Mostrando postagens com marcador Sócrates. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sócrates. Mostrar todas as postagens

sábado, 1 de maio de 2010

O julgamento de Sócrates, por José Fernandes P.Júnior

O JULGAMENTO DE SÓCRATES[1]

por José Fernandes P.Júnior[2]

“Conhecer a vida de Sócrates é recuperar a grandeza da condição humana – uma grandeza que veio se perdendo ao longo dos séculos, na prevalência do jogo opressão-dominação”

Grandes filósofos: biografia e obras, p. 17

A ACUSAÇÃO

Aos setenta anos de idade Sócrates subiu aos degraus de um tribunal. Como era de pasmar aquela cena! O motivo que o obrigava era o de como réu fazer sua própria defesa num processo acusatório movido por Meleto, Anito e Licon. Segundo Diógenes Laécio foi a seguinte a acusação apresentada em janeiro de 399 a. C. contra Sócrates:

“A seguinte acusação escreve e jura Meleto, filho de Meleto, Piteo, contra Sócrates, filho de Sofronisco, do demo da Alopécia. Sócrates é culpado de não reconhecer os deuses que o estado reconhece, e de introduzir novos cultos, e, também, é culpado de corromper a juventude. Pena, a morte”.[3] Kierkegaard afirma que “a acusação contra Sócrates é um documento histórico”[4].

Presume-se que a causa disso teria sido a curiosidade de Querefonte, quando um dia, em Delfos, ousou fazer esta pergunta ao oráculo: há alguém mais sábio do que Sócrates? A resposta foi a de que não existia ninguém[5]. No entanto a leitura de Platão remete-nos a uma causa política.

O RÉU E A DEFESA

Na República, por exemplo, encontramos um Sócrates extremamente avesso aos governos democráticos. Mesmo assim, Platão é fiel à leitura dos autos e registra dessa forma a acusação de Meleto: “Sócrates é réu de corrupção da juventude, de não reconhecer os deuses reconhecidos pela cidade e também de praticar cultos religiosos novos e diversos”[6].

Mesmo com brilhante defesa que fez de si mesmo contra tais acusações, não conseguiu evitar o desejo permeado pelo ódio de seus compatriotas acusadores. Sócrates fora condenado á pena capital, conforme aspirava seus caluniadores. Na Apologia, Platão registra como Sócrates foi receptivo à pena, devolvendo de forma justa – como um justo juiz – seu parecer em relação aos seus acusadores: “[...] fugir à morte não é difícil, bem mais dificultoso é fugir à maldade, mais célere que a morte é a malvadez. Ora, eu, que sou tardo e velho [...] vou pagar meu débito de morte e estes irão pagar seu débito de iniqüidade e de infâmia, condenados pela verdade.”[7] – tal foi a sentença socrática contra seus acusadores.

As acusações atribuídas ao filósofo das ruas foram suficientes para justificadamente eliminar sua vida? Ou na verdade cometera-se uma injustiça histórica, tal qual se fizera a Jesus Cristo? Certamente, ao que se sabe Sócrates não era um filósofo que vivia em uma torre de marfim contemplando à vida e muito menos – para continuar na metáfora – não era uma coruja na gaiola. A ágora de Atenas era o seu púlpito, sua tribuna. Constantemente, lá estava a dialogar, com todo tipo de indivíduo. Raph W. Emerson conta-nos que era um “homem de origem humilde, mas bastante honesto, tinha a história mais vulgar e era de uma simplicidade pessoal assaz notável para excitar a verve dos outros [...] Era um indivíduo de sangue frio, juntando ao seu humor um temperamento perfeito e um conhecimento dos homens, que, qualquer que fosse o interlocutor, expunha o indivíduo a uma derrota certa, fosse qual fosse o debate e, nos debates, deleitava-se imoderadamente”[8]. Além disso, era paupérrimo. Sua indumentária era a mesma, inverno e verão; andava sempre descalço; alimentava-se de azeitonas e de pão e água, salvo quando era convidado para algum banquete pelos amigos. De vez em quando se empenhava no ofício de escultor, fabricava algumas estátuas que lhe rendiam algumas moedas. Sua fisionomia comportava traços que lhe fugiam à beleza: na verdade dispunha de um rosto rechonchudo e feio, mas, quando começava a dialogar, todos esqueciam sua aparência, magnetizados por sua sabedoria.

O SENSO DE DEVER DIANTE DA SENTENÇA

Sócrates era irrefutável. Era um feiticeiro da palavra. Todos se encantavam com a arte de sua maiêutica. Seus antagonistas encurralavam-se diante de sua argumentação. Os sofistas provaram da arte do discurso socrático e estes sentiram sua ironia e lógica irreplicáveis. Talvez tenha sido justamente esse jeito de ser que causou a perturbação do Estado, a ponto de gerar um ciúme terrível, capaz de condenar injustamente um homem de bem [spoudaios]. Sócrates representava a Filosofia que perturbava a ordem vigente, por isso pagou com sua própria vida.

Abro um parêntese aqui e peço ao amigo leitor uma devida licença poética para reconstituir o cumprimento da pena que os juízes infligiram ao nosso réu. Pois bem. Emerson diz que “Sócrates entrou na prisão, e tirou toda a ignomínia a esse lugar, que não podia ser uma prisão enquanto ali ele estivesse”[9]. Críton, um dos seus discípulos, suborna o carcereiro e propõe uma fuga, no entanto Sócrates rechaça o plano do discípulo: “tua solicitude teria sido muito louvável, meu querido Críton, se fosse conforme aos ditames da justiça [...]”[10]. Que ética! Que senso de dever! Frustrada a tentativa de Críton, restou ao discípulo consolar-se com a iminente despedida do seu mestre.

No Fédon (ou da imortalidade da alma), Platão – embora não estivesse presente[11] – conta-nos como foi as últimas horas do condenado. Naquela masmorra, Sócrates jaz em correntes à espera da execução penal. Chegada a hora, Sócrates recebe a visita de sua esposa Xantipa, mas esta pôs-se a lamentar; em vista disso Sócrates pede a Críton que a levem para casa, assim foi feito.

UM GOLE PARA A IMORTALIDADE

Em seguida, isto é, depois de alguns diálogos com os seus epígonos, recebe a taça envenenada “com a maior tranquilidade, sem nenhuma emoção, sem alterar sua expressão, sem mudar de cor”[12]; depois disso, “levou a taça aos lábios e esgotou-a, sem o menor gesto de dificuldade e repugnância”[13]. Ao cumprir o ritual, a serenidade de Sócrates contrastava com aflição de seus discípulos. No entanto, pede a todos coragem e tranquilidade: “Animai-vos – disse ele aos seus amigos que se mostravam tristes – e dizei que estão enterrando apenas meu corpo”[14]. Aos poucos os sintomas do efeito da cicuta foi tomando de conta da vida do réu injustiçado. Sócrates caminhava de um lado para o outro, até um certo tempo, mas logo se recolheu, quando começou a sentir que seus pés e pernas já não lhe respondia. Todo o seu corpo foi ficando dormente, rijo e frio. A morte se aproxima. Descobrindo o rosto, que havia coberto, dirigiu suas últimas palavras a Críton: “Devemos um galo a Asclépios, paga esta minha dívida, não te esqueças”[15]. Com esta frase aparentemente simplória, Sócrates deixa-nos uma última lição, qual seja, que a honestidade deve ser perseguida até o último suspiro de nossa vida. Memoráveis e dignas de registro são as palavras de Críton, que Platão sabiamente utiliza como desfecho do Fédon: “Do homem [Sócrates] podemos dizer que foi o melhor de todos que conhecemos em nossa época, o mais sábio e ainda o mais justo”.[16]

Com muita propriedade, afirmou Ralph W. Emerson: “a celebridade dessa prisão, a fama dos discursos que foram proferidos, e a taça de cicuta, são uma das mais preciosas passagens da história do mundo”[17].

“Será, então, que o Estado ateniense, com a condenação de Sócrates, cometeu uma injustiça que grita aos céus, será que o mais certo que podemos fazer é voluntariamente nos unirmos à multidão de sábias carpideiras e de filantropos pobres de espíritos e ricos em lágrimas, cujos choros e lamentações por um homem tão bom, tão honesto, modelo de virtude e cosmopolita, vítima da inveja mais sórdida, cujos choros e lamentações, como disse, repercutem ainda através dos séculos?” – indaga-nos Kierkegaard[18]. Decerto, o Estado democrático ateniense, representado pelos acusadores Meleto, Anito e Licon, decidiu o destino de Sócrates; assim, como corruptor de jovens e profanador dos costumes religiosos, “seria melhor – disse Anito e Meleto – que Sócrates morresse”[19]. Enfim o mataram. Ou melhor, o transformaram num mártir – o primeiro da Filosofia.

O DESFECHO: A Hora da partida

Diante da sentença prolatada pelos juízes que, no entanto, desejavam absolvê-lo, “recusou-se a pedir clemência à multidão que ele sempre desprezava. Ela detinha poderes para perdoá-lo; ele desdenhou de fazer o apelo”[20]. Não por acaso, Platão e Aristóteles demonstram uma ojeriza à Democracia. A multidão costuma cometer irremediáveis erros: Condenai a Sócrates! Soltai a Barrabás e crucificai o Nazareno! – eis as vozes inebriadas pelo simples desejo de manifestar a vontade de poder.

Cumprir a sentença de morte, aí está o destino do bom homem Sócrates, que o aceita como um verdadeiro estóico aceitaria. Aos 70 anos de idade, cansado e sem nenhum rancor no coração, resignadamente agasalha sua sorte: “já está muito claro pra mim, que morrer agora e livrar-me de todas as fadigas era a melhor coisa [...], e de minha parte não levo nenhum rancor contra aqueles que me condenaram e os meus acusadores”.[21] Esta postura serena e paradoxal frente à iminência da morte é, ainda, uma lição de como o homem de bem a nada deve temer, assim admoesta aos juízes que “nenhum mal pode atingir o homem reto nem em vida e nem depois de morto e tudo que lhe acontece é oriundo da benevolência dos deuses”[22]. É assim que Sócrates caminha para o destino final de sua vida.

Depois da conversa com os magistrados, ainda no fórum, Sócrates profere algumas palavras que se tornaram imortais, tal como toda sua vida; sirvo-me delas para arrematar e evidenciar ainda mais o réu que foi, injustamente, condenado à morte:

“É chegada a hora de partir: eu para morte e vós para vida. Quem de nós se encaminha para o melhor destino, todos nós ignoramos, exceto o deus”[23]

BIBLIOGRAFIA

EMERSON, Ralph Waldo. Homens representativos. Rio de Janeiro: Ediouro.

KIERKEGAARD, Sören. O Conceito de ironia – constantemente referido a Sócrates. Trad. Álvaro Luis M. Valls. Petrópolis-RJ: Ed. Vozes, 1991

PLATÃO. Apologia de Sócrates. Rio de Janeiro: Ed. Nova Cultural, 1996 – Col. Os Pensadores.

_______. Críton ou do dever. Rio de Janeiro: Ed. Nova Cultural, 1996 – Col. Os Pensadores.

_______. Fédon ou da alma. Rio de Janeiro: Ed. Nova Cultural, 1996 – Col. Os Pensadores.


[1] Este artigo foi publicado na Revista Prática Jurídica, ed. 90, Editora Consulex.

[2] Graduado em Filosofia – FAFIC/PB; Bacharelando em Direito e Professor de Filosofia na rede pública do DF; autor de vários artigos nas áreas da Filosofia e do Direito

[3] In: PLATÃO. Introdução à apologia de Sócrates, p. 57

[4] O Conceito de ironia – constantemente referido a Sócrates, p. 134

[5] Cf. PLATÃO. Apologia de Sócrates. p. 69

[6] Idem. Op. cit., p. 73

[7] Idem, p. 94

[8] Homens representativos, p. 44/45

[9] Op. cit., p. 46

[10] PLATÃO. Críton ou do dever, p. 104

[11] Diz Fédon: “Platão não estava, parece-me que estava doente”: Idem, Op. Cit., p. 119

[12] PLATÃO. Op. Cit, p. 189

[13] Idem, Ibidem, p. 190

[14] DURANT, Will. A História da filosofia, p. 36

[15] PLATÃO. Fédon ou do dever, p.191

[16] Idem, p 191

[17] Op. Cit, p.46

[18] Op. Cit., p. 134

[19] DURANT, Will. Op. Cit., p. 36

[20] Idem, p 36

[21] Cf. PLATÃO. Op. Cit., p. 97

[22] Idem, Loc cit.

[23] Cf. Idem, Loc cit.

Fonte: Artigo postado com autorização do autor: Filósofo e professor José Fernandes P.Júnior .

domingo, 18 de abril de 2010

A humildade , por José Francisco Botelho

Uma lição de sabedoria com o pensador que tinha consciência de sua própria ignorância

O filósofo grego Sócrates foi um dos poucos personagens históricos que mudaram os rumos do pensamento humano sem ter deixado uma única linha por escrito. Outros membros desse seleto clube são Buda e Jesus Cristo; ao contrário deles, Sócrates não fundou religião alguma, mas sua vida e personalidade estão até hoje cercadas por uma aura de mistério muito próxima à dos místicos e dos santos (no Islã medieval, aliás, ele era conhecido como o “profeta da Grécia antiga”). Considerado por alguns historiadores como o fundador da filosofia ocidental, ele é até hoje uma das figuras mais controversas e obscuras na história das ideias: tudo o que sabemos sobre ele é um punhado de fatos esparsos, relatados nas obras nada imparciais de seus fervorosos discípulos e seus igualmente entusiasmados detratores. O amor e o ódio a Sócrates, por sinal, são dois vetores constantes na história da filosofia: um jogo de veneração e repulsa que já rendeu muito arranca-rabo metafísico.

Grande parte do que sabemos sobre Sócrates está contido na obra de seu discípulo mais famoso, Platão – nos textos conhecidos como Diálogos, ele retratou as incansáveis discussões filosóficas entabuladas pelo mestre. Uma das questões mais espinhosas na história da filosofia é, precisamente, fazer a distinção entre o pensamento de Sócrates e o de seu discípulo-biógrafo. Contudo, por mais difícil que seja determinar o teor exato das ideias socráticas, o que ninguém nega é a importância descomunal do método de filosofar empregado por ele: a dialética ou, tirando em miúdos, a arte do diálogo. Para compreendê- la, é preciso dar uma olhadela no fascinante mundo em que Sócrates viveu e filosofou – a Grécia do século 5 a.C.

Quando Sócrates nasceu, por volta de 469 a.C., os gregos haviam acabado de derrotar a Pérsia – a superpotência expansionista da época – nas chamadas Guerras Médicas. O triunfo militar abriu as portas para um dos períodos mais férteis da civilização ocidental. Atenas se tornou senhora de um vasto império marítimo e centro de uma cultura efervescente. Por meio de uma série de reformas políticas, os atenienses aperfeiçoaram o sistema de governo que haviam adotado no século 6 a.C.: a democracia. A cada mês, os cidadãos com mais de 30 anos se reuniam em uma grande Assembleia para debater leis e escolher magistrados. Cada um tinha o direito de defender suas ideias em discursos públicos. Por isso, a arte de falar bem – para convencer, para dissuadir ou mesmo para engambelar – se tornou uma das ocupações favoritas entre os atenienses de todas as classes.

A arte do diálogo É nesse contexto que surgem os sofistas – trupe de intelectuais itinerantes que, em troca de remunerações graúdas, ensinavam as manhas da retórica aos jovens atenienses com ambições políticas. Até então, a filosofia grega se ocupava principalmente de assuntos cosmológicos, como a natureza dos astros e a origem do universo. Os sofistas mudaram essa equação: para eles, o objeto da reflexão filosófica era o próprio homem. Foi um sofista chamado Protágoras quem cunhou uma das frases hoje utilizadas para descrever o espírito daquela época: “O homem é a medida de todas as coisas”. Outra grande inovação introduzida por eles foi o uso do diálogo como método de reflexão e persuasão. Até então, pensadores e políticos costumavam deslindar suas ideias em longos monólogos, emitidos do alto de tribunas, para audiências que podiam interferir apenas com aplausos ou apupos. Já os sofistas preferiam exibir suas habilidades lógicas e seus floreios argumentativos em debates cara a cara, em que dois ou mais interlocutores se digladiavam na defesa de ideias opostas. Esse método dinâmico e vivaz fez grande sucesso em meio à juventude ateniense, que acorria em pencas para assistir aos animados duelos de eloquência protagonizados por Protágoras e sua turma.

Em meio às entusiasmadas audiências dos diálogos sofistas, havia um sujeito pobretão, excêntrico e dono de uma feiura proverbial. Antes de ganhar celebridade como filósofo, Sócrates já era famoso como o maior esquisitão de Atenas. Filho de um escultor e de uma parteira, ele se dedicou por alguns anos ao ofício do pai. Mas, ao que tudo indica, o patrono da filosofia ocidental não era, digamos, um sujeito muito trabalhador. Sua principal ocupação era sondar a alma humana, e pouco tempo lhe restava para questões rotineiras, como ganhar a vida. Costumava andar pelas ruas de Atenas metido em roupas puídas, com as grandes barbas descabeladas e sempre perdido em reflexões. Às vezes, tinha acessos de abstração que pareciam loucura: em determinada ocasião, passou mais de 24 horas parado ao relento, entregue a alguma complexa ponderação metafísica. Também afirmava ouvir uma voz misteriosa que lhe ditava regras de conduta – entre outras coisas, esse estranho anjo da guarda teria proibido Sócrates de se envolver em política (para o filósofo, nenhum homem justo pode enveredar por esse escuro pantanal da atividade humana sem perder a alma ou a vida).

Sócrates aprendeu a filosofar assistindo às preleções dos sofistas, mas logo acabou se afastando dos antigos mestres. Com o tempo, o desgrenhado pensador compreendeu que o excesso de truques retóricos de seus concidadãos servia muitas vezes para ornamentar mentes vazias (qualquer semelhança com o universo acadêmico de hoje não é mera coincidência). Cheia de intelectuais falastrões e de políticos oportunistas, Atenas havia se tornado uma cidade excessivamente satisfeita consigo mesma – e Sócrates decidiu que caberia a ele fustigar a soberba de seus contemporâneos. Mas, para abraçar plenamente sua vocação à insolência, ele precisou de um empurrãozinho divino.

Quando confrontados pelos aspectos mais obscuros ou espinhosos da existência, os antigos gregos costumavam consultar os deuses (naquela época, não havia psicanalistas). Para isso, existiam os oráculos – locais sagrados onde os seres imortais se manifestavam, devidamente encarnados em suas sacerdotisas. Certa vez, talvez por brincadeira, um ateniense perguntou ao conceituado oráculo de Delfos se haveria na Grécia alguém mais sábio que o esquisitão Sócrates. A resposta foi sumária: “Não”.

Saber e não saber O inesperado elogio divino chegou aos ouvidos de Sócrates, causando-lhe uma profunda sensação de estranheza. Afinal de contas, ele jamais havia se considerado um grande sábio. Pelo contrário: considerava-se tão ignorante quanto o resto da humanidade. Após muito meditar sobre as palavras do oráculo, Sócrates chegou à conclusão de que mudaria sua vida (e a história do pensamento). Se ele era o homem mais sábio da Grécia, então o verdadeiro sábio é aquele que tem consciência da própria ignorância. Para colocar à prova sua descoberta, ele foi ter com um dos figurões intelectuais da época. Após algumas horas de conversa, percebeu que a autoproclamada sabedoria do sujeito era uma casca vazia. E concluiu: “Mais sábio que esse homem eu sou. É provável que nenhum de nós saiba nada de bom, mas ele supõe saber alguma coisa e não sabe, enquanto eu, se não sei, tampouco suponho saber. Parece que sou um tantinho mais sábio que ele exatamente por não supor saber o que não sei”. A partir daí, Sócrates começou uma cruzada pessoal contra a falsa sabedoria humana – e não havia melhor palco para essa empreitada que a vaidosíssima Atenas. Em suas próprias palavras, ele se tornou um “vagabundo loquaz” – uma usina ambulante de insolência iluminadora, movida pelo célebre bordão que Sócrates legou à posteridade: “Só sei que nada sei”.

Para sua tarefa audaz, Sócrates empregou o método aprendido com os professores sofistas. Mas havia grandes diferenças entre a dialética de Sócrates e a de seus antigos mestres. Em primeiro lugar, Sócrates não cobrava dinheiro por suas “lições” – aceitava conversar com qualquer pessoa, desde escravos até políticos poderosos, sem ganhar um tostão. Além disso, os diálogos de Sócrates não serviam para defender essa ou aquela posição ideológica, mas para questionar a tudo e a todos sem distinção. Ele geralmente começava seus debates com perguntas diretas sobre temas elementares: “O que é o Amor?” “O que é a Virtude?” “O que é a Mentira?” Em seguida, destrinchava as respostas que lhe eram dadas, questionando o significado de cada palavra. E continuava fazendo perguntas em cima de perguntas, até levar os exaustos interlocutores a conclusões opostas às que haviam dado inicialmente – e tudo isso num tom perfeitamente amigável. Assim, o pensador demonstrava uma verdade que até hoje continua universal: na maior parte do tempo, a grande maioria das pessoas (especialmente as que se consideram mais sabichonas) não sabe do que está falando.

Para muitos ouvintes, o efeito do diálogo socrático era a catarse – uma experiência de purificação espiritual em que as portas do autoconhecimento se escancaram.

Deixando de lado a casca das ideias preconcebidas e os clichês, o discípulo estava pronto para a perigosa aventura de pensar por si mesmo. Às vezes, os argumentos desse conversador incansável eram tão azucrinantes que alguns ouvintes o atacavam no meio da rua, com chutes e pontapés. Perante tais indignidades, ele se limitava a responder com invulnerável ironia: “Não se costuma revidar contra os jumentos que nos escoiceiam”.

Tamanha independência de espírito pode ser algo bem arriscado – tanto na Antiguidade quanto hoje em dia. As patotas políticas não sabiam como lidar com aquele homem que questionava e irritava a todos com o mesmo sorriso de implacável gentileza, sem se deixar aliciar por ninguém. Em 399 a.C., seus desafetos conseguiram levá-lo a julgamento. O filósofo foi acusado de desrespeitar os deuses oficiais da cidade e de “corromper a juventude”: na prática, o que estava sob ataque era sua mania de fustigar a tudo e a todos sem pruridos. Ameaçado com a pena de morte, ele retrucou: “Ninguém sabe o que é a morte. Talvez seja, para o homem, o maior dos bens. Mas todos fogem dela como se fosse o maior dos males. Haverá ignorância maior do que essa – a de pensar saber-se o que não se sabe?” Com sua recusa a retratar-se perante a assembleia, o filósofo foi condenado a morrer por envenenamento. No dia de sua execução, reuniu- se com os amigos, trocou pilhérias e, naturalmente, entregou-se a discussões filosóficas. O carcereiro, ao lhe trazer a taça com cicuta, estava chorando. Mas Sócrates tinha os olhos secos. Bebeu o veneno como quem toma um remédio, despediu-se dos amigos com cavalheiresca tranquilidade e se esticou no catre, como se fosse dormir. E só então seu gênio insolente se calou.

O “vagabundo loquaz” de Atenas foi a primeira figura célebre na história do pensamento a morrer por suas ideias – e sua execução é um dos mitos fundadores da filosofia ocidental. A relevância de Sócrates, contudo, transcende o universo dos filósofos especializados ele se tornou, em grande medida, um modelo de conduta humana. Sua modéstia, numa época de vaidade intelectual, é um aviso aos navegantes de todos os séculos: por mais poder e desenvolvimento que uma civilização tenha atingido, o fato é que, no fundo, continuamos todos humanamente estúpidos. E a negação de nossa própria estupidez pode nos transformar em monstros. Escapar à ignorância congênita da espécie é possível, sim – mas essa é uma tarefa que não se realiza sozinho. A verdade (se é que ela existe) só pode surgir pelo confronto direto e implacável (mas sempre amigável) entre duas ou mais criaturas racionais. Pensar por si mesmo e a si mesmo, olhando no espelho do outro: eis a lição aparentemente simples, mas hoje tão esquecida, legada por uma das figuras mais intrigantes na história da humanidade.

Sócrates

Um dos fundadores da filosofia ocidental, o pensador morreu em 399 a.C. Como Buda e Cristo, que não deixaram escritos, Sócrates é conhecido hoje pelos textos de seus discípulos. A trajetória de Sócrates é uma cruzada contra a falsa sabedoria. Sempre amigável, o filósofo demonstrava o quanto ainda sabemos tão pouco dos mistérios da vida.

PARA SABER MAIS

O Julgamento de Sócrates, I.F. Stone, Companhia de Bolso Apologia de Sócrates, Platão, L&PM Pocket

Fonte: Revista Vida Simples

domingo, 28 de fevereiro de 2010

O Sócrates louco


Diógenes e Alexandre, o grande.


Por José Fernandes P. Júnior[1]
        
A princípio denominei o título desse singelo fragmento de “Diógenes, o zombador social”. E na verdade calhava bem esse título. Adiante veremos isso, pois o que se segue é um resgate do anedotário e lendas que a história da Filosofia fez questão de gravar em seus arquivos, a fim de que os pósteros de Diógenes não olvidassem o seu nome. Entretanto, a ironia platônica ao filósofo, justificou tal mudança: um dia quando perguntaram a Platão o que ele achava de Diógenes, a resposta foi: “um Sócrates louco.”[2] Veremos por quê.

            Diógenes de Sinope, o cínico (c.400 – c.325 a.C.), viveu uma vida de total desdém às convenções sociais de seu tempo. Algumas peculiaridades de sua vida são descritas por seu homônimo Diógenes Laércio em Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. Este nos conta de Diógenes que seu traje era uma túnica, um alforje e um bastão. Era extremamente pobre e dependente das esmolas e benemerência de seus compatriotas. “Em certa ocasião – diz-nos Laércio – Diógenes escreveu a alguém pedindo-lhe para arranjar uma pequena casa; em face da demora dessa pessoa ele passou a morar num tonel existente no Metrôon, de acordo com suas próprias afirmações em suas cartas.”[3]

Conta, ainda, Teôfrastos no seu Megárico que “certa vez Diógenes, vendo um rato correr de um lado para o outro, sem destino, sem procurar um lugar para dormir, sem medo das trevas e não querendo nada do que se considera desejável, descobriu um remédio para suas dificuldades.”[4]

Sem dúvida, Diógenes era um homem de se admirar por suas tiradas e estilo de vida. Não obstante, o povo de Atenas o amava. “Tanto era assim que quando um rapaz lhe quebrou o tonel os atenienses surraram o rapaz e deram outro tonel a Diógenes.”[5] Com efeito, o próprio filósofo “dizia que todas as maldições da tragédia haviam caído sobre ele e de qualquer modo era um homem ‘sem cidade, sem lar, banido da pátria, mendigo, errante, na busca diuturna de um pedaço de pão.”[6]

            Ademais, Laércio diz que o cínico Diógenes “no verão rolava sobre a areia quente, enquanto no inverno abraçava as estátuas cobertas de neve querendo por todos os meios acostumar-se às dificuldades.”[7] Em meio a um estilo de vida que parecerá ao homem moderno uma desgraça, foi Diógenes um homem livre e admirado no seu tempo.

            Em suma, viveu uma vida de disciplina e aversão aos prazeres mundanos. Em seu tempo foi um zombador social; viveu isolado e resignadamente sem casa e dinheiro, portanto pobre e sem teto. Seus bens mais valiosos eram o tonel onde morava, um alforje e sua lanterna, usada para “procurar um homem justo no mundo”.

Sabe-se que quando Alexandre, o grande, ao se encontrar[8] com Diógenes na ocasião de seu banho de sol, teria dito o imperador ao filósofo: “Não sabes quem sou?” Ao ser ignorado, Alexandre emendou: “Sou Alexandre, o grande. Pede-me, agora, o que queres”. Diógenes respondeu: “Devolva o meu sol”. Por fim murmurou o imperador: “Se eu não fosse Alexandre, queria ser Diógenes”.

            Outras curiosidades[9] sobre Diógenes:

            - Quando foi capturado e posto à venda como escravo perguntaram-lhe o que sabia fazer, “Comandar homens”, disse ele, e deu ordens ao leiloeiro para chamá-lo no caso de alguém querer comprar um senhor.

            - Certa vez Diógenes gritou: “Atenção homens!”, e quando muita gente acorreu, ele brandiu o seu bastão dizendo: “Chamei homens, e não canalhas!”
           
- Platão definira o homem como um animal bípede, sem asas, e recebeu aplausos; Diógenes depenou um galo e o levou ao local das aulas, exclamando: “Eis o homem de Platão!”

            - A alguém que lhe perguntou a que horas devia almoçar, sua resposta foi: “Se fores rico, quando quiseres; se fores pobre, quando puderes.”

            - A alguns jovens que o cercavam e diziam: “Cuidado para que não nos morda!”, ele falou: “Um cão não come acelga.”

            - A certa pessoa que considerava Calistenes feliz porque desfrutava do esplendor do séquito de Alexandre, o Grande, ele ponderou: “Calistenes é sem dúvida infeliz, pois almoça e janta quando Alexandre tem vontade.”

            - Em certa ocasião, quando se masturbava em plena praça do mercado, disse: “Seria bom se, esfregando também o estômago, a fome passasse!”

            - Quando alguém o reprovou por seu exílio sua resposta foi: “Mas me dediquei à filosofia por causa disso, infeliz!”

            - Em certa ocasião pediu uma esmola a uma estátua; a alguém que lhe perguntou a razão do pedido o filósofo explicou: “Para habituar-me a pedir em vão.”
            - A alguém que lhe disse: “Muita gente ri de ti”, sua resposta foi: “Mas eu não rio de mim mesmo.”

            Outras narrativas há sobre as tiradas e ditos do cínico Diógenes. Qualquer semelhança entre Sócrates louco e Diógenes é mera coincidência. Será?

           
BIBLIOGRAFIA
LAÊRTIOS, Diógenes. Vida e doutrina dos filósofos ilustres. Trad. Mário da Gama Kury. 2 ed. Brasília: Editora UNB, 2008



[1] Professor de Filosofia na rede pública do DF. Bacharelando em Direito. Autor de vários artigos nas áreas da Filosofia e do Direito.

[2] Cf. Diogenes Laércio. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres, p. 165
[3] Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres, p. 158
[4] Apud. LAÉRCIO, Diógenes. Op cit. loc.cit.
[5] LAÉRCIO, Diógenes. Ibidem, p. 163
[6] Idem, ibidem, p. 161
[7] Idem, p. 158
[8] Diógenes Laércio dá detalhes desse encontro e, ainda, conta-nos: “Em certa ocasião Alexandre, o Grande, ficou à sua frente e perguntou-lhe: “Não me temes?” Sua resposta foi: “Que és tu ? Um bem ou um mal?” Alexandre respondeu: “Um bem.” Então Diógenes concluiu: “E quem teme um bem?”
[9] Cf. Diogenes Laércio. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres.

Imagem http://harrynasaladejustica.blogspot.com/2009/11/diogenes-e-como-acabar-com-fome.html

***Agradeço pela oportunidade de  publicar mais um excelente texto, de autoria do Professor e Filósofo José Fernandes P. Júnior.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Dia Mundial da Filosofia no Loucuras Filosóficas do Alexandrelli - JustTV - 19 11 09

No décimo quarto programa no dia 19 de Novembro de 2009, Paulo Ghiraldelli Jr e Alexandrelli debatem a importância da filosofia e em que ela consiste. Você realmente sabe o que é filosofia? Por que ainda filosofamos? Confira:
Assista TV pela internet, http://www.justtv.com.br. Fabio Alexandrelli apresenta o filósofo Paulo Ghiraldelli Jr., O Filósofo da Cidade de São Paulo e ambos discutem sobre diversos temas filosóficos. Seus neurônios nunca mais farão sinapses da mesma cor. Na Just TV: http://www.justtv.com.br (direto online no seu PC) . Programa transmitido ao vivo todas as quintas às 19h. Programa exibido dia 19/11/09 Powered By http://www.Goorila.com.br
Acesse e participe da Rede Social do Filósofo Professor Paulo Ghiraldelli Jr.
Rede: http://ghiraldelli.ning.com
Portal: http://filosofia.pro.br
Blog: http://ghiraldelli.pro.br
Twitter: http://twitter.com/ghiraldelli

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Sócrates - O mestre em busca da verdade

Para o pensador grego, só voltando-se para seu interior o homem chega à sabedoria e se realiza como pessoa

Márcio Ferrari (novaescola@atleitor.com.br)

Foto: Araldo de Luca/Corbis
Foto: Araldo de Luca/Corbis

O pensamento do filósofo grego Sócrates (469-399 a.C.) marca uma reviravolta na história humana. Até então, a filosofia procurava explicar o mundo baseada na observação das forças da natureza. Com Sócrates, o ser humano voltou-se para si mesmo. Como diria mais tarde o pensador romano Cícero, coube ao grego "trazer a filosofia do céu para a terra" e concentrá-la no homem e em sua alma (em grego, a psique). A preocupação de Sócrates era levar as pessoas, por meio do autoconhecimento, à sabedoria e à prática do bem. Nessa empreitada de colocar a filosofia a serviço da formação do ser humano, Sócrates não estava sozinho. Pensadores sofistas, os educadores profissionais da época, igualmente se voltavam para o homem, mas com um objetivo mais imediato: formar as elites dirigentes. Isso significava transmitir aos jovens não o valor e o método da investigação, mas um saber enciclopédico, além de desenvolver sua eloqüência, que era a principal habilidade esperada de um político. Sócrates concebia o homem como um composto de dois princípios, alma (ou espírito) e corpo. De seu pensamento surgiram duas vertentes da filosofia que, em linhas gerais, podem ser consideradas como as grandes tendências do pensamento ocidental. Uma é a idealista, que partiu de Platão (427-347 a.C.), seguidor de Sócrates. Ao distinguir o mundo concreto do mundo das idéias, deu a estas status de realidade; e a outra é a realista, partindo de Aristóteles (384-322 a.C.), discípulo de Platão que submeteu as idéias, às quais se chega pelo espírito, ao mundo real.

Biografia

Sócrates nasceu em Atenas por volta de 469 a.C. Adquiriu a cultura tradicional dos jovens atenienses, aprendendo música, ginástica e gramática. Lutou nas guerras contra Esparta (432 a.C.) e Tebas (424 a.C.). Durante o apogeu de Atenas, onde se instalou a primeira democracia da história, conviveu com intelectuais, artistas, aristocratas e políticos. Convenceu-se de sua missão de mestre por volta dos 38 anos, depois que seu amigo Querofonte, em visita ao templo de Apolo, em Delfos, ouviu do oráculo que Sócrates era "o mais sábio dos homens". Deduzindo que sua sabedoria só podia ser resultado da percepção da própria ignorância, passou a dialogar com as pessoas que se dispusessem a procurar a verdade e o bem. Em meio ao desmoronamento do império ateniense e à guerra civil interna, quando já era septuagenário, Sócrates foi acusado de desrespeitar os deuses do Estado e de corromper os jovens. Julgado e condenado à morte por envenenamento, ele se recusou a fugir ou a renegar suas convicções para salvar a vida. Ingeriu cicuta e morreu rodeado por seus amigos, em 399 a.C.

Ensino pelo diálogo Nas palavras atribuídas a Sócrates por Platão na obra Apologia de Sócrates, o filósofo ateniense considerava sua missão "andar por aí (nas ruas, praças e ginásios, que eram as escolas atenienses de atletismo), persuadindo jovens e velhos a não se preocuparem tanto, nem em primeiro lugar, com o corpo ou com a fortuna, mas antes com a perfeição da alma". Defensor do diálogo como método de educação, Sócrates considerava muito importante o contato direto com os interlocutores – o que é uma das possíveis razões para o fato de não ter deixado nenhum texto escrito. Suas idéias foram recolhidas principalmente por Platão, que as sistematizou, e por outros filósofos que conviveram com ele. Sócrates se fazia acompanhar freqüentemente por jovens, alguns pertencentes às mais ilustres e ricas famílias de Atenas. Para Sócrates, ninguém adquire a capacidade de conduzir-se, e muito menos de conduzir os demais, se não possuir a capacidade de autodomínio. Depois dele, a noção de controle pessoal se transformou em um tema central da ética e da filosofia moral. Também se formou aí o conceito de liberdade interior: livre é o homem que não se deixa escravizar pelos próprios apetites e segue os princípios que, por intermédio da educação, afloram de seu interior.

O Nascimento das idéias, segundo o filósofo

Ilustração do século 19: Sócrates como mestre do guerreiro Alcibíades. Foto: Bettmann/Corbis
Ilustração do século 19: Sócrates como mestre do guerreiro Alcibíades. Foto: Bettmann/Corbis

Sócrates comparava sua função com a profissão de sua mãe, parteira – que não dá à luz a criança, apenas auxilia a parturiente. "O diálogo socrático tinha dois momentos", diz Carlos Roberto Jamil Cury, professor aposentado da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. O primeiro corresponderia às "dores do parto", momento em que o filósofo, partindo da premissa de que nada sabia, levava o interlocutor a apresentar suas opiniões. Em seguida, fazia-o perceber as próprias contradições ou ignorância para que procedesse a uma depuração intelectual. Mas só a depuração não levava à verdade – chegar a ela constituía a segunda parte do processo. Aí, ocorria o "parto das idéias" (expresso pela palavra maiêutica), momento de reconstrução do conceito, em que o próprio interlocutor ia "polindo" as noções até chegar ao conceito verdadeiro por aproximações sucessivas. O processo de formar o indivíduo para ser cidadão e sábio devia começar pela educação do corpo, que permite controlar o físico. Já para a educação do espírito, Sócrates colocava em segundo plano os estudos científicos, por considerar que se baseavam em princípios mutáveis. Inspirado no aforismo "conhece-te a ti mesmo", do templo de Delfos, julgava mais importantes os princípios universais, porque seriam eles que conduziriam à investigação das coisas humanas.

Opondo-se ao relativismo de muitos sofistas, para os quais a verdade e a prática da virtude dependiam de circunstâncias, Sócrates valorizava acima de tudo a verdade e as virtudes – fossem elas individuais, como a coragem e a temperança, ou sociais, como a cooperação e a amizade. O pensador afirmava, no entanto, que só o conhecimento (ou seja, o saber, e não simples informações isoladas) conduz à prática da virtude em si mesma, que tem caráter uno e indivisível. Segundo Sócrates, só age erradamente quem desconhece a verdade e, por extensão, o bem. A busca do saber é o caminho para a perfeição humana, dizia, introduzindo na história do pensamento a discussão sobre a finalidade da vida. O despertar do espírito O papel do educador é, então, o de ajudar o discípulo a caminhar nesse sentido, despertando sua cooperação para que ele consiga por si próprio "iluminar" sua inteligência e sua consciência. Assim, o verdadeiro mestre não é um provedor de conhecimentos, mas alguém que desperta os espíritos. Ele deve, segundo Sócrates, admitir a reciprocidade ao exercer sua função iluminadora, permitindo que os alunos contestem seus argumentos da mesma forma que contesta os argumentos dos alunos. Para o filósofo, só a troca de idéias dá liberdade ao pensamento e a sua expressão – condições imprescindíveis para o aperfeiçoamento do ser humano.

A capital da democracia e do saber

O Partenon de Atenas: marco do apogeu da cultura clássica grega. Foto: Roger Wood/Corbis
O Partenon de Atenas: marco do apogeu da cultura clássica grega. Foto: Roger Wood/Corbis

Sob o governo de Péricles (499-429 a.C.), a cidade-estado de Atenas, vitoriosa na guerra contra os persas e enriquecida pelo comércio marítimo, tornou-se o centro cultural do mundo grego, para o qual convergiam os talentos de toda parte. Fídias, o arquiteto e escultor que dirigiu as obras do Partenon, o maior templo da Acrópole, os dramaturgos Sófocles, Ésquilo, Eurípedes e Aristófanes e o orador Demóstenes são nomes dessa época. O regime democrático ateniense – restrito aos cidadãos livres, deixando de fora estrangeiros e escravos – foi fortalecido por reformas que limitaram os poderes da burguesia rica e ampliaram os da assembléia e do júri popular. A educação artística do povo foi estimulada pela exibição de obras de arte em locais públicos e pelas representações teatrais.

Para pensar

Ao eleger o diálogo como método de investigação, Sócrates foi o primeiro filósofo a se preocupar não só com a verdade mas com o modo como se pode chegar a ela. Eis por que ele é considerado por muitos o modelo clássico de professor. Quando você prepara suas aulas, costuma levar em conta a necessidade de ajudar seus alunos a desenvolver procedimentos para que possam pensar por si mesmos?

Quer saber mais?

História da Educação na Antigüidade, Henri-Irénée Marrou, 656 págs., Ed. EPU, tel. (11) 3168-6077, 135 reais Paidéia - A Formação do Homem Grego, Werner Jaeger, 1413 págs., Ed. Martins Fontes, tel. (11) 3241-3677, 101,40 reais Sócrates, coleção Os Pensadores, Ed. Nova Cultural, tel. (11) 3039-0900 (edição esgotada) Sócrates, Rodolfo Mondolfo, Ed. Mestre Jou (edição esgotada)

Fonte: http://revistaescola.abril.com.br/historia/pratica-pedagogica/mestre-busca-verdade-423245.shtml

LinkWithin

Blog Widget by LinkWithin