia mas com a idéia em si, isto é, não com o ato específico do governante mas com a definição clara de justiça.

Assim, o filósofo realmente parece habitar um outro mundo, aquele que não é visto ou palpável, o mundo das pressuposições e dos fundamentos do conhecimento. Ele parece estar realmente num quarto escuro à procura de um gato preto, pois muitas vezes esse fundamento ou essa raiz não se encontra visível. Ele se deixa envolver pelos pensamentos nos sentido de procurar o ponto que originou uma discussão. Mas além dessa busca da raiz dos problemas, ou melhor, além dessa atitude radical que acabei de expor, há uma segunda característica da maneira filosófica de refletir. Suponha que eu receba a tarefa de desenhar o mapa, por exemplo, da ilha de Santa Catarina. A representação, por exemplo, da orla da praia da Joaquina, deve ser construída de acordo com a escala geral do mapa. Se, por ventura, a representação em questão não respeitar a escala, a praia da Joaquina ocupará no meu mapa uma área desproporcional em relação ao todo. O filósofo, nesse sentido, é como um geógrafo: a atitude radical deve ser acompanhada de uma visão da totalidade, i.e., de uma atitude com respeito ao todo. Sem essa segunda característica, o filósofo se torna tão descuidado como o geógrafo medíocre que não leva em conta a escala do mapa que está elaborando, ou como o botânico que pretende estudar uma determinada planta sem levar em conta o tipo de solo e o clima do ambiente em que ela nasceu.

Até agora, as minhas observações não fornecem material suficiente para uma análise da visão que aquela jovem trácia e o homem comum têm do filósofo, embora já nos dêem claras indicações da visão que o filósofo tem de si mesmo. O homem comum parece ter um forte aliado, um aliado-filósofo, dos mais influentes na história da filosofia. Eu me refiro a Karl Marx. Foi ele que, em tom bombástico, afirmou: "Os filósofos até hoje se preocuparam apenas em interpretar o mundo; trata-se, porém, de transformá-lo". Parece que Marx também vê o filósofo como distante das questões do mundo. Creio, porém, que essa análise não corresponde à intenção real de Marx. É preciso reconhecer antes de mais nada que não é possível transformar o mundo sem interpretá-lo. Qualquer ação humana concreta pressupõe uma interpretação, isto é, uma atitude reflexiva e conceitual. O próprio termo "realidade" se apresenta carregado de interpretação. É como se eu apenas tivesse acesso à ilha de Santa Catarina através do seu mapa. Quando falamos, por exemplo, da situação social do Brasil contemporâneo, o que fazemos é encaixar a experiência que temos do nosso dia a dia, bem como as informações que dispomos do que acontece no Brasil inteiro e de sua história, num modelo conceitual, numa teoria, ainda que rudimentar, a partir da qual os eventos são relacionados e catalogados entre si. Assim, nenhuma atitude transformadora se dá sem que certos pressupostos sejam assumidos, sem que determinados princípios que vão direcionar a nossa investigação e a nossa ação sejam levados em conta. Em outras palavras, a transformação do real só pode ocorrer se se interpretar o que está para ser transformado. Sem um plano pré-estabelecido, com seus pressupostos teóricos, corre-se o risco de nada transformar, ou de transformar para pior.

Dessa forma, a maneira mais adequada que encontro de analisar a frase de Marx é reconhecer que, de um lado, Marx não poderia estar dizendo que devemos simplesmente parar de interpretar e apenas transformar, pois a transformação requer interpretação; de outro lado, a interpretação sem transformação é inútil, isto é, a interpretação em termos da atitude reflexiva do filósofo deve ser sempre em última instância uma interpretação com vistas à transformação do mundo. Dito de outro modo, a filosofia deve sempre falar do mundo, desse mundo diante dos nossos olhos e que tem um passado, um presente e um futuro dos quais podemos ter experiência, tentando modificá-la e melhorá-la. Embora à primeira vista não pareça, a frase de Marx é importante para uma defesa da atividade filosófica. Ela permite-nos corrigir o homem comum, mostrando-lhe o caráter enganador da idéia de que o filósofo está "do lado de fora" do mundo. Marx está se referindo a um determinado tipo de filósofo, ou a um determinado tipo de filosofia: aquele que em nada contribui para o desenvolvimento da humanidade, que é hermético, arrogante e auto-suficiente. Esse tipo de filosofia, realmente, não é interessante. Ele se reduz a um mero exercício de diletantismo.

Outro ponto importante aqui consiste em refletir sobre o que significa transformar. Creio que não se pode exigir que o filósofo transforme o mundo, tal como o ferreiro ou o carpinteiro o fazem. O instrumental do filósofo são os conceitos; portanto, a transformação esperada deve incidir sobre o universo conceitual diretamente, e apenas indiretamente sobre a realidade concreta. Em outras palavras, o filósofo não é aquele que necessariamente sai às ruas pondo em prática as suas teorias. Ele é, essencialmente, um teórico inserido no mundo, e mesmo o problema da transformação da realidade é por ele tratado apenas teoricamente. Isso não quer dizer que ele esteja proibido de agir praticamente. Não há por que reprovar Sartre por ter aderido às passeatas estudantis no final da década de sessenta em Paris. O ponto, porém, é que, mesmo se ele não tivesse feito isso, ele continuaria a ser considerado um filósofo. Do mesmo modo, Platão continua sendo considerado filósofo a despeito de jamais ter sido rei, embora defendesse a idéia de que o filósofo deveria ser rei e que o rei deveria ser filósofo.

Vários pensadores adotaram uma postura destrutiva com relação à filosofia, ou pelo menos com relação ao que eles concebiam como sendo filosofia. Um exemplo a ser citado é o de Sexto Empírico. Para ele, a atividade filosófica é essencialmente teórica e contemplativa. Vista desse modo, a filosofia parece nada mais do que uma atividade destacada da realidade, quer dizer, destacada da vida e da prática comuns. O filósofo é um dogmático, quer dizer, uma pessoa que fica formulando dogmas ou, na linguagem de Sexto Empírico, formulando proposições e provas acerca do não-evidente ou daquilo que não pode ser verificado na experiência, daquilo que de algum modo se coloca para além do dado que aparece através dos nossos sentidos. O dogmático procura estabelecer o conhecimento do não-evidente. Esse conhecimento se baseia num conjunto de regras e princípios supostamente não-controversos, por meio dos quais é possível elaborar argumentos irrefutáveis. É esse conjunto de proposições que é chamado de teoria ou doutrina.

O cético descrito por Sexto Empírico surge como um opositor no debate com o dogmático, recusando-se a admitir a verdade das pretensões teóricas e doutrinais sobre o não-evidente. Ele tenta então substituir essas pretensões por um mero reconhecimento da nossa habilidade de viver e de explorar o mundo das coisas que aparecem. O procedimento do cético exibe vários momentos. Primeiro, ele observa as posições filosóficas conflitantes sobre todo o tipo de assunto (diafonia). Isso o leva a desenvolver a habilidade de produzir um contra-argumento a todo argumento com o qual ele se depara, de tal modo que tanto um quanto o outro acabam por possuir a mesma força persuasiva (isostenia). Depois de um certo tempo, ele acaba por duvidar de que seja realmente possível produzir uma explicação ou uma solução definitiva para os problemas filosóficos em geral (apatia). Em conseqüência disso, ele propõe que se suspenda o juízo com respeito às pretensões dogmáticas. Essa atitude o leva a atingir a desejada paz mental, ou o conforto da alma (ataraxia). Isso posto, ele se restringe a descrever como um cronista aquilo que se lhe aparece, manifestando sempre a sua desconfiança com relação a compromissos teóricos (cf. Williams 1988, pg. 560)

Esse é um procedimento bem próximo daquele que o homem comum adota diante da filosofia ou da atividade reflexiva em geral. Explicações abstratas não nos levam mesmo a lugar algum, de modo que a melhor coisa a fazer é suspender o juízo sobre elas, mudar de idéia, pensar em outras coisas, ou simplesmente viver sem se apegar a abstrações. Mas será que é assim tão fácil se livrar das abstrações? Será que é assim tão simples olhar por outro lado e ‘deixar par lá’, por exemplo, quando a gente se dá conta de que a gente está abstraindo ou especulando?

Hume levanta essa possibilidade, mas se opõe a ela. Na celebrada conclusão do livro primeiro do Tratado da Natureza Humana, ele diz que especulações filosóficas profundas, atividades reflexivas muito abstratas, só o levam ao desconforto. Nenhuma solução aos problemas é encontrada, e parece realmente que o mundo fica ‘tal e qual’. Nada muda quando a gente reflete, ou quando a gente filosofa dessa forma. Ele então decide simplesmente viver, passear ao longo do rio, jogar gamão com seus amigos e deixar de lado as elucubrações. Ele está preparado para engavetar os livros de metafísica escolástica, ou jogá-los ao fogo. No entanto, as inquietações especulativas parecem voltar à sua mente sem que ele possa impedir. Depois de um certo tempo ‘refrescando’ a mente com as frivolidades da vida, ele começa a querer saber quais os motivos que o levam a gostar de certas coisas e não de outras, a repudiar algumas coisas e não outras, a considerar certas ações como boas e outras como más, a julgar que certas afirmações são verdadeiras e outras falsas. Melhor dizendo, ele retorna ao universo da abstração, dos princípios e das regras que sustentamos muitas vezes sem sermos conscientes delas. Isso quer dizer que ele retorna ao universo da atividade filosófica naturalmente. É por isso que Hume é chamado por muitos de seu comentadores de naturalista. A filosofia é, para ele, algo que está instalado em nós, que faz parte da nossa condição humana. A natureza, ele diz, força-nos a refletir, a julgar, do mesmo modo que nos força a respirar e a sentir (Tratado da Natureza Humana, pg. 265 ff).

Não há dúvida de que o homem comum possa passar a vida inteira sem se preocupar com os problemas que rondam os filósofos. Mas ele, conscientemente ou não, está se valendo de ‘motivos’ para tomar as tantas decisões que a vida o obriga a tomar. Se olharmos mais de perto, veremos que esses motivos estão calcados em princípios ou regras morais, ou em informações às vezes genuínas (ou verdadeiras), às vezes equivocadas (falsas). Quer dizer, o homem comum não pára de refletir, de especular. A reflexão, quer ele se dê conta disso ou não, faz parte de sua vida do mesmo modo que faz parte da vida dos intelectuais, sejam eles cientistas ou filósofos.

Mas a filosofia é mais do que refletir. Ela é refletir sobre o refletir. A filosofia surge quando a própria capacidade de refletir é posta em questão, quer dizer, refletimos sobre o refletir, quando queremos saber como adquirimos conhecimentos, ou se sabemos realmente aquilo que supomos saber. Por isso que, para Sócrates, o ponto de partida do filosofar é o reconhecimento da própria ignorância. A afirmação ‘só sei que nada sei’ só pode ser feita por alguém que já exerceu uma auto-crítica, que já se debruçou sobre as bases de seus conhecimentos e os avaliou de modo adequado. Muitas vezes, quando fazemos isso honestamente, quer dizer, quando olhamos para dentro de nós mesmos e pesquisamos as razões daquilo que defendemos às vezes tão teimosamente, nada encontramos, e aí ficamos espantados, perturbados, incomodados. Platão chamava esse estado de espírito de thaumazéin, isto é, o espanto da própria ignorância. Esse é o motor do filosofar. É o que nos leva a tentar preencher o vazio, a ausência do saber, a ignorância.

Para esclarecer esse ponto, é oportuno comparar a filosofia com a ciência. A atividade do cientista é marcadamente empírica. Ele tenta entender o mundo como ele é dado em sua experiência e, a partir daí, ele procura predizer e explicar os eventos. O cientista via de regra pergunta: "O que causou isso? " Ao tentar responder a essa pergunta, ele recorre a outros eventos que requerem eles mesmos mais explicações. Quando ele se vê às voltas com uma seqüência de eventos interligados, ele pode perguntar: "O que causou a existência das séries? ", ou ainda, "por que esta série e não outra? " Estas perguntas, porém, levam-no para além dos limites da atividade científica, tendo em vista que uma série como essa não é dada na experiência. Esse território, às vezes considerado como obscuro, é a filosofia. Certas questões levam-nos a níveis de abstração que nenhuma investigação empírica pode proporcionar. Elas surgem, pode-se dizer, no final de todas as outras pesquisas, "quando problemas relativos aos fundamentos dos saberes particulares, como a Física, a Matemática, a Geometria, etc., são detectados ou seus métodos de investigação passam a ser questionados. Assim sendo, os problemas filosóficos e os sistemas destinados a resolvê-los são formulados em termos que tendem a se referir aos domínios da possibilidade e da necessidade e não aos da realidade, ou seja, ao que poderia e ao que deveria ser e não ao que é" (Scruton 1981, pg. 12 ff.)

Isso quer dizer que nem toda pesquisa fronteiriça aos saberes especiais é filosófica. Quando se tenta resolver problemas filosóficos sem se questionar a validade dos procedimentos adotados, incentiva-se o dogmatismo e a superstição. Por exemplo, no caso da existência da série de eventos, se pressupusermos que Deus é a causa primeira e também a meta final de todas as coisas, acabamos recorrendo a um artigo de fé e não a um saber racional. Essa afirmação tem o mérito de produzir uma dada resposta a quebra-cabeças metafísicos, mas ela possui uma grande desvantagem, que é a de se basear numa suposição que não pode ser colocada em dúvida, e que é por isso mesmo dogmática. Daí não se segue que o filósofo deva necessariamente ser um ateu. Muitos filósofos do passado (e mesmo vários do presente) acreditam em Deus e pertencem a diferentes religiões. Mas quando eles decidem discutir a existência ou não de Deus, eles sabem que não podem simplesmente postulá-la sem maiores problemas. Eles sabem que toda discussão é uma disputa, uma busca da melhor explicação ou da solução de um certo problema. Decidir discutir significa submeter-se ao tribunal final da razão, que não aceita a mera crença incontestável como base de argumentação (cf. Scruton 1981, pg. 14).

Tal problemática remete-nos à relação da filosofia com a religião. Sem dúvida que há semelhanças entre o filósofo e o religioso. Ambos procuram refletir sobre questões abstratas, ambos procuram explicações gerais, ambos procuram um princípio ou um conjunto de princípios fundamentais a partir dos quais podemos responder às questões mais importantes que nos afligem. mas há pelo menos uma diferença essencial entre os dois: o religioso encontra o seu princípio fundamental em algo que, em última instância, requer uma crença não justificável em um Ser Superior que explica tudo. O filósofo, por seu turno, procura a verdade ou aquilo que pode ser estabelecido através de bases racionais.

Isso nos conduz a uma outra característica importante da atividade filosófica, a saber, a preocupação com a verdade. As questões filosóficas podem muito bem ficar sem respostas, ou podem mesmo propiciar polêmicas intermináveis (como geralmente ocorre). Mas elas são questões de qualquer modo e requerem, por isso mesmo, uma avaliação das razões sugeridas e propostas para que possamos caracterizá-las como verdadeiras ou falsas. Afinal, a filosofia não pode ser um mero aglomerado de proposições retóricas, sem qualquer pretensão de estabelecer princípios sólidos. Ela pode ser definida como uma atividade a partir da qual se estudam métodos e metas das nossas formas diferenciadas de reflexão, a fim de que possamos chegar a conclusões sobre os seus limites e a sua validade. A pesquisa filosófica se dá de uma maneira racional, quer dizer, sem qualquer remissão à fé, visando o estabelecimento de respostas convincentes a questões as mais diversas que fogem ao âmbito das ciências particulares mas que são comumente trazidas à luz por elas.

Muito bem. Já disse que a filosofia tem por função, entre outras coisas, refletir sobre o refletir. Através do filosofar, podemos saber mais sobre a nossa capacidade reflexiva. Por quê? Porque, em assim o fazendo podemos exercer o poder de reflexão mais amplamente, mais efetivamente e com mais precisão. Mas por que é tão importante exercer a capacidade reflexiva? A resposta é simples, mas essencial. Sem refletir, não poder;iamos ser livres. Agir sem refletir significa não ser dono das próprias ações, ou ser movido por causas outras que não a nossa própria razão. Essa é a diferença entre nós e os robôs. Eles não possuem poder de reflexão e por isso mesmo eles não podem escolher por si mesmos o curso de ação que irão adotar. Do mesmo modo, quando adotamos um certo curso de ação ‘sem refletir’, mecanicamente, a gente se assemelha a um autômato, ou a um robô nas mãos do primeiro que passa.

É neste momento que fica claro o porquê do filosofar. A ponte entre a filosofia e as outras áreas não é imediata. Mas ela existe. Quando digo que sem refletir seríamos apenas autômatos, eu quero dizer que a atividade reflexiva é condição de possibilidade das decisões livres. Se assim é, então filosofia tem a ver com liberdade. Explico melhor: se a atividade reflexiva leva-nos a ser livres, e se a filosofia permite-nos usar essa capacidade reflexiva com cada vez mais profundidade, então a filosofia pode ser vista como uma ferramenta essencial para a nossa liberdade, levando-nos a pensar mais claramente e, em conseqüência disso, a usar a capacidade de escolha em sua plenitude. O exercício da filosofia é a expressão mais profunda e plena da nossa liberdade. É a liberdade do pensar, do refletir, que nos leva a agir livremente. O exercício da liberdade pressupõe que reflitamos sobre as nossas vidas, as nossas ações, as pessoas que nos rodeiam, o país em que vivemos, as regras da comunidade a qual pertencemos, e as informações (verdadeiros ou falsas) que obtemos, etc.

Esse é um resultado fundamental. Se surgir então a pergunta sobre o porquê de se estudar filosofia, independente dos interesses intelectuais de cada um, essa é uma resposta possível. Além disso, a relação entre filosofia e liberdade permite que a gente responda àqueles que dizem que o filósofo em nada contribui para o desenvolvimento da humanidade ou para a mudança (para melhor) da realidade. Se procurarmos mudar a realidade sem liberdade, na verdade estaremos mudando algo não segundo a nossa vontade, mas segundo a vontade dos outros.

Uma outra lição que se pode tirar da relação entre filosofia e liberdade é que ela nos ajuda a compreender o porquê da insatisfação constante do filósofo, aquela que Hume sente e que o leva a passear ao longo do rio e a jogar gamão com os seus amigos. A insatisfação origina-se do fato de que a atividade filosófica, assim como a atividade teórica em geral, não parece ter um ponto final. Mas isso é exatamente o que a torna tão essencial à liberdade. O trabalho filosófico em particular e o teórico em geral não têm fim. Conceber um fim à atividade reflexiva é, de um certo modo, conceber o fim do exercício da liberdade. A gente só pára de refletir sobre os princípios que atuam como premissas de argumentos quando a gente se rende à superstição, à religião ou ao totalitarismo.

Finalmente, pode-se dizer que a atividade reflexiva é auto-referente. Isso quer dizer que, mesmo para combatê-la, a gente tem que adotá-la. Esse é o erro de Sexto Empírico e de outros céticos que suspeitavam da atividade especulativa. Eles só podem combater a especulação de modo persuasivo se eles adotarem um procedimento especulativo. Eles só podem condenar uma teoria adotando outra. O que resta então é adotar uma teoria que resista a ataques, e que explique pelo menos alguns dos problemas que nos afligem. Mas como descobrir essa teoria, que não é mágica, como queriam os dogmáticos, mas que inevitavelmente se encontra na atividade intelectual, como negavam os céticos? No caso da filosofia, a gente tem que filosofar mesmo para negar a filosofia, como uma vez disse Aristóteles. A gente tem que ser filósofo mesmo se a gente desejar jogar fora a filosofia.

Publicado no jornal A Notícia, em 16 de Maio de 1993

Fonte: http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/filosofia.htm

domingo, 26 de abril de 2009

Pergunta e Pergunta Filosófica

Sérgio Biagi Gregório

1) Que é uma pergunta?

Palavra ou frase com que se interroga. Indagação feita com o intuito de obter uma resposta. Ditado: "Quem pergunta quer saber". Tipos de perguntas: Que é isto? Que horas são? Quem foi Allan Kardec?

2) Que é uma pergunta filosófica?

As questões filosóficas não são pontuais, isoladas, mas estabelecem redes, conectam-se a outras questões, tecendo um campo mais amplo de investigação. A pergunta filosófica relaciona-se com a admiração, a crítica, a reflexão e a vivência do sujeito. A pergunta filosófica sintetiza o objetivo central da filosofia, ou seja, inclui o conhecimento de si mesmo, a relação do sujeito com o próximo e a consciência do mundo que o rodeia.

3) Ensinar a pensar é ensinar a perguntar?

Sim. Observe alguns livros de filosofia. Os autores, em cada capítulo, partem de questões provocativas. Tomemos como exemplo o capítulo III, Que é Bem e que é Mal?, do livro de S. E. Frost Jr., Ensinamentos Básicos dos Grandes Filósofos. Eis as perguntas iniciais: Qual a medida do bem e do mal? Como podemos saber se um ato é bom ou mal? Existe, na própria natureza do universo, um código de leis que determine o bem e o mal? Ou é a bondade e a maldade uma questão de relação entre um ato e outros atos?

4) Como reaprender a perguntar?

Admirar-se, espantar-se com o que ocorre diariamente e daí elaborar uma pergunta. Não se deve conformar com o que foi dito pela mídia ou pela boca de uma autoridade. É preciso buscar algo que esteja por detrás das aparências. "Para pressentir no mundo outra realidade, precisamos cavar muita terra como quem busca ouro. A filosofia é uma longa atividade de escavação".

5) Em que consistiam as perguntas de Sócrates?

As perguntas de Sócrates não tinham o objetivo de obter uma resposta definitiva. O que ele queria era, através de um encadeamento de perguntas e respostas, aprofundar o conhecimento acerca de um determinado tema. Preocupava-se em passar da opinião ao conceito, ou da doxa a episteme, sem, contudo, chegar a uma conclusão sobre o assunto proposto.

Lembrete: "O alvo da filosofia é fazer as perguntas certas, não descobrir as respostas certas".

6) Quem sou eu é uma pergunta filosófica?

Informar o nome, o estado civil, o endereço e a idade não é resposta filosófica. Mesmo acrescentando alguns dados, como por exemplo, excelente professor de Direito ou coisas semelhantes, ainda não é uma resposta filosófica. Para ser filosófica, a resposta tem a ver com vivência, atitude de reflexão e estado de admiração. O exemplo de Santo Agostinho é pertinente: Dizia que todas as noites, antes de adormecer, repassava o seu dia para ver como fora com as suas palavras, os seus pensamentos e os seus atos. Se percebesse que tinha ofendido o seu próximo, pedia silenciosamente o seu perdão.

7) Toda a pergunta precisa de resposta?

Não. Há muitas perguntas que fazemos simplesmente no intuito de apresentar um tema ou uma questão. É como esquentar o motor do carro antes de pegar a estrada. A pergunta que precisa de resposta é aquela que prende a nossa atenção, é aquela que diz respeito a uma necessidade peremptória do nosso espírito imortal.

8) Como fazer perguntas relevantes?

As perguntas que contribuem para a construção do conhecimento são perguntas relevantes. Deve-se tomar consciência se as nossas perguntas se dirigem para tal propósito.

Para reflexão: "Desde que entramos no ensino fundamental, ou mesmo antes, somos geralmente ensinados a dar respostas a questões formuladas por outras pessoas. O mero responder pode consistir em um bloqueio no processo de construção do conhecimento, pois não costumamos observar os limites de nossas respostas".

FÁVERO, Altair Alberto et all. (Org.) Um Olhar sobre o Ensino de Filosofia. Rio Grande do Sul: Unijuí, 2002. (Coleção filosofia e ensino)

São Paulo, julho de 2006

Fonte: http://www.ceismael.com.br/filosofia/filosofia030.htm

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Existencialismo

O homem está condenado a ser livre

José Renato Salatiel*

Existencialismo é um conjunto de doutrinas filosóficas que tiveram como tema central a análise do homem em sua relação com o mundo, em oposição a filosofias tradicionais que idealizaram a condição humana. É também um fenômeno cultural, que teve seu apogeu na França do pós-guerra até meados da década de 1960, e que envolvia estilo de vida, moda, artes e ativismo político. Como movimento popular, o existencialismo iria influenciar também a música jovem a partir dos anos 1970, com os góticos e, atualmente, os emos. Apesar de sua fama de pessimista e lúgubre, o existencialismo, na verdade, é apenas uma filosofia que não faz concessões: coloca sobre o homem toda a responsabilidade por suas ações. O escritor, filósofo e dramaturgo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), maior expoente da filosofia existencialista, parte do seguinte princípio: a existência precede a essência. Com isso, quer dizer que o homem primeiro existe no mundo - e depois se realiza, se define por meio de suas ações e pelo que faz com sua vida. Assim, os existencialistas negam que haja algo como uma natureza humana - uma essência universal que cada indivíduo compartilhasse -, ou que esta essência fosse um atributo de Deus. Portanto, para um existencialista, não é justo dizer "sou assim porque é da minha natureza" ou "ele é assim porque Deus quer". Ao contrário, se a existência precede a essência, não há nenhuma natureza humana ou Deus que nos defina como homens. Primeiro existimos, e só depois constituímos a essência por intermédio de nossas ações no mundo. O existencialismo, desta forma, coloca no homem a total responsabilidade por aquilo que ele é.

Somos os responsáveis por nossa existência

Se o homem primeiro existe e depois se faz por suas ações, ele é um projeto - é aquele que se lança no futuro, nas suas possibilidades de realização. O que isso quer dizer? Eu não escolho nascer no Brasil ou nos EUA, pobre ou rico, branco ou preto, saudável ou doente: sou "jogado" no mundo. Existo. Mas o que eu faço de minha vida, o significado que dou à minha existência, é parte da liberdade da qual não posso me furtar. Posso ser escritor, poeta ou músico. No entanto, se sou bancário, esta é minha escolha, é parte do projeto que eliminou todas as outras possibilidades (escritor, poeta, músico) e concretizou uma única (bancário). E, além disso, tenho total responsabilidade por aquilo que sou. Para o existencialista, não há desculpas. Não há Deus ou natureza a quem culpar por nosso fracasso. A liberdade é incondicional e é isso que Sartre quer dizer quando afirma que estamos condenados a sermos livres: "Condenado porque não se criou a si próprio; e, no entanto, livre, porque uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo quanto fizer" (em O existencialismo é um humanismo, 1978, p. 9). Portanto, para um existencialista, o homem é condenado a se fazer homem, a cada instante de sua vida, pelo conjunto das decisões que adota no dia-a-dia. "Tive que cuidar dos filhos, por isso não pude fazer um curso universitário." "Não me casei porque não encontrei o verdadeiro amor." "Seria um grande ator, mas nunca me deram uma oportunidade de mostrar meu talento." Para Sartre, nada disso serve de consolo e não podemos responsabilizar ninguém pelo que fizemos de nossa existência. O que determina quem somos são as ações realizadas, não aquilo que poderíamos ser. A genialidade de Cazuza ou Renato Russo, por exemplo, é o que eles deixaram em suas obras, nada além disso.

O peso e a importância da liberdade

Mas ao escolher a si próprio, a sua existência, o homem escolhe por toda a humanidade, isto é, sua escolha tem um alcance universal. João é casado e tem três filhos: fez uma opção pela monogamia e a família tradicional. Já seu amigo José é filiado a um partido político e vai para o trabalho de bicicleta: acha correta a participação política e se preocupa com o meio ambiente. As escolhas de José e João têm um valor universal. Ao fazer algo, deveríamos nos perguntar: e se todos agissem da mesma forma, o mundo seria um lugar melhor de se viver? E é por esta razão que o viver é sempre acompanhado de angústia. Quando escolhemos um caminho, damos preferência a uma dentre diversas possibilidades colocadas à nossa frente. Seguimos o caminho que julgamos ser o melhor, para toda humanidade. Fugir deste compromisso é disfarçar a angústia e enganar sua própria consciência. É agir de má-fé, segundo Sartre. Neste caso, abro mão de minha responsabilidade. Digo: "Ah... nem todo mundo faz assim!", ou então delego a responsabilidade de meus atos à sociedade, às pessoas de meu convívio familiar e profissional ou a um momento de ira ou paixão. No entanto, para os existencialistas, esta é uma vida inautêntica. À primeira vista, o peso da liberdade depositado no homem pelos filósofos existencialistas pode parecer excessivamente pessimista, fatalista, de uma solidão extrema no íntimo de nossas decisões. Mas, ao contrário, o existencialista coloca o futuro em nossas mãos, nos dá total autonomia moral, política e existencial, além da responsabilidade por nossos atos. Crescer não é tarefa das mais fáceis.

Outros pensadores existencialistas

Desde Sócrates (470 a.C.- 399 a.C), muitos filósofos refletiram sobre a existência humana, passando pelos estóicos, Santo Agostinho (354-430), Blaise Pascal (1623-1662), Friedrich Nietzsche (1844-1900) e Henri Bergson (1859-1941), mas nem por isso podem ser chamados de filósofos existencialistas. Mesmo entre os pensadores alinhados às doutrinas da existência, encontram-se posições diversas que vão do chamado existencialismo cristão, representado pelo dinamarquês Sören Kierkegaard (1813-1855) - considerado o precursor do movimento -, o francês Gabriel Marcel (1889-1973) e o alemão Karl Jaspers (1883-1969), até o existencialismo ateu, do próprio Sartre, do filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) e dos escritores franceses Albert Camus (1913-1960) e Simone de Beauvoir (1908-1986).

Saiba mais

Sobre existencialismo, há obras que oferecem uma visão geral das doutrinas, como O que é existencialismo (Editora Brasiliense), de João da Penha, e História do existencialismo, de Denis Huisman (EDUSC). A melhor introdução aos escritos de Sartre é a conferência "O existencialismo é um humanismo", publicada na coleção Os pensadores (Abril Cultural).
* José Renato Salatiel é jornalista e professor universitário. Fonte: http://educacao.uol.com.br/filosofia/existencialismo.jhtm

terça-feira, 21 de abril de 2009

Indiferentes

“ Odeio os indiferentes. Como Frederico Hebbel, acredito que “viver quer dizer tomar partido”. Não podem existir os apenas homens, os estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão e partidário. Indiferença é abulia, é parasitismo, é covardia, não é vida. Por isso, odeio os indiferentes.

A indiferença é o peso morto da história. É a bola de chumbo para o inovador, é a matéria inerte na qual freqüentemente se afogam os entusiasmos mais esplendorosos. (...)

A indiferença atua poderosamente na história. Atua passivamente, mas atua. É a fatalidade; é aquilo com o que não se pode contar; é aquilo que confunde os programas, que destrói os planos mais bem constituídos. É a matéria bruta que se rebela contra a inteligência e a sufoca. O que acontece, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um ato heróico (de valor universal) pode gerar, não se deve tanto à iniciativa dos poucos que atuam, quando à indiferença de muitos. O que acontece não acontece tanto porque alguns o queiram, mas porque a massa dos homens abdica de sua vontade, deixa de fazer, deixa enrolarem os nós que, depois, só a espada poderá cortar; deixa promulgar leis que que, depois, só a revolta fará anular; deixa subir ao poder homens que, depois, só uma sublevação poderá derrubar. (...) Os fatos amadurecem na sombra porque mãos, sem qualquer controle a vigia-las, tecem a teia da vida coletiva e a massa não sabe, porque não se preocupa com isso. Os destinos de uma época são manipulados de acordo com visões restritas, os objetivos imediatos, as ambições e paixões pessoais de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens ignora, porque não se preocupa.”

GRAMSCI,Antonio.La Città futura.Turim,11 fev.1917.

Responda as seguintes perguntas: 1- Comente estes trechos de Gramsci: " Indiferença é abulia, é parasitismo, é covardia, não é vida." " Indiferença atua poderosamente na história. Atua passivamente, mas atua."
2 - De que modo a indiferença política pode ser uma das causas de políticas autoritárias e inescrupulosas? 3 - Compare com o texto, e questione o momento político que estamos vivendo? 4 - Somos indiferentes? Qual será o nosso futuro? 5- Por que nos deixamos levar pela indiferença? 6 - E você é indiferente?

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Como sou apaixonada pela Alegoria da Caverna, mais uma versão do Mito...

domingo, 19 de abril de 2009

Triturar Mitos

Uma das funções da verdade, desde os filósofos gregos, é triturar mitos, não com o simples objectivo de os triturar, mas porque quando colocamos os miolos a pensar, duas ideias juntas nos fazem perceber a irracionalidade dos mitos. Ora o mito tem muitas expressões e uma das expressões do mito é a ideia feita ou preconceito. E, na filosofia, não cabem argumentos como “ah, ok, temos preconceitos, mas quem não os tem?” para legitimar o facto de sermos preconceituosos. Em filosofia pensamos e se é preconceito revemos as nossas posições. Como? Argumentando.
Rolando Almeida
É precisamente esse o efeito da discussão pública em filosofia. Isto vem a propósito de um comentário que tenho ouvido e lido as vezes suficientes para escrever aqui qualquer coisa para desmascarar o que me parece claramente falso. O comentário consiste no seguinte: “Não gosto do manual X porque vem com tese-argumento-tese, porque privilegia autores anglo saxões, porque é analítico e porque é complicado para os alunos. Mas gosto do manual do Y (que é, no entanto, um manual concebido com os mesmos ingredientes)”. Isto parece-me irresponsável, porque os manuais são muito próximos no tratamento que dão à filosofia e acontece que as razões invocadas para não gostar do manual X teriam de ser as mesmas para aplicar ao Y. Isto faz-me lembrar uma velha história que assisti algumas vezes na vila nortenha onde nasci e cresci: divertia-me a ver num café próximo de casa, um vendedor de cerveja a trocar o rótulo das garrafas para que o cliente pensasse que estava a beber a cerveja X quando estava era a beber a cerveja Y. E porquê? Porque os clientes tinham a mania que a cerveja Y era muito mais fraca que a X. Mas o vendedor vendia-lhes a cerveja Y com o rótulo da X (por essa razão tinha sempre as cervejas numa bacia de água para remover o rótulo com facilidade) e assim os clientes já gostavam. Este exemplo que assisti ainda pequenino revelou-me que aqueles clientes bebiam rótulos e não cerveja, porque ambas as cervejas eram muito boas, tão boas que nem se distinguiam a um bebedor comum. E este argumento de “odeio X, mas bom é Y” também me parece uma questão de rótulo e nada mais. E com isto não estou sequer a afirmar que os manuais se copiam ou são iguais, longe disso.
O que estou a afirmar é que neste argumento, existe uma boa dose de resistência mitológica e irracional.
Curiosamente pensa-se que existe muita metafísica na concepção de manuais. Os manuais não têm de ser originais, cheios de macacada pelo meio para os animar. Os manuais tem de ser isentos e rigorosos e expor as ideias centrais da filosofia de forma estimulante para o aluno e pela base. Um critério que deve presidir a escolha de manuais é a clareza de linguagem com que se expõem os problemas. Mas não se confunda clareza com fugir da filosofia para falar de historietas aos estudantes. Clareza é explicar Kant ao aluno, sem fugir dos seus argumentos centrais, e numa linguagem clara. Quem disse que isto era fácil? Estimular é usar o que Kant defendeu para pôr o estudante a pensar. Fonte: http://rolandoa.blogs.sapo.pt/90605.html#cutid1

sábado, 18 de abril de 2009

Plano de Aula para o 1º ano do ensino médio

Plano da Unidade – Filosofia

Tema: Reflexão

Série: 1ª ano do Ensino Médio

Aulas: 2 aulas de 50 minutos

Professora: Marise von Frühauf Hublard

Conteúdo e temas: Desenvolvimento de conceitos básicos de Filosofia, reflexão e reconhecimento do intelecto.

Objetivos:

Desenvolver as habilidades de reflexão e organização do pensamento.

METODOLOGIA:

Sensibilização: Um espelho de tamanho médio e seis espelhos pequenos e seis coelhito

( um ovo que vira coelho).

Dividir a classe no máximo em 6 grupos. Assim que os grupos estiverem formados, coloque as seguintes questões na lousa:

Como funciona um espelho?

O que o espelho pode mostrar?

O que o espelho não pode mostrar?

O que podemos fazer com um espelho, além de ver nossos reflexos?

Será que podemos refletir olhando no espelho?

Será que o espelho vai responder a minha pergunta: Quem sou eu?

Sobreviveremos sem o espelho?

Qual a importância do espelho na nossa vida?

O que poderemos fazer com o espelho além de ver os nossos reflexos?

Poderemos usar o espelho para ensinar a refletir?

Problematização: Cada grupo com o espelho na mão, vai discutir e responder as questões que estão na lousa. A partir das resposta cada grupo poderá formular novas questões

.

Investigação: Vamos comparar a “Reflexão do Espelho” com “Reflexão Intelectual” . Destacando as diferenças de ambos na lousa.

Qual a diferença entre o refletir do espelho e o refletir (pensar, imaginar)?

O espelho pode refletir sobre si mesmo? E nós podemos refletir sobre nós mesmo?

Onde esta reflexão nos leva?

Qual a importância do pensar, refletir?

E onde o espelho nos leva?

E se o espelho quebrar?

Num segundo momento usaremos “o Coelhito”. Ele está na forma de ovo, e vira coelho. Surpresa na classe. E coloco a seguinte questão: Se não desenvolvermos o intelecto (reflexão), seremos como o espelho, não existe nada além dele.

No momento em que refletimos desvendamos o mundo, levando ao crescimento interior do “ser”como o “coelho que sai do ovo”. A partir deste momento vemos o mundo com outros olhos.

Conceituação:

Cada grupo apresentará as suas reflexões à classe.

Para finalizar cada participante desenvolverá um texto:”Fazendo a sua reflexão sobre refletir.”

Avaliação:

Através da observação e anotações a respeito da participação oral e produção de texto escrito.

Conclusão:

No uso dos recursos “espelho, coelhito e copos descartáveis” os alunos ficam surpresos e concluíram que: A filosofia é um instrumento para se questionar, duvidar, ampliar nossos conhecimentos.Filosofar é refletir sobre nosso saber, interrogarmo-nos sobre nos mesmo, é conhecer a si mesmo. O primeiro passo para a filosofia é a inquietação que conduz ao questionamento. O objeto da filosofia é a reflexão, o movimento do pensamento que nos permite recuar, nos distanciarmos dos fatos aparentemente banais para buscarmos seus fundamentos.

“ A reflexão leva ao questionamento e ao encontro do eu.”

Observações:

Nessa mesma aula ocorreu o seguinte: Como usei o espelho do banheiro das meninas. Na hora do intervalo elas anunciaram que o "espelho do banheiro feminino tinha sido roubado".Aí surge a questão polêmica :

Como fica nossa vida sem reflexão?

E se a nossa capacidade de refletir for roubada ?

Complementando: Para fazer uso da interdisciplinaridade, esta aula pode ser trabalhada juntamente com o professor Física ( como está na proposta do 1º Bimestre).

O professor de Física poderá trabalhar na prática e a teoria como funciona o espelho , como os objetos absorvem a luz, que é composta das cores do arco-íris. O que é o reflexo? Afinal o que é um espelho?

Prof. Marise von Frühauf Hublard

quarta-feira, 15 de abril de 2009

O Mito das Cavernas - Um círculo vicioso...

Por que e para que FILOSOFAR?

Silvio Wonsovicz *

“Uma vida que não é examinada não merece ser vivida” (Sócrates)

Por que e para que filosofar? Poderíamos responder a essa pergunta de inúmeras maneiras. Respostas favoráveis ou contrárias, com sentido ou somente levando em conta a sua validade, numa sociedade que é imediatista e prática.

Porém, utilizando a afirmativa do filósofo Sócrates, estamos dando uma resposta extremamente significativa e importante para cada um de nós, seres racionais que somos. Ao não exarminarmos, questionarmos, investigarmos sobre nós, sobre os outros e o mundo, não há muito interesse em viver (no sentido pleno do que seja viver). Nossa racionalidade nos garante pensarmos nas causas e efeitos, nas vantagens e desvantagens, nos ganhos e perdas, no que posso ou no que não posso fazer, no bem e no mal, enfim, numa vida melhor, tanto para mim quanto para aqueles que vivem junto comigo.

Podemos, portanto, sendo seres racionais, capazes de filosofar, fazer inúmeras outras perguntas. Muitas com respostas, outras que nos deixam perplexos e sem uma resposta objetiva. Assim, perguntamos num ou noutro momento de nossas vidas:

. Por que preciso comer certos alimentos?

. Por que devo praticar atividades físicas?

. Tenho que respeitar as regras de convivência em sociedade ou posso fazer o que quero?

. O que me leva a ir à escola todos os dias? É um direito, uma obrigação ou um privilégio?

. Quem garante que tudo tem que ser como é e que não poderia ser de outra forma?

. O que devo fazer para ser feliz e viver bem?

. Por que devemos ser éticos? É fácil ser ético no mundo em que vivemos?

. Por que há tanta discordância em relação à ética?

. As pessoas são realmente livres ou nossas ações são determinadas pela genética e pelo meio ambiente?

Você já deve ter feito inúmeras outras perguntas. Para algumas você teve respostas, outras podem ter deixado você pensando. Como você está vendo, há vários tipos de questionamentos que somos capazes de fazer – e só nós é que fazemos tais perguntas -, portanto filosofamos.

Com certeza, as respostas às perguntas que fazemos durante nossa existência podem ser diferentes de pessoa para pessoa. Alguém poderá dizer que faz algo ou pensa de tal maneira porque todo mundo faz assim. Outros poderão dar respostas vendo que as coisas são óbvias, tem de ser assim, sempre foram e serão do mesmo jeito. Alguns buscam, desdc pequenos, pensar por si mesmos, ser autores de suas idéias e visões de mundo. Muitos podem ainda não ter se perguntado sobre essas ou outras questões e talvez nunca o farão.

Quando você, na 7a série, trabalha em sala de aula esta Educação para o Pensar pela Filosofia, as perguntas, muitas vezes, são mais importantes que as possíveis respostas. Dessa forma, quando fazemos perguntas relacionadas a uma postrua e investigação ética, devemos ter uma preocupação em estar fazendo boas perguntas. Perguntas que levem as pessoas a pensar sobre vários assuntos. Queremos poder pensar bem, ser críticos, criatios e criteriosos.

Somos convidados e desafiados a pensarmos bem. A tarefa não é fácil, ainda mais quando tudo e todos que estão à nossa volta preferem o caminho mais fácil. Querem respostas prontas, pensam pouco e não têm o hábito de investigar, de refletir, de discutir idéias.

Essa atitude de filosofar junto com as outras disciplinas é um privilégio seu. Você poderá ter isso sempre presente, principalmente quando estiver em aula ou ao usar bem sua racionalidade nos diversos momentos de sua vida. Você, com certeza, não é igual a todo mundo. Você é diferente, tem uma oportunidade de filosofar com seus colegas de classe. Sua escola abriu espaços para você exercer uma característica do ser racional – fazer perguntas, investigar, pensar bem…

Neste ano em especial, você irá debater, investigar, estudar e observar as atitudes, idéias, posturas das pessoas, e também a sua. Você estará iniciando um trabalho dentro da investigação ética. Precisamos, portanto, aprender a ser coerentes com nossas idéias e nossas ações. Somos convocados a pensar bem e melhor. Precisamos ser cada vez mais cidadãos conscientes de nossos direitos, de nossos deveres e de nossas obrigações. Ser cidadão participante é algo para se construir no dia-a-dia,

Por tudo isso é que a resposta à pergunta “Por que e para que filosofar?” está em nós mesmos. Somos racionais! Queremos investigar sobre o mundo, sobre as idéias, sobre as nossas ações e as ações daqueles que vivem conosco. Queremos poder viver bem, viver em comunindade, ser cidadãos participantes e ativos.

Este é o convite para nossas reflexões filosóficas deste ano. E para terminar essa introdução e começarmos a pensar, afirma Edgar Morin:

“Saber pensar não é algo que se obtém por técnica, receita ou método. Saber pensar não é só saber aplicar a lógica e a verificação aos dados da experiência. Precisamos, pois, compreender que regras, que princípios regem os pensamentos que nos fazem organizar o real, isto é, selecionar/privilegiar certos dados, eliminar/subalternar outros. Precisamos adivinhar a que impulsos obscuros, a que necessidades de nosso ser, a que idiossincrasia de nosso espírito obedece ou responde aquilo que consideramos como verdade. Em uma palavra, saber pensar significa, indissociavelmente, saber pensar o seu próprio pensamento. Precisamos pensar-nos ao pensar, conhecer-nos ao conhecer. É essa a existência reflexiva fundamental, que não é só do filósofo profissional e não deve estender-se apenas ao homem de ciência, mas deve ser a de cada um e de todos.” (MORIN, Edgar. Para sair do século XX, p.11)

__________________________ * Extraído do livro “Novo Espaço Filosófico Criativo: Investigação Ética” – 7a série (Introdução) - Editora Sophos - Florinópolis - SC - Fone: (48) 3222-8826.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Quatro Conceitos dos Pré-Socráticos

Por Sérgio Biagi Gregório

"Todo homem tem opiniões, mas poucos são os que pensam". (George Berkeley, o filósofo irlandês do século XVIII)

Os pré-socráticos são os filósofos que primeiramente aprenderam a olhar o mundo de uma forma científica e filosófica. Foram eles que substituíram o olhar mítico pelo olhar do logos, do racional. Os cientistas de hoje podem se orgulhar de suas vastas descobertas, mas não podem se esquecer daqueles que deram os primeiros passos na busca do conhecimento, do conhecimento pelas causas. Em se tratando dos filósofos pré-socráticos, há quatro conceitos fundamentais: kosmos, physis, arché e logos.

Kosmos. É o universo. O substantivo kosmos deriva de um verbo cujo significado é "ordenar", "arranjar", "comandar". Um "cosmo" é um arranjo ordenado. Mais que isso, é um arranjo dotado de estética, algo que embeleza, que é agradável de se contemplar. Se é ordenado, deve, em princípio, ser explicável. Desta palavra surgiram: cosmogonia (lendas e teorias sobre as origens do universo), cosmopolita (cidadão do mundo), cosmético (relativo à beleza humana).

Physis ou "natureza". O termo deriva de um verbo cujo significado é "crescer". Introduz uma clara distinção entre o mundo natural e o artificial, entre as coisas que se "desenvolvem" e aquelas que são fabricadas, entre a physis e a techne. Uma mesa provém da techne; uma árvore, da physis. Em muitos casos, physis e kosmos passam a ter o mesmo significado. Em outro sentido, o mais importante para eles, é que physis passa a denotar algo existente no próprio objeto. Por isso, diz-se que quando os pré-socráticos estavam investigando a natureza, eles estavam buscando a natureza das coisas.

Arché. É um termo de difícil tradução. Seu verbo cognato tanto pode significar "começar", "iniciar", como também "reger", "dirigir". Arché é um princípio; physis, é crescimento. Os filósofos pré-socráticos perguntavam: de onde se origina então o crescimento? Como este teve origem? Quais são seus princípios originais? Estas questões tinham por fim achar o arché das coisas. Tales de Mileto, por exemplo, achou que o primeiro princípio era a água. Mais tarde, foi provado que esta hipótese era falsa. Mas isso pouco importava, pois o que era merecedor de elogios é o modo como argumentavam, ou seja, como punham à prova as suas opiniões, eliminando por completo o dogmatismo.

Logos. É de tradução ainda mais difícil do que a de arché. É cognato do verbo legein, que normalmente significa "enunciar" ou "afirmar". Assim, logos é por vezes enunciado ou afirmação. Apresentar um logos ou um relato de algo é explicá-lo, desdobrá-lo. Quando Platão afirma que um homem inteligente é capaz de apresentar um logos das coisas, ele não queria dizer que essa pessoa era capaz de descrevê-las, mas de explicá-las, ou seja, de apresentar razões dessas coisas. Em síntese, logos é razão, racionalidade, raciocínio, argumentação e evidência.

Os pré-socráticos apresentavam argumentos. Eles não se importavam se estes eram verdadeiros ou não; estavam muito mais preocupados com o método, a maneira, a forma de buscar o conhecimento, do que o conhecimento em si mesmo.

Fonte de Consulta

BARNES, Jonathan. Filósofos Pré-Socráticos. Tradução Júlio Fischer. São Paulo: Martins Fontes, 2003 (Clássicos)

http://sbgfilosofia.blogspot.com/

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