quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Coluna Pausa para a Filosofia Introdução: Para que Filosofia? Por Marilena Chaui

Fonte: http://www.internewwws.eti.br/coluna/filosofia/

Introdução Para que Filosofia?

* AS EVIDÊNCIAS DO COTIDIANO

Em nossa vida cotidiana, afirmamos, negamos, desejamos, aceitamos ou recusamos coisas, pessoas, situações. Fazemos perguntas como "que horas são?", ou "que dia é hoje?". Dizemos frases como "ele está sonhando", ou "ela ficou maluca". Fazemos afirmações como "onde há fumaça, há fogo", ou "não saia na chuva para não se resfriar". Avaliamos coisas e pessoas, dizendo, por exemplo, "esta casa é mais bonita do que a outra" e "Maria está mais jovem do que Glorinha". Numa disputa, quando os ânimos estão exaltados, um dos contendores pode gritar ao outro: "Mentiroso! Eu estava lá e não foi isso o que aconteceu", e alguém, querendo acalmar a briga, pode dizer: "Vamos ser objetivos, cada um diga o que viu e vamos nos entender". Também é comum ouvirmos os pais e amigos dizerem que somos muito subjetivos quando o assunto é o namorado ou a namorada. Freqüentemente, quando aprovamos uma pessoa, o que ela diz, como ela age, dizemos que essa pessoa "é legal". Vejamos um pouco mais de perto o que dizemos em nosso cotidiano. Quando pergunto "que horas são?" ou "que dia é hoje?", minha expectativa é a de que alguém, tendo um relógio ou um calendário, me dê a resposta exata. Em que acredito quando faço a pergunta e aceito a resposta? Acredito que o tempo existe, que ele passa, pode ser medido em horas e dias, que o que já passou é diferente de agora e o que virá também há de ser diferente deste momento, que o passado pode ser lembrado ou esquecido, e o futuro, desejado ou temido. Assim, uma simples pergunta contém, silenciosamente, várias crenças não questionadas por nós. Quando digo "ele está sonhando", referindo-me a alguém que diz ou pensa alguma coisa que julgo impossível ou improvável, tenho igualmente muitas crenças silenciosas: acredito que sonhar é diferente de estar acordado, que, no sonho, o impossível e o improvável se apresentam como possível e provável, e também que o sonho se relaciona com o irreal, enquanto a vigília se relaciona com o que existe realmente. Acredito, portanto, que a realidade existe fora de mim, posso percebê-la e conhecê-la tal como é, sei diferenciar realidade de ilusão. A frase "ela ficou maluca" contém essas mesmas crenças e mais uma: a de que sabemos diferenciar razão de loucura e maluca é a pessoa que inventa uma realidade existente só para ela. Assim, ao acreditar que sei distinguir razão de loucura, acredito também que a razão se refere a uma realidade que é a mesma para todos, ainda que não gostemos das mesmas coisas. Quando alguém diz "onde há fumaça, há fogo" ou "não saia na chuva para não se resfriar", afirma silenciosamente muitas crenças: acredita que existem relações de causa e efeito entre as coisas, que onde houver uma coisa certamente houve uma causa para ela, ou que essa coisa é causa de alguma outra (o fogo causa a fumaça como efeito, a chuva causa o resfriado como efeito). Acreditamos, assim, que a realidade é feita de causalidades, que as coisas, os fatos, as situações se encadeiam em relações causais que podemos conhecer e, até mesmo, controlar para o uso de nossa vida. Quando avaliamos que uma casa é mais bonita do que a outra, ou que Maria está mais jovem do que Glorinha, acreditamos que as coisas, as pessoas, as situações, os fatos podem ser comparados e avaliados, julgados pela qualidade (bonito, feio, bom, ruim) ou pela quantidade (mais, menos, maior, menor). Julgamos, assim, que a qualidade e a quantidade existem, que podemos conhecê-las e usá-las em nossa vida. Se, por exemplo, dissermos que "o sol é maior do que o vemos", também estamos acreditando que nossa percepção alcança as coisas de modos diferentes, ora tais como são em si mesmas, ora tais como nos aparecem, dependendo da distância, de nossas condições de visibilidade ou da localização e do movimento dos objetos. Acreditamos, portanto, que o espaço existe, possui qualidades (perto, longe, alto, baixo) e quantidades, podendo ser medido (comprimento, largura, altura). No exemplo do sol, também se nota que acreditamos que nossa visão pode ver as coisas diferentemente do que elas são, mas nem por isso diremos que estamos sonhando ou que ficamos malucos. Na briga, quando alguém chama o outro de mentiroso porque não estaria dizendo os fatos exatamente como aconteceram, está presente a nossa crença de que há diferença entre verdade e mentira. A primeira diz as coisas tais como são, enquanto a segunda faz exatamente o contrário, distorcendo a realidade. No entanto, consideramos a mentira diferente do sonho, da loucura e do erro porque o sonhador, o louco e o que erra se iludem involuntariamente, enquanto o mentiroso decide voluntariamente deformar a realidade e os fatos. Com isso, acreditamos que o erro e a mentira são falsidades, mas diferentes porque somente na mentira há a decisão de falsear. Ao diferenciarmos erro de mentira, considerando o primeiro uma ilusão ou um engano involuntários e a segunda uma decisão voluntária, manifestamos silenciosamente a crença de que somos seres dotados de vontade e que dela depende dizer a verdade ou a mentira. Ao mesmo tempo, porém, nem sempre avaliamos a mentira como alguma coisa ruim: não gostamos tanto de ler romances, ver novelas, assistir a filmes? E não são mentira? É que também acreditamos que quando alguém nos avisa que está mentindo, a mentira é aceitável, não seria uma mentira "no duro", "pra valer". Quando distinguimos entre verdade e mentira e distinguimos mentiras inaceitáveis de mentiras aceitáveis, não estamos apenas nos referindo ao conhecimento ou desconhecimento da realidade, mas também ao caráter da pessoa, à sua moral. Acreditamos, portanto, que as pessoas, porque possuem vontade, podem ser morais ou imorais, pois cremos que a vontade é livre para o bem ou para o mal. Na briga, quando uma terceira pessoa pede às outras duas para que sejam "objetivas" ou quando falamos dos namorados como sendo "muito subjetivos", também estamos cheios de crenças silenciosas. Acreditamos que quando alguém quer defender muito intensamente um ponto de vista, uma preferência, uma opinião, até brigando por isso, ou quando sente um grande afeto por outra pessoa, esse alguém "perde" a objetividade, ficando "muito subjetivo". Com isso, acreditamos que a objetividade é uma atitude imparcial que alcança as coisas tais como são verdadeiramente, enquanto a subjetividade é uma atitude parcial, pessoal, ditada por sentimentos variados (amor, ódio, medo, desejo). Assim, não só acreditamos que a objetividade e a subjetividade existem, como ainda acreditamos que são diferentes e que a primeira não deforma a realidade, enquanto a segunda, voluntária ou involuntariamente, a deforma. Ao dizermos que alguém "é legal" porque tem os mesmos gostos, as mesmas idéias, respeita ou despreza as mesmas coisas que nós e tem atitudes, hábitos e costumes muito parecidos com os nossos, estamos, silenciosamente, acreditando que a vida com as outras pessoas - família, amigos, escola, trabalho, sociedade, política - nos faz semelhantes ou diferentes em decorrência de normas e valores morais, políticos, religiosos e artísticos, regras de conduta, finalidades de vida. Achando óbvio que todos os seres humanos seguem regras e normas de conduta, possuem valores morais, religiosos, políticos, artísticos, vivem na companhia de seus semelhantes e procuram distanciar-se dos diferentes dos quais discordam e com os quais entram em conflito, acreditamos que somos seres sociais, morais e racionais, pois regras, normas, valores, finalidades só podem ser estabelecidos por seres conscientes e dotados de raciocínio. Como se pode notar, nossa vida cotidiana é toda feita de crenças silenciosas, da aceitação tácita de evidências que nunca questionamos porque nos parecem naturais, óbvias. Cremos no espaço, no tempo, na realidade, na qualidade, na quantidade, na verdade, na diferença entre realidade e sonho ou loucura, entre verdade e mentira; cremos também na objetividade e na diferença entre ela e a subjetividade, na existência da vontade, da liberdade, do bem e do mal, da moral, da sociedade.

* A ATITUDE FILOSÓFICA

Imaginemos, agora, alguém que tomasse uma decisão muito estranha e começasse a fazer perguntas inesperadas. Em vez de "que horas são?" ou "que dia é hoje?", perguntasse: O que é o tempo? Em vez de dizer "está sonhando" ou "ficou maluca", quisesse saber: O que é o sonho? A loucura? A razão? Se essa pessoa fosse substituindo sucessivamente suas perguntas, suas afirmações por outras: "Onde há fumaça, há fogo", ou "não saia na chuva para não ficar resfriado", por: O que é causa? O que é efeito?; "seja objetivo", ou "eles são muito subjetivos", por: O que é a objetividade? O que é a subjetividade?; "Esta casa é mais bonita do que a outra", por: O que é "mais"? O que é "menos"? O que é o belo? Em vez de gritar "mentiroso!", questionasse: O que é a verdade? O que é o falso? O que é o erro? O que é a mentira? Quando existe verdade e por quê? Quando existe ilusão e por quê? Se, em vez de falar na subjetividade dos namorados, inquirisse: O que é o amor? O que é o desejo? O que são os sentimentos? Se, em lugar de discorrer tranqüilamente sobre "maior" e "menor" ou "claro" e "escuro", resolvesse investigar: O que é a quantidade? O que é a qualidade? E se, em vez de afirmar que gosta de alguém porque possui as mesmas idéias, os mesmos gostos, as mesmas preferências e os mesmos valores, preferisse analisar: O que é um valor? O que é um valor moral? O que é um valor artístico? O que é a moral? O que é a vontade? O que é a liberdade? Alguém que tomasse essa decisão, estaria tomando distância da vida cotidiana e de si mesmo, teria passado a indagar o que são as crenças e os sentimentos que alimentam, silenciosamente, nossa existência. Ao tomar essa distância, estaria interrogando a si mesmo, desejando conhecer por que cremos no que cremos, por que sentimos o que sentimos e o que são nossas crenças e nossos sentimentos. Esse alguém estaria começando a adotar o que chamamos de atitude filosófica. Assim, uma primeira resposta à pergunta "O que é Filosofia?" poderia ser: A decisão de não aceitar como óbvias e evidentes as coisas, as idéias, os fatos, as situações, os valores, os comportamentos de nossa existência cotidiana; jamais aceita-los sem antes havê-los investigado e compreendido. Perguntaram, certa vez, a um filósofo: "Para que Filosofia?". E ele respondeu: "Para não darmos nossa aceitação imediata às coisas, sem maiores considerações".

* A ATITUDE CRÍTICA

A primeira característica da atitude filosófica é negativa, isto é, um dizer não ao senso comum, aos pré-conceitos, aos pré-juízos, aos fatos e às idéias da experiência cotidiana, ao que "todo mundo diz e pensa", ao estabelecido. A segunda característica da atitude filosófica é positiva, isto é, uma interrogação sobre o que são as coisas, as idéias, os fatos, as situações, os comportamentos, os valores, nós mesmos. É também uma interrogação sobre o porquê disso tudo e de nós, e uma interrogação sobre como tudo isso é assim e não de outra maneira. O que é? Por que é? Como é? Essas são as indagações fundamentais da atitude filosófica. A face negativa e a face positiva da atitude filosófica constituem o que chamamos de atitude crítica e pensamento crítico. A Filosofia começa dizendo não às crenças e aos preconceitos do senso comum e, portanto, começa dizendo que não sabemos o que imaginávamos saber; por isso, o patrono da Filosofia, o grego Sócrates, afirmava que a primeira e fundamental verdade filosófica é dizer: "Sei que nada sei". Para o discípulo de Sócrates, o filósofo grego Platão, a Filosofia começa com a admiração; já o discípulo de Platão, o filósofo Aristóteles, acreditava que a Filosofia começa com o espanto. Admiração e espanto significam: tomamos distância do nosso mundo costumeiro, através de nosso pensamento, olhando-o como se nunca o tivéssemos visto antes, como se não tivéssemos tido família, amigos, professores, livros e outros meios de comunicação que nos tivessem dito o que o mundo é; como se estivéssemos acabando de nascer para o mundo e para nós mesmos e precisássemos perguntar o que é, por que é e como é o mundo, e precisássemos perguntar também o que somos, por que somos e como somos.

* PARA QUE FILOSOFIA?

Ora, muitos fazem uma outra pergunta: afinal, para que Filosofia? É uma pergunta interessante. Não vemos nem ouvimos ninguém perguntar, por exemplo, para que matemática ou física? Para que geografia ou geologia? Para que história ou sociologia? Para que biologia ou psicologia? Para que astronomia ou química? Para que pintura, literatura, música ou dança? Mas todo mundo acha muito natural perguntar: Para que Filosofia? Em geral, essa pergunta costuma receber uma resposta irônica, conhecida dos estudantes de Filosofia: "A Filosofia é uma ciência com a qual e sem a qual o mundo permanece tal e qual". Ou seja, a Filosofia não serve para nada. Por isso, se costuma chamar de "filósofo" alguém sempre distraído, com a cabeça no mundo da lua, pensando e dizendo coisas que ninguém entende e que são perfeitamente inúteis. Essa pergunta, "Para que Filosofia?", tem a sua razão de ser. Em nossa cultura e em nossa sociedade, costumamos considerar que alguma coisa só tem o direito de existir se tiver alguma finalidade prática, muito visível e de utilidade imediata. Por isso, ninguém pergunta para que as ciências, pois todo mundo imagina ver a utilidade das ciências nos produtos da técnica, isto é, na aplicação científica à realidade. Todo mundo também imagina ver a utilidade das artes, tanto por causa da compra e venda das obras de arte, quanto porque nossa cultura vê os artistas como gênios que merecem ser valorizados para o elogio da humanidade. Ninguém, todavia, consegue ver para que serviria a Filosofia, donde dizer-se: não serve para coisa alguma. Parece, porém, que o senso comum não enxerga algo que os cientistas sabem muito bem. As ciências pretendem ser conhecimentos verdadeiros, obtidos graças a procedimentos rigorosos de pensamento; pretendem agir sobre a realidade, através de instrumentos e objetos técnicos; pretendem fazer progressos nos conhecimentos, corrigindo-os e aumentando-os. Ora, todas essas pretensões das ciências pressupõem que elas acreditam na existência da verdade, de procedimentos corretos para bem usar o pensamento, na tecnologia como aplicação prática de teorias, na racionalidade dos conhecimentos, porque podem ser corrigidos e aperfeiçoados. Verdade, pensamento, procedimentos especiais para conhecer fatos, relação entre teoria e prática, correção e acúmulo de saberes: tudo isso não é ciência, são questões filosóficas. O cientista parte delas como questões já respondidas, mas é a Filosofia quem as formula e busca respostas para elas. Assim, o trabalho das ciências pressupõe, como condição, o trabalho da Filosofia, mesmo que o cientista não seja filósofo. No entanto, como apenas os cientistas e filósofos sabem disso, o senso comum continua afirmando que a Filosofia não serve para nada. Para dar alguma utilidade à Filosofia, muitos consideram que, de fato, a Filosofia não serviria para nada, se "servir" fosse entendido como a possibilidade de fazer usos técnicos dos produtos filosóficos ou dar-lhes utilidade econômica, obtendo lucros com eles; consideram também que a Filosofia nada teria a ver com a ciência e a técnica. Para quem pensa dessa forma, o principal para a Filosofia não seriam os conhecimentos (que ficam por conta da ciência), nem as aplicações de teorias (que ficam por conta da tecnologia), mas o ensinamento moral ou ético. A Filosofia seria a arte do bem viver. Estudando as paixões e os vícios humanos, a liberdade e a vontade, analisando a capacidade de nossa razão para impor limites aos nossos desejos e paixões, ensinando-nos a viver de modo honesto e justo na companhia dos outros seres humanos, a Filosofia teria como finalidade ensinar-nos a virtude, que é o princípio do bem-viver. Essa definição da Filosofia, porém, não nos ajuda muito. De fato, mesmo para ser uma arte moral ou ética, ou uma arte do bem-viver, a Filosofia continua fazendo suas perguntas desconcertantes e embaraçosas: O que é o homem? O que é a vontade? O que é a paixão? O que é a razão? O que é o vício? O que é a virtude? O que é a liberdade? Como nos tornamos livres, racionais e virtuosos? Por que a liberdade e a virtude são valores para os seres humanos? O que é um valor? Por que avaliamos os sentimentos e as ações humanas? Assim, mesmo se disséssemos que o objeto da Filosofia não é o conhecimento da realidade, nem o conhecimento da nossa capacidade para conhecer, mesmo se disséssemos que o objeto da Filosofia é apenas a vida moral ou ética, ainda assim, o estilo filosófico e a atitude filosófica permaneceriam os mesmos, pois as perguntas filosóficas - o que, por que e como - permanecem.

* ATITUDE FILOSÓFICA: INDAGAR

Se, portanto, deixarmos de lado, por enquanto, os objetos com os quais a Filosofia se ocupa, veremos que a atitude filosófica possui algumas características que são as mesmas, independentemente do conteúdo investigado. Essas características são:

  • perguntar o que a coisa, ou o valor, ou a idéia, é. A Filosofia pergunta qual é a realidade ou natureza e qual é a significação de alguma coisa, não importa qual;
  • perguntar como a coisa, a idéia ou o valor, é. A Filosofia indaga qual é a estrutura e quais são as relações que constituem uma coisa, uma idéia ou um valor;
  • perguntar por que a coisa, a idéia ou o valor, existe e é como é. A Filosofia pergunta pela origem ou pela causa de uma coisa, de uma idéia, de um valor.

A atitude filosófica inicia-se dirigindo essas indagações ao mundo que nos rodeia e às relações que mantemos com ele. Pouco a pouco, porém, descobre que essas questões se referem, afinal, à nossa capacidade de conhecer, à nossa capacidade de pensar. Por isso, pouco a pouco, as perguntas da Filosofia se dirigem ao próprio pensamento: o que é pensar, como é pensar, por que há o pensar? A Filosofia torna-se, então, o pensamento interrogando-se a si mesmo. Por ser uma volta que o pensamento realiza sobre si mesmo, a Filosofia se realiza como reflexão.

* A REFLEXÃO FILOSÓFICA

Reflexão significa movimento de volta sobre si mesmo ou movimento de retorno a si mesmo. A reflexão é o movimento pelo qual o pensamento volta-se para si mesmo, interrogando a si mesmo. A reflexão filosófica é radical porque é um movimento de volta do pensamento sobre si mesmo para conhecer-se a si mesmo, para indagar como é possível o próprio pensamento. Não somos, porém, somente seres pensantes. Somos também seres que agem no mundo, que se relacionam com os outros seres humanos, com os animais, as plantas, as coisas, os fatos e acontecimentos, e exprimimos essas relações tanto por meio da linguagem quanto por meio de gestos e ações. A reflexão filosófica também se volta para essas relações que mantemos com a realidade circundante, para o que dizemos e para as ações que realizamos nessas relações. A reflexão filosófica organiza-se em torno de três grandes conjuntos de perguntas ou questões:

  1. Por que pensamos o que pensamos, dizemos o que dizemos e fazemos o que fazemos? Isto é, quais os motivos, as razões e as causas para pensarmos o que pensamos, dizermos o que dizemos, fazermos o que fazemos?
  2. O que queremos pensar quando pensamos, o que queremos dizer quando falamos, o que queremos fazer quando agimos? Isto é, qual é o conteúdo ou o sentido do que pensamos, dizemos ou fazemos?
  3. Para que pensamos o que pensamos, dizemos o que dizemos, fazemos o que fazemos? Isto é, qual é a intenção ou a finalidade do que pensamos, dizemos e fazemos?

Essas três questões podem ser resumidas em: O que é pensar, falar e agir? E elas pressupõem a seguinte pergunta: Nossas crenças cotidianas são ou não um saber verdadeiro, um conhecimento? Como vimos, a atitude filosófica inicia-se indagando: O que é? Como é? Por que é?, dirigindo-se ao mundo que nos rodeia e aos seres humanos que nele vivem e com ele se relacionam. São perguntas sobre a essência, a significação ou a estrutura e a origem de todas as coisas. Já a reflexão filosófica indaga: Por quê?, O quê?, Para quê?, dirigindo-se ao pensamento, aos seres humanos no ato da reflexão. São perguntas sobre a capacidade e a finalidade humanas para conhecer e agir.

* FILOSOFIA: UM PENSAMENTO SISTEMÁTICO

Essas indagações fundamentais não se realizam ao acaso, segundo preferências e opiniões de cada um de nós. A Filosofia não é um "eu acho que" ou um "eu gosto de". Não é pesquisa de opinião à maneira dos meios de comunicação de massa. Não é pesquisa de mercado para conhecer preferências dos consumidores e montar uma propaganda. As indagações filosóficas se realizam de modo sistemático. Que significa isso? Significa que a Filosofia trabalha com enunciados precisos e rigorosos, busca encadeamentos lógicos entre os enunciados, opera com conceitos ou idéias obtidos por procedimentos de demonstração e prova, exige a fundamentação racional do que é enunciado e pensado. Somente assim a reflexão filosófica pode fazer com que nossa experiência cotidiana, nossas crenças e opiniões alcancem uma visão crítica de si mesmas. Não se trata de dizer "eu acho que", mas de poder afirmar "eu penso que". O conhecimento filosófico é um trabalho intelectual. É sistemático porque não se contenta em obter respostas para as questões colocadas, mas exige que as próprias questões sejam válidas e, em segundo lugar, que as respostas sejam verdadeiras, estejam relacionadas entre si, esclareçam umas às outras, formem conjuntos coerentes de idéias e significações, sejam provadas e demonstradas racionalmente. Quando o senso comum diz "esta é minha filosofia" ou "isso é a filosofia de fulana ou de fulano", engana-se e não se engana. Engana-se porque imagina que para "ter uma filosofia" basta alguém possuir um conjunto de idéias mais ou menos coerentes sobre todas as coisas e pessoas, bem como ter um conjunto de princípios mais ou menos coerentes para julgar as coisas e as pessoas. "Minha filosofia" ou a "filosofia de fulano" ficam no plano de um "eu acho" coerente. Mas o senso comum não se engana ao usar essas expressões porque percebe, ainda que muito confusamente, que há uma característica nas idéias e nos princípios que nos leva a dizer que são uma filosofia: a coerência, as relações entre as idéias e entre os princípios. Ou seja, o senso comum pressente que a Filosofia opera sistematicamente, com coerência e lógica, que a Filosofia tem uma vocação para formar um todo daquilo que aparece de modo fragmentado em nossa experiência cotidiana.

* EM BUSCA DE UMA DEFINIÇÃO DA FILOSOFIA

Quando começamos a estudar Filosofia, somos logo levados a buscar o que ela é. Nossa primeira surpresa surge ao descobrirmos que não há apenas uma definição da Filosofia, mas várias. A segunda surpresa vem ao percebermos que, além de várias, as definições parecem contradizer-se. Eis porque muitos, cheios de perplexidade, indagam: afinal, o que é a Filosofia que sequer consegue dizer o que ela é?

Uma primeira aproximação nos mostra pelo menos quatro definições gerais do que seria a Filosofia:

  1. Visão de mundo de um povo, de uma civilização ou de uma cultura. Filosofia corresponde, de modo vago e geral, ao conjunto de idéias, valores e práticas pelos quais uma sociedade apreende e compreende o mundo e a si mesma, definindo para si o tempo e o espaço, o sagrado e o profano, o bom e o mau, o justo e o injusto, o belo e o feio, o verdadeiro e o falso, o possível e o impossível, o contingente e o necessário. Qual o problema dessa definição? Ela é tão genérica e tão ampla que não permite, por exemplo, distinguir a Filosofia e religião, Filosofia e arte, Filosofia e ciência. Na verdade, essa definição identifica Filosofia e Cultura, pois esta é uma visão de mundo coletiva que se exprime em idéias, valores e práticas de uma sociedade. A definição, portanto, não consegue acercar-se da especificidade do trabalho filosófico e por isso não podemos aceita-la.
  2. Sabedoria de vida. Aqui, a Filosofia é identificada com a definição e a ação de algumas pessoas que pensam sobre a vida moral, dedicando-se à contemplação do mundo para aprender com ele a controlar e dirigir suas vidas de modo ético e sábio. A Filosofia seria uma contemplação do mundo e dos homens para nos conduzir a uma vida justa, sábia e feliz, ensinando-nos o domínio sobre nós mesmos, sobre nossos impulsos, desejos e paixões. É nesse sentido que se fala, por exemplo, numa filosofia do budismo. Esta definição, porém, nos diz, de modo vago, o que se espera da Filosofia (a sabedoria interior), mas não o que é e o que faz a Filosofia e, por isso, também não podemos aceita-la.
  3. Esforço racional para conceber o Universo como uma totalidade ordenada e dotada de sentido. Nesse caso, começa-se distinguindo entre Filosofia e religião e até mesmo opondo uma à outra, pois ambas possuem o mesmo objeto (compreender o Universo), mas a primeira o faz através do esforço racional, enquanto a segunda, por confiança (fé) numa revelação divina. Ou seja, a Filosofia procura discutir até o fim o sentido e o fundamento da realidade, enquanto a consciência religiosa se baseia num dado primeiro e inquestionável, que é a revelação divina indemonstrável. Pela fé, a religião aceita princípios indemonstráveis e até mesmo aqueles que podem ser considerados irracionais pelo pensamento, enquanto a Filosofia não admite indemonstrabilidade e irracionalidade. Pelo contrário, a consciência filosófica procura explicar e compreender o que parece ser irracional e inquestionável. No entanto, esta definição também é problemática, porque dá à Filosofia a tarefa de oferecer uma explicação e uma compreensão totais sobre o Universo, elaborando um sistema universal ou um sistema do mundo, mas sabemos, hoje, que essa tarefa é impossível. Há pelo menos duas limitações principais a esta pretensão totalizadora: em primeiro lugar, porque a explicação sobre a realidade também é oferecida pelas ciências e pelas artes, cada uma das quais definindo um aspecto e um campo da realidade para estudo (no caso das ciências) e para a expressão (no caso das artes), já não sendo pensável uma única disciplina que pudesse abranger sozinha a totalidade dos conhecimentos; em segundo lugar, porque a própria Filosofia já não admite que seja possível um sistema de pensamento único que ofereça uma única explicação para o todo da realidade. Por isso, esta definição também não pode ser aceita.
  4. Fundamentação teórica e crítica dos conhecimentos e das práticas. A Filosofia, cada vez mais, ocupa-se com as condições e os princípios do conhecimento que pretenda ser racional e verdadeiro; com a origem, a forma e o conteúdo dos valores éticos, políticos, artísticos e culturais; com a compreensão das causas e das formas da ilusão e do preconceito no plano individual e coletivo; com as transformações históricas dos conceitos, das idéias e dos valores. A Filosofia volta-se, também, para o estudo da consciência em suas várias modalidades: percepção, imaginação, memória, linguagem, inteligência, experiência, reflexão, comportamento, vontade, desejo e paixões, procurando descrever as formas e os conteúdos dessas modalidades de relação entre o ser humano e o mundo, do ser humano consigo mesmo e com os outros. Finalmente, a Filosofia visa ao estudo e à interpretação de idéias ou significações gerais como: realidade, mundo, natureza, cultura, história, subjetividade, objetividade, diferença, repetição, semelhança, conflito, contradição, mudança, etc. Sem abandonar as questões sobre a essência da realidade, a Filosofia procura diferenciar-se das ciências e das artes, dirigindo a investigação sobre o mundo natural e o mundo histórico (ou humano) num momento muito preciso: quando perdemos nossas certezas cotidianas e quando as ciências e as artes ainda não ofereceram outras certezas para substituir as que perdemos. Em outras palavras, a Filosofia se interessa por aquele instante em que a realidade natural (o mundo das coisas) e a histórica (o mundo dos homens) tornam-se estranhas, espantosas, incompreensíveis e enigmáticas, quando o senso comum já não sabe o que pensar e dizer e as ciências e as artes ainda não sabem o que pensar e dizer.
Esta última descrição da atividade filosófica capta a Filosofia como análise (das condições da ciência, da religião, da arte, da moral), como reflexão (isto é, volta da consciência para si mesma para conhecer-se enquanto capacidade para o conhecimento, o sentimento e a ação) e como crítica (das ilusões e dos preconceitos individuais e coletivos, das teorias e práticas científicas, políticas e artísticas), essas três atividades (análise, reflexão e crítica) estando orientadas pela elaboração filosófica de significações gerais sobre a realidade e os seres humanos. Além de análise, reflexão e crítica, a Filosofia é a busca do fundamento e do sentido da realidade em suas múltiplas formas indagando o que são, qual sua permanência e qual a necessidade interna que as transforma em outras. O que é o ser e o aparecer-desaparecer dos seres? A Filosofia não é ciência: é uma reflexão crítica sobre os procedimentos e conceitos científicos. Não é religião: é uma reflexão crítica sobre as origens e formas das crenças religiosas. Não é arte: é uma interpretação crítica dos conteúdos, das formas, das significações das obras de arte e do trabalho artístico. Não é sociologia nem psicologia, mas a interpretação e avaliação crítica dos conceitos e métodos da sociologia e da psicologia. Não é política, mas interpretação, compreensão e reflexão sobre a origem, a natureza e as formas do poder. Não é história, mas interpretação do sentido dos acontecimentos enquanto inseridos no tempo e compreensão do que seja o próprio tempo. Conhecimento do conhecimento e da ação humanos, conhecimento da transformação temporal dos princípios do saber e do agir, conhecimento da mudança das formas do real ou dos seres, a Filosofia sabe que está na História e que possui uma história. * INÚTIL? ÚTIL? O primeiro ensinamento filosófico é perguntar: O que é o útil? Para que e para quem algo é útil? O que é o inútil? Por que e para quem algo é inútil? O senso comum de nossa sociedade considera útil o que dá prestígio, poder, fama e riqueza. Julga o útil pelos resultados visíveis das coisas e das ações, identificando utilidade e a famosa expressão "levar vantagem em tudo". Desse ponto de vista, a Filosofia é inteiramente inútil e defende o direito de ser inútil. Não poderíamos, porém, definir o útil de outra maneira? Platão definia a Filosofia como um saber verdadeiro que deve ser usado em benefício dos seres humanos. Descartes dizia que a Filosofia é o estudo da sabedoria, conhecimento perfeito de todas as coisas que os humanos podem alcançar para o uso da vida, a conservação da saúde e a invenção das técnicas e das artes. Kant afirmou que a Filosofia é o conhecimento que a razão adquire de si mesma para saber o que pode conhecer e o que pode fazer, tendo como finalidade a felicidade humana. Marx declarou que a Filosofia havia passado muito tempo apenas contemplando o mundo e que se tratava, agora, de conhece-lo para transforma-lo, transformação que traria justiça, abundância e felicidade para todos. Merleau-Ponty escreveu que a Filosofia é um despertar para ver e mudar nosso mundo. Espinosa afirmou que a Filosofia é um caminho árduo e difícil, mas que pode ser percorrido por todos, se desejarem a liberdade e a felicidade. Qual seria, então, a utilidade da Filosofia? Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se deixar guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história for útil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes. Pausa para a Filosofia (Iniciativa de Martinho Carlos Rost) divulga, entre outras, a obra "Convite à Filosofia", de Marilena Chaui. Contatos com Pausa para a Filosofia: philosophia@ops!conex.com.br.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

A Filosofia no Ensino Médio: de mãos dadas com a maiêutica

Ronaldo Ronil

Fonte: http://users.hotlink.com.br/fico/refl0068.htm

Como filósofos e educadores devemos estar atentos aos mais diversos desafios, com os quais cotidianamente nos deparamos em sala de aula no contato direto e enriquecedor com a juventude. Cabe, portanto, estar bem conscientes das exigências do tempo presente e inquirir com força e sinceridade: quais atribuições da Filosofia, ou seja: para que serve a filosofia? Estamos, porventura, contribuindo e inspirando a juventude no desenvolvimento da capacidade crítica, na ampliação questionadora de sua visão de mundo, bem como, tornar um momento de prazer a aula de Filosofia viabilizando o raciocínio filosófico sem barreiras ao exercício sadio do conhecer em sintonia com o realizar.

A Lei no 9394/96 que estabeleceu as diretrizes e bases da educação nacional até os Parâmetros Curriculares Nacionais, definiu as atribuições do Ensino Médio, de forma que o educando após o término da referida fase do processo educacional seja capaz de demonstrar: " I - domínio dos princípios científicos e tecnológicos que presidem a produção moderna; II - conhecimento das formas contemporâneas de linguagem; III - domínio dos conhecimentos de Filosofia e Sociologia necessárias ao exercício da cidadania."

A Filosofia no Ensino Médio é uma área de saber que, indiscutivelmente, colabora com o despertar das noções de Ética nas Relações Humanas, da consciência do ser cidadão na efetivação da prática consciente de sua cidadania. Entre as diversas possibilidades para a prática docente da Filosofia no Ensino Médio, é importante observar a necessidade de uma linguagem que instaure o modo de filosofar compatível com a problemática da juventude contemporânea. É urgente preocupar-se com o desenvolvimento das habilidades e talentos do alunado, os quais apresentam dificuldades e resistência ao conteúdo filosófico justamente pelas expressões distantes e aparentemente incompreensíveis e, até mesmo, beirando a inutilidade para o seu cotidiano dinâmico e inquieto. O modo de refletir a partir da crítica é próprio do jovem; daí a oportunidade chave para lançar-se as colunatas basilares do saber filosófico: fazendo notar as possibilidades, limites e riscos do saber humano; abordar e avaliar as conseqüências do conhecer e agir com relação a si mesmo, aos outros e a sociedade em geral; refletir sobre o papel pessoal e intransferível de cada ser no mundo. Os filósofos devem dar testemunho de suas próprias experiências perante o mundo filosófico: o êxtase da admiração, a questão que se nos apresenta incentivando a busca do saber e encontrando posteriormente o júbilo da resposta; a estética apaixonante da fundamentação e do rigor na elaboração de idéias e raciocínios. O aluno deve notar, caminhando com o exemplo e empenho apaixonado de seu professo, que nenhum conhecimento ou método filosófico está definitivamente terminado, ou seja, tudo supõe uma nova abordagem; daí que o percurso dialético e crítico é o grande sedutor ao ofertar trilhas oportunas ao aluno possibilitando-lhe descobrir o seu próprio valor, a riqueza do seu raciocínio e o poder construtivo da elaboração de idéias; a consciência de não aderir a modas sem o crivo do juízo crítico; desenvolvendo a capacidade de argumentação e contra-argumentação. A dialética socrática e o percurso maiêutico contido nos diálogos de Platão são, certamente, uma forma de método educacional-filosófico atraentes tanto ao docente quanto aos jovens, pois, potencializam o diálogo franco e aberto rejeitando o simples acúmulo de fatos, dados e históricos da filosofia. Basta empenho e sinceridade para que a maiêutica contemporânea torne-se realidade, precisamos perder o medo de convidar a juventude para Pensar, compreendendo para melhor conhecer. Faz-se inteligente aquele docente que, aberto criativamente ao universo do conhecimento, trabalha em uníssono com seus colegas na estruturação de um projeto profícuo de interdisciplinaridade. É preciso deixar claro que, se o conhecimento não estiver aliado e direcionado à vida de nada vale conhecer, aliás deve mesmo partir dela e do seu cotidiano e desafios.

É claro que, o fato de atravessarmos a ponte de nossa segurança e adentrarmos ao mundo jovem e desafiante, não exclui um compromisso com a transmissão da historia da filosofia propriamente dita; mas assumir novos procedimento trazendo à realidade da sala de aula os filósofos e seus conhecimentos para nos ajudar a resolver problemas, para sorvermos do viver e pensar de outrora pistas para o nosso próprio rumo. Eis o nosso desafio educacional: no alvoroço desnorteado da humanidade, caminhando sequiosa diante de um novo milênio visto como fonte de salvação e alvo de todas as esperanças, parece-me que o alerta de Lipmam precisa ser atentamente valorizado em sala de aula: "As crianças necessitam de narrativas repletas de idéias filosóficas (que os filósofos podem providenciar) em vez dos textos secundários, áridos ou superficiais (eu pareço me lembrar de alguém chamado Platão). Necessitam discussões amplas em sala de aula em vez de professores que falam sem parar. Necessitam da lógica formal e informal, da epistemologia, do pensar crítico, da ética, da estética e da metafísica, com a linguagem simplificada sem simplificar os problemas filosóficos"

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Filosofia no Ensino Médio - O Ensino da Filosofia como Processo ou como Produto?

Por : Marcos Antônio Macêdo Muniz

Ensinar filosofia ou ensinar a filosofar correspondem a duas posturas pedagógicas diferentes: o ensino da filosofia como produto e o ensino da filosofia como processo. A primeira segue a linha da mera aprendizagem, através dos conteúdos já dados ou elaborados historicamente. A segunda se configura como aprender a pensar, equivalente a pensar criativamente, saber elaborar pensamento próprio.

O ensino da filosofia como produto se perfaz, classicamente, como o fazer pedagógico que orienta a aprendizagem para a apropriação dos conhecimentos já produzidos pelos filósofos no processo histórico-social. Portanto, conhecer, aprender significa denominar reprodutivamente, por parte dos alunos, a cultura filosófica acumulada nos livros; significa dizer de novo e na íntegra o que outros pensadores já disseram.

"A filosofia como resposta ou produto é identificada com a aquisição de um saber pronto, assimilado de maneira memorística e retórica: os alunos são induzidos à memorização de conceitos e doutrinas escritas pelos pensadores ao longo do tempo. A erudição filosófica é assumida como um fim em si mesmo. Encarado dessa forma, o ensino da filosofia se reduz à mera aquisição de um produto pronto e inquestionável." (Sousa 1995: p.8)

O ensino da filosofia como processo, tomado em separado da filosofia como produto, orienta-se para a aquisição de uma aprendizagem habilidosa da arte do saber pensar. A atitude filosofante, ao contrário da aquisição de conhecimentos prontos e acabados, orienta-se pela construtividade, pela indagação problematizadora diante da realidade que se apresenta. Nessa vertente, o que se pretende em relação ao aluno é que sua formação se faça através do desenvolvimento de sua capacidade reflexiva e criadora, ou seja, a capacidade de construir processualmente o novo a partir de si mesmo.

"Tal abordagem da filosofia apresenta-a como uma disciplina que coloca o ato do filosofar, de questionar e de retomar questões abandonadas ou dadas como resolvidas acima da própria filosofia como teoria. O importante não é conhecer as respostas que outros deram, mas tentar alcançar, através da questão posta por eles, uma nova resposta. Esta, por sua vez, abrirá o caminho a novas questões." (Sousa 1995: p.8)

Dessa forma, o ensino da filosofia como produto apresenta sua característica fundamental: a de assimilação e reprodução das idéias já consolidadas; equivale e circunscreve-se no seio da Pedagogia Tradicional. Já o ensino como processo, cuja característica central é a do espírito criativo, equivale e identifica-se com a pedagogia da Escola Nova.

Dermeval Saviani, em sua obra Escola e Democracia (1999: p. 17) classifica as pedagogias em "teorias não-críticas" e "teorias crítico-reprodutivistas". A Pedagogia Tradicional, a Pedagogia Escola Nova e a Pedagogia Tecnicista perfazem o grupo denominado de "teorias não-críticas"; a teoria do sistema de ensino enquanto violência simbólica, a teoria da escola como aparelho Ideológico de Estado e a teoria da escola dualista compõem o grupo das "teorias crítico-reprodutivistas".

O ensino da filosofia como produto por um lado e como processo de outro enquadram-se categoricamente no grupo das teorias não-críticas, mais especificamente como Pedagogia Tradicional (ensino como produto) e Pedagogia Nova (ensino como processo).

Saviani (1999: p. 18) mostra que a função da pedagogia tradicional

"...é difundir a instrução, transmitir os conhecimentos acumulados pela humanidade e sistematizados logicamente. O mestre-escola será o artífice dessa grande obra. A escola se organiza, pois, como uma agência centrada no professor, o qual transmite, segundo uma gradação lógica, o acervo cultural aos alunos. A estes cabe assimilar os conhecimentos que lhes são transmitidos."

Portanto, o ensino da filosofia como produto estaria a serviço da mera transmissão-assimilação dos conteúdos, aprendizagem repetitiva, memorista, abstrata e desvinculada das relações sociais concretas, logo de caráter elitista, descompromissada das reais condições históricas, sociais e humanas e contrária ao espírito crítico.

Saviani assinala ainda que para a Pedagogia da Escola Nova "...o importante não é aprender, mas aprender a aprender". Desta forma os conteúdos já produzidos seriam relegados, pois a aprendizagem é construída a partir das motivações dos alunos e de suas experiências vividas, neste caso

"o professor agiria como estimulador e orientador da aprendizagem cuja a iniciativa principal caberia aos próprios alunos. Tal aprendizagem seria uma decorrência espontânea do ambiente estimulante e da relação viva que se estabeleceria entre os alunos e entre estes e o professor." (Saviani 1999: p. 21)

O escola-novismo, afinal, é uma tendência pedagógica que, fundada na espontaneidade da aprendizagem, subtrai a história, desvincula o presente do passado, esvazia o significado da construção acumulada dos conhecimentos e experiências humanas, reduz sobremaneira o papel do professor, além de ocultar, por trás de uma pretensa formação crítica, as desigualdades sociais e as oportunidades inviáveis dos menos favorecidos, camada oprimida da sociedade, que não tem acesso à cultura sistematizada e informações mais qualificadas devido às diversidades do meio e das condições em que se encontram inserida.

De um lado, o ensino da filosofia simplesmente como produto que se perfaz pela "transmissão e assimilação do saber sistematizado" e que se configura como perene ou mais propriamente como o "clássico" (Saviani 1997: p. 23) não é suficiente para melhor educação, justamente por desenvolver nos alunos somente a capacidade de reter os conteúdos filosóficos já elaborados pela tradição de forma abstrata e mecânica - como saber em si, desvinculado dos contextos de sua origem e dos contextos atuais, cujas lições não contribuem para o desenvolvimento do saber crítico-reflexivo ou do saber pensar melhor, atitude denominada de filosofar.

Por outro lado, o ensino da filosofia como processo, cujo objetivo é proporcionar o saber pensar aos alunos, também não é suficiente na medida em que este despreza o saber já constituído, concentrando seu esforço apenas no desenvolvimento da criatividade. Saviani (1997: p. 23-24) adverte que, "... é preciso entender que o automatismo é condição da liberdade e que não é possível ser criativo sem dominar determinados mecanismos". Portanto, para que seja desenvolvida a criatividade, é lógico que o ponto de partida seja o já estabelecido, o já dado ou construído. Não é possível do nada ou do meramente empírico realizar o novo. O novo só surge em função do antigo, pois sua condição necessária é emergir das reflexões sobre o herdado, afinal o conhecimento é um processo de construção histórica. Desvalorizar na escola os conteúdos já construídos é negar a História, é negar o passado, enfim, é negar o ponto de partida e não partir de ponto algum, e isso significa a inviabilidade da própria criatividade.

O ensino que se encaminha pelo simples repasse do já conhecido se reduz à repetição não refletida. E o ensino que se baseia na construtividade da atividade reflexiva, independente das bases sólidas epistemológicas já existentes, funda uma impossibilidade, uma ilusão. Não é possível gerar novidade fora dos referenciais já dados pois a novidade, como o próprio nome já indica, só pode ser estabelecida pelo velho, condição de sua origem.

Desse modo, é necessário conciliar numa síntese o ensino da filosofia como produto e como processo. Como produto o ensino-aprendizagem se desenvolve na absorção das filosofias já elaboradas. Como processo, o ensino da filosofia, a partir do produto, passa a se consolidar como reflexão do já elaborado em relação ao já vivenciado (experiências de vida) num percurso dinâmico, promovedor do filosofar ou da postura do saber pensar melhor. Sobre este assunto assim se refere Sousa (1995: p.10): "Assim, o educador de hoje tem diante de si um grande desafio: conciliar ambas as posturas. Ou seja, compete a ele se apropriar desse processo da reflexão filosófica mediado pelo produto da tradição filosófica."

O filósofo Karl Marx (1987: p.163), em sua XI tese sobre Fuerbach, escreve: "os filósofos se limitaram a interpretar o mundo diferentemente, cabe agora transformá-lo". Esta assertiva de forma alguma despreza o caráter teórico do pensamento, todavia demonstra que o saber analítico, puro e simplesmente, não tem sentido completo, pois não alcança sua efetivação prático-transformadora. A análise pela análise, a simples tentativa de compreensão da realidade sem inserção prática, não passa de contemplação, postura passiva e abstrata sobre os fenômenos do mundo. O saber só tem sentido na perspectiva teórico-prática (práxis). É somente através dessa unidade dialética que o conhecimento adquire seu verdadeiro estatuto, do contrário sua produção perde em importância e sentido, uma vez que não aponta para um fim concreto e transformador a ser atingido e tampouco estabelece os métodos possibilitadores do alcance desse fim.

"A filosofia, ..., não é apenas um instrumento para a compreensão do mundo e interpretação dos seus fenômenos. É também um instrumento de ação a arma política e, como tal, tem sido utilizada, em todos os tempos, consciente e inconscientemente." (Basbaum apud Luckesi 1994: p.27)

A síntese do ensino como produto e processo, respectivamente pedagogia da essência e da existência, encontra-se para além das referidas modalidades educativas. Trata-se da pedagogia "Histórico-Crítica" que, longe de expurgar as orientações pedagógicas anteriores, assimila para dentro de sua sistemática suas qualidades e diferenças, na unidade dialética que supera cada uma em suas limitações e reaproveita seus alcances. Sobre essa questão afirma Saviani:

"A pedagogia revolucionária situa-se, pois, além das pedagogias da essência e da existência. Supera-as, incorporando suas críticas recíprocas numa proposta radicalmente nova. O cerne dessa novidade radical consiste na superação da crença seja na autonomia, seja na dependência absolutas da educação em face das condições sociais vigentes." (Saviani 1999: p.75-76)

O caráter emancipatório e revolucionário da pedagogia "Histórico-Crítica" encontra sua sustentação nas condições reais do movimento social. Parte, portanto, das condições concretas da realidade histórica de sua produção material e não-material. Dessa forma reconhece a escola e mais nuclearmente o ensino como determinação das estruturas vigentes da sociedade e se dirige a todos os homens, de igual modo, como indivíduos comunitários condicionados. Todavia, tanto a escola como o ensino e os próprios homens não se encontram estabelecidos por determinações absolutas das relações de produções hegemônicas do ser social, pois os homens, longe de serem meros reflexos do sistema imperante, são sujeitos ativos e pensantes, são autores da dinâmica que dialeticamente alteram o curso das coisas em nome de um fim que é o próprio homem como sujeito para si.

Portanto a escola, reduto educacional dos homens, apresenta de igual maneira as possibilidades, em potência, para gestar no processo educativo as contribuições necessárias às transformações da vida. Neste caso, não qualquer transformação mas somente aquela que supere as condições de desigualdades profundas e que reconcilie os homens entre si, consigo mesmos e com toda a natureza. Só esse pode ser o projeto verdadeiro de todo fazer educativo que se quer crítico-revolucionário. Sobre essa condição revolucionária da pedagogia Histórico-Crítica Saviani escreve:

"A pedagogia revolucionária é crítica. E por ser crítica, sabe-se condicionada. Longe de entender a educação como determinante principal das transformações sociais, reconhece ser ela elemento secundário e determinado. Entretanto, longe de pensar, como faz a concepção crítico-reprodutivista que a educação é determinada unidirecionalmente pela estrutura social dissolvendo-se a sua especificidade, entende que a educação se relaciona dialeticamente com a sociedade. Nesse sentido, ainda que elemento determinado, não deixa de influenciar o elemento determinante. Ainda que secundário, nem por isso deixa de ser instrumento importante e por vezes decisivo no processo de transformação da sociedade". (Saviani 1999: p.75)

Por isso, cabe situar então o ensino da filosofia como articulação entre "produto e processo". Neste caso, a orientação pedagógica de seu ensino se daria pela corrente Histórico-Crítica, por ser essa vertente educativa a que melhor possa efetivá-lo, como estudos dos debates filosóficos ocorridos e ocorrentes na tradição histórica. Aprender ou se apropriar da filosofia é condição para o filosofar. Portanto, é a partir do entendimento das idéias que a reflexão crítica e a atividade criadora poderão desenvolver-se nos alunos, formando-os como sujeitos competentes e comprometidos com seus semelhantes na construção de uma sociedade livre dos grilhões opressores que têm fundamentado as sociedades divididas em classes.

É dentro dessa perspectiva que o ensino da filosofia, também para os jovens alunos, pode delinear-se como uma nova forma de construir o fazer educativo capaz de desenvolver o senso crítico-reflexivo e libertador, na medida em que suas bases antropológicas tomam o "homem como ser integral" e todos os homens como fim do processo educativo. Decorrendo desta propositura, o desenvolvimento de sua ação pedagógica tende a contribuir significativamente, no conjunto com outros saberes, para a compreensão e superação das alienações sociais que tanto têm dilacerado a vivência social e individual dos homens. Então o fazer educativo deve dirigir-se, em seu conjunto, para plenificar os homens em todas as suas potencialidades, no sentido de instaurar o homem novo, livre, porque reintegrado consigo mesmo, com os outros homens e com a natureza num estágio emancipado e emancipatório, deixando para trás as mazelas que têm determinado o "homem como lobo do homem".

Portanto, é na interseção deste fazer educativo plurinterdisciplinar que o ensino da filosofia poderá ressignificar-se para desempenhar a sua tarefa e atingir os seus fins. É no bojo inter-subjetivo e inter-objetivo dos vários saberes disciplinares e experiências estudantis que sua função poderá dilatar-se e aprofundar-se, elevando os jovens ao nível dos domínios do saber sistematizados numa dimensão crítico-reflexiva-transformadora.

Mas se o ensino da filosofia se difere dos outros saberes e, levando em conta que a formação crítico-reflexiva-transformadora sobre a realidade é também tarefa das ciências e das artes, qual a importância da educação filosófica para os jovens? Se a filosofia tem ao longo dos tempos se constituído como saber de poucos e geralmente tomada como exercício acadêmico, sua aquisição estará ao alcance da juventude? O quê ensinar ? Como ensinar e quem deve ensinar filosofia?

A importância do saber ou do ensino da filosofia para os jovens tem sua partida na compreensão de que o conhecimento filosófico é diferente tanto do senso comum como do religioso e científico. O saber filosófico não se confunde com o do senso comum - saber parcial e fragmentado do cotidiano, com o saber religioso - conhecimento sobre Deus, baseado na fé mística e nem com o científico - saber específico sobre fenômenos da realidade. O conhecimento filosófico tem a totalidade na sua mira e toma os problemas do real em suas diversas articulações interdependentes, numa visão "radical, rigorosa e de conjunto" (Saviani 1980: p.27) permeada pela criticidade ontológica (ser), axiológica (valer) e epistemológica (conhecer), tríplice dimensão de sua razão de ser.

"A filosofia é uma ordem intelectual, o que nem a religião nem o senso comum podem ser, (...) A filosofia é a crítica e a superação da religião e do senso comum e, neste sentido, coincide com o ‘bom-senso’, que se contrapõe ao senso comum". (Gramsci apud Silveira, 2000: p.130)

Assim, o ensino da filosofia tem a função de elevar os jovens alunos do nível do senso comum, aparente e parcial, para o da reflexão mais profunda e essencial; do nível religioso, que não raras vezes aliena os homens numa dimensão supra-terrena, deslocada dos fazeres da vida concreta, para a práxis; e enfim, ampliar os horizontes do conhecimento científico positivista e particularista para uma visão globalizante e dialética do mundo. É através desse esclarecimento que poderá despertar nos jovens uma atitude e consciência adiantada, capaz de tomar posições críticas diante das armadilhas ideológicas e ideologizantes mais perversas das idéias dominantes.

"Tal atitude colaboraria no processo de propiciar às classes subalternas as condições objetivas e subjetivas necessárias à produção de uma nova visão de mundo, para além daquela que lhes é imposta externamente e que colabora para sedimentar a hegemonia da classe no poder, isto é, superando, principalmente o senso comum" (grifo nosso) (Martins apud Gallo e Kohan 2000: p.108)

A aquisição do saber filosófico, ao longo da trajetória humana, solidificou-se como sendo de alcance de uma pequena elite intelectual. Desde sua origem, entre os gregos, essa ciência era compartilhada apenas entre os homens livres (cidadãos da Pólis). Tal concepção, de modo mais geral, atravessou a história e foi acolhida por muitos pensadores e se tornou com o tempo quase unânime no seio da tradição.

Essa convicção não tem sentido, pois os homens são seres que pensam. De acordo com Gramsci (1995: p.11) "todos os homens são filósofos". De uma forma ou de outra, os seres humanos se põem a filosofar (ainda que em nível empírico) sempre que questionam e discutem os seus problemas; todas as vezes que se orientam por alguma visão de mundo e estabelecem regras do viver em sociedade. Esse é o sinal de que a filosofia é própria de todos os homens e não de uma minoria restrita. Entretanto, a atitude do "filosofar" para a grande maioria se encontra ainda em nível ordinário, como conhecimento ingênuo e imediato. "Deve-se destruir o preconceito, muito difundido, de que filosofia seja algo difícil pelo fato de ser atividade intelectual própria de uma determinada categoria de cientistas especializados ou de filósofos profissionais e sistemáticos." (Gramsci apud Luckesi, 1994: p. 11)

O ensino da filosofia dirigido a todos os homens traz a grande possibilidade, para os excluídos, de aprender a pensar refletidamente, o que equivale a transpor o nível da doxa (senso comum) rumo à episteme (filosofia), competência esclarecida da realidade histórica, dos acontecimentos e das situações simples e complexas que se apresentam nas mais diversas instâncias do viver.

Em virtude disso, o ensino da filosofia aos jovens secundaristas encontra terra firme, embora muitas vezes, tolhidos de reflexões pela prática educativa tradicional e autoritária, esses alunos são em potencial, se não futuros filósofos profissionais pelo menos cidadãos conscientes capazes de refletir criticamente sobre os problemas que se alternam na vida, tomando posições no sentido de desvelar velhas certezas, antigos e novos preconceitos e poderosas mistificações ideológicas geradas para confundir e manter a velatura dos antagonismos sociais, das injustiças dissimuladas e das privações anti-humanistas.

Todavia, essa emancipação dos alunos só poderá efetivamente dar-se na escola através da transmissão-assimilação dos conteúdos sistematicamente elaborados. A existência da escola não tem outra explicação a não ser a de propiciar essencialmente (em 1º lugar) aos homens o acervo cultural e intelectual que estes historicamente construíram cientificamente. É esse o ponto de partida da aprendizagem e é a partir desse referencial que se torna possível a confecção de formas e procedimentos necessários para a melhor aquisição do fim a ser alcançado.

"Ora, clássico na escola é a transmissão-assimilação do saber sistematizado. Este é o fim a atingir. É ai que cabe encontrar a fonte natural para elaborar os métodos e as formas de organização do conjunto das atividades da escola,..." (Saviani 1997: p.23)

Não se trata aqui somente de aprender o conhecimento filosófico já construído e sistematizado (saber como produto), mas apenas de tomá-lo como a base necessária para reais possibilidades da reflexão criativa ou filosófica (saber como processo), aspecto importante e complementar do ensino ativo. Essa relação ultrapassa a dicotomia entre o saber como produto e o saber como processo, pois os conteúdos apreendidos automaticamente não têm sentido, e a criatividade construída sem a apropriação dos conteúdos não passa de saber rudimentar (senso comum), o que impediria a classe dominada de emancipar-se das meras opiniões sobre a realidade e consequentemente das reais condições de desigualdades sociais.

"Ora, é sobre a base da questão da socialização dos meios de produção que consideramos fundamental a socialização do saber elaborado. Isso porque o saber produzido socialmente é uma força produtiva, é um meio de produção. Na sociedade capitalista, a tendência é torná-lo propriedade exclusiva da classe dominante." (Saviani 1997: p. 90)

Desse modo, o ensino de filosofia tem a grande missão de propiciar, principalmente aos jovens, a oportunidade de refletir sobre os grandes temas filosóficos sem perder suas essencialidades históricas que a produziram e da mesma forma as vicissitudes e acontecimentos do tempo presente com seus grandes desafios. Portanto, apropriar-se da filosofia e filosofar são duas polaridades associadas que permitirão aos alunos a formação de uma atitude crítica frente ao mundo, condição de superação da atitude subalterna aos interesses burgueses.

Tal perspectiva não quer de modo algum reduzir a filosofia como produção intelectual de uma classe, como se sua produção e ensino fosse naturalmente saber apenas de uma parte dos homens e ao seu serviço. Não, a filosofia é um saber dos homens em geral e para todos os homens, todavia, assim como as classes dominantes se apropriaram e se apropriam deste saber para fazer prevalecer suas representações de mundo sobre os demais, da mesma forma o seguimento dominado da sociedade deve tê-la como conhecimento capaz de contribuir para a sua libertação, tendo em vista já não mais reproduzir as condições de desigualdades, mas fundar uma vida justa para todos e plena de sentido, para além dos antagonismos de classe e suas relações de opressão.

As possibilidades da filosofia como saber libertador, como ensino crítico-reflexivo podem expressar-se através do que-fazer pedagógico, na atuação do professor na sala de aula. Na medida em que o professor é o mediador entre a cultura e o aluno, o ensino se processa sobre um modelo ou orientação pedagógica onde aquele estiver situado. Se a postura do professor for reflexo da ideologia dominante, seu trabalho seguirá, consciente ou inconscientemente, as orientações de uma pedagogia dominante; se sua postura, ao contrário, for reflexo de uma ação competente e ao mesmo tempo crítico-reflexiva, sua atuação se orientará numa perspectiva transformadora aliada, portanto, aos interesses das classes dominadas.

Compreende-se assim que não existe ensino neutro ou imparcial. O ensino tem seu pressupostos fundamentais numa visão de mundo e de homem que orientam a prática educativa na escola. A escola tem sido espaço mais freqüentemente da reprodução de um ensino conservador e alienador que interessa às ideologias vigentes. Mas, por outro lado, o professor consciente de suas tarefas para com a emancipação humana poderá aproveitar esse mesmo espaço como reflexo e construção de uma visão de mundo que liberte os seus alunos das representações de mundo que lhes são impostas.

A trajetória da filosofia no ensino médio brasileiro, desde os tempos coloniais até a atualidade, deu-se hegemonicamente como produto (Pedagogia Tradicional) processada na origem através do programa jesuítico da "Rátio Studiorium", herança, salvaguardadas as diferenças, no mínimo metodologicamente que permanece orientando os estudos nas escolas secundárias em pleno final do século XX.

Este procedimento, de mero repasse dos conteúdos e absolutização do conhecimento em si, trabalhados de forma abstrata e memorista, tem impedido profundamente o processamento de uma formação autêntica, crítica e autônoma nos alunos dos cursos médios, desfavorecendo a construção de sua cidadania e do seu ser filosófico. Sobre tal problema, assim fala Martins (apud Gallo e Kohan 2000: p.98):

"Revendo os caminhos do Ensino Médio Nacional pode-se perceber que a concepção de filosofia nele difundida predominantemente foi a de um saber abstrato e, em conseqüência, elitista, um saber ("pensar") desvinculado do conflito que caracteriza a existência humana ("ser"). Tal procedimento colaborou para a manutenção das massas trabalhadoras na submissão intelectual e moral, uma vez que afastadas das tarefas teórico-práticas capazes de libertá-las".

Frente a esse problema, que historicamente cristalizou-se como prática educativa nos cursos médios brasileiros, faz-se necessário e importante buscar uma redefinição do ensino da filosofia para os jovens que ultrapasse o estilo conteudista e elitista de que tem sido vítima, para uma aprendizagem rica de conhecimentos ativos e prazerosos, através da qual professor e aluno possam repensar tanto suas práticas como as situações-problema da realidade, numa perspectiva crítico-reflexiva e transformadora do mundo.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:

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DEMO, Pedro. Desafios Modernos da Educação. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 1996.

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LIBÂNEO, José Carlos. Democratização da Escola Pública: a pedagogia crítico-social dos conteúdos. 13. ed. São Paulo: Loyola, 1995. (Coleção Educar 1).

______________ Didática. São Paulo: Cortez, 1994. (Coleção Magistério 2º grau).

LUCKESI, Cipriano Carlos. Filosofia da Educação. São Paulo: Cortez, 1994.

MACIEL, Carlos F. Um Estudo – Pesquisa sobre o Ensino Secundário da Filosofia. Recife: MEC/INEP, 1959

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______________ Marx e a Pedagogia Moderna,. tradução por Newton Ramos-de- Oliveira. São Paulo: Cortez, Autores Associados, 1991

MARX, Karl. Manuscritos Econômico-Filosóficos e outros textos escolhidos; seleção de textos de José Arthur Giannotti; traduções de José Carlos Bruni et al.. 4. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1987. (Coleção os Pensadores).

PILLETI, Cláudio, PILLETI, Nelson. Filosofia e História da Educação. 2. ed. São Paulo: Ática, 1985.

RIBEIRO, Álvaro, KOHAN, Waletr Omar, LEAL, Bernardina (Orgs.) Filosofia na Escola Pública. Petrópolis: Vozes, 2000.

ROMANELLI, Otaíza de Oliveira. História da Educação no Brasil. 22. ed. Petrópolis: Vozes, 1999.

SAVIANI, Dermeval. A Nova Lei da Educação: L.D.B. trajetória, limites e perspectivas. 4. ed. Campinas: Autores Associados, 1998.

Escola e Democracia. Campinas, SP, Autores Associados, 1999.

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SEVERINO, Antônio Joaquim. Filosofia. São Paulo: Cortez, 1994.

SILVEIRA, René José Trentin. Um Sentido para o ensino de Filosofia no Nível Médio. In: GALLO, Silvio, KOHAN, Walter Omar (orgs.). Filosofia no Ensino Médio. Petrópolis: Vozes, 2000.

SOUZA, Sônia Maria R. Por que Filosofia – uma abordagem histórico-dialética do ensino da Filosofia no 2º grau. São Paulo: U.S.P., 1992.

Um Outro Olhar. São Paulo: F.T.D., 1995.

Marcos Antônio Macêdo Muniz é Prof. Ms.C do CEFET-MA (DHS) e da UFMA (DEFIL).

Fonte: http://br.geocities.com/maeutikos/filosofia/filosofia_ensinomedio.htm

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