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sábado, 23 de outubro de 2010

Por que eu não voto e não acredito nas eleições, por LUCAS PETRY BENDER*


“O voto é individual e secreto. A escolha é sua. Pense bem, avalie os candidatos e exerça seu direito”. Estas são as frases às quais se agarra o senso comum e também o senso institucional, como a última tábua da salvação da consciência de cada indivíduo. Os motivos pelos quais nossa consciência afunda são bem conhecidos – ou, pelo menos, por demais sentidos. O que espanta é que, em circunstâncias que se revestem da mais pura individualidade, as fraseologias como a que abrem este artigo escondam um mundo cuja força social atropela e sufoca o indivíduo.

Quem ainda acredita que há um poder de escolha individual – ou que os instrumentos democráticos são tangidos pelos indivíduos? E por que falta a coragem de enfrentar este monstruoso moinho de vento? Por outro lado, ao que corresponde então, efetivamente, o regime democrático de Estado de Direito, onde as eleições livres representam pilar fundamental?

O presidente não será ou deixará de ser eleito por causa de um voto a mais ou a menos. Ou seja, meu voto não faz diferença – embora o discurso da moralidade social não o admita. Ao contrário do que afirma o pseudo-individualismo, o voto é social, e não individual. O voto só cumpre sua função social quando inserido numa ação coletiva. Nessa perspectiva, são as massas que sustentam o Estado Democrático de Direito, e não os indivíduos. Assim, o voto será tanto mais consciente e efetivo quanto mais aglutinador de forças coletivas, se constituindo num vetor das potências sociais. Foi assim, por exemplo, que um ex-operário tornou-se presidente do Brasil. Esta é a dinâmica que deslocou as bases elitistas do Estado, quando o voto era censitário, restrito e/ou limitado, em direção à inclusão das massas na universalidade eleitoral.

Entretanto, alcançado este status, surge todo tipo de reação negativa – falta consciência de classe; o país é de mentalidade subdesenvolvida; a mídia controla e comanda a política; os políticos são corruptos; os eleitores são irresponsáveis; o povo tem memória curta; o poder sempre estará com os endinheirados; eu não gosto de política; os trabalhadores estão desmotivados; o contexto histórico não é propício; as pessoas são individualistas (uma das melhores!); as massas são alienadas; etc., etc., etc. – o poço das justificativas é infinito. E, ao fim e ao cabo, volta-se ao slogan: “exerça seu direito com consciência!” – o poço da hipocrisia e da falta de coragem é infinito. Embora muitas das justificativas sejam coerentes e conseqüentes, é evidente que alguns aspectos estão sendo negligenciados. Proponho oferecer-me como modelo de análise para tornar mais nítido e franco o caráter do processo social.
Não tenho relações sociais consolidadas. Minha família despedaçou-se. Meu trabalho se justifica apenas pelo salário. Minha atividade acadêmica é frustrante porque cheia de razões retilíneas e utilitaristas. Furto-me de julgar as pessoas com que me relaciono, pois são geralmente amáveis; mas são relacionamentos débeis, e cujas perspectivas de aprofundamento não me satisfazem. Cumpre ressaltar: isto não é um desabafo, nem um lamento, nem exorcismo de demônios internos. Isto é uma realidade – nem tão desagradável quanto possa parecer –, na qual, penso, não sou o único vivente. Talvez seja mesmo um modelo social, do tipo pequeno-burguês-universitário-classe-média-branca-niilista-individualista-intelectualizado-descendente-de-colonizadores-europeus-do-sul-do-Brasil-herdeiro-de-pequenos-proprietários.

Brasil e mundo afora, devem existir outros tantos indivíduos, encaixados ou não em modelos, que tenham também relações sociais fracas – uns admitindo, outros não; uns percebendo, outros não; uns conformados, outros não. O que importa aqui é o que diz respeito à participação política, mais especificamente na via eleitoral. Sendo o voto social, é evidente que para esses indivíduos o voto não cumpre sua função. São pessoas sem qualquer influência coletiva e, geralmente, distantes das influências sociais. Por certo que não sou um átomo – basta observar que dependo de muitas forças sociais para comer, por exemplo – mas também não participo da vida de gado, sou incapaz de convencer ou de ser convencido de tal ou qual opção de voto. E – repito – voto que não se insere em determinada força social não tem qualquer sentido.

Esta é a minha própria alienação – e de outros, certamente – mas vejo que a maioria está submetida à face oposta da mesma moeda: alienação de rebanho, manipulável e suscetível (à propaganda, às lideranças, ao senso comum, à opinião do vizinho, à mídia, ao discurso técnico-científico, às pesquisas, à opinião pública!). Esta é a miséria do caráter social do voto – embora não deixe de ser exuberante a força coletiva que o anima, responsável pela trajetória formidável que universalizou o Estado Democrático de Direito.

Na raiz destas alienações sociais se encontra o caráter alienado da própria política. Na Grécia clássica, quando os habitantes da pólis começaram a escolher seus representantes para as decisões coletivas, nascia o próprio conceito de política, e com ela desenvolveu-se a democracia representativa que culmina no Estado como o conhecemos hoje – embora já tenhamos perdido de vista a antiga opção pela alienação. O voto, universal ou não, continua tendo caráter eminentemente social e alienado.

Pois se a política é a arte do exercício de poder de influência de grupos sobre a massa, por que é que continuam a convocar os indivíduos às eleições? Já não posso me calar diante dos pastores e de seus rebanhos barulhentos. Que saibam:

Primeiro, que existe de fato um fenômeno social que engendra pessoas à parte de todo e qualquer senso de identificação e ação coletivas; (resta comprovar se tal fenômeno é crescente e se tem caracteres eminentemente ligados à juventude, às novas gerações, a determinadas classes, etc.).

Segundo, que tais pessoas podem duvidar, rejeitar e combater todas as permanentes pressões sociais que tentam enquadrá-las, arrebanhá-las, seduzi-las e justificá-las em nome de bandeiras, slogans, grupos, instituições ou coletividades que fazem sentido apenas para rebanhos.

Terceiro, que, para os indivíduos, peso na consciência e apelos morais não justificam voto. Um rebanho de caprinos pode ser mais atraente do que um rebanho de bovinos, mas ainda é rebanho.
Quarto, que a resposta mais adequada ao voto compulsório é o voto nulo. Pois a condição primeira para o combate à alienação é o próprio (re)conhecimento radical de sua existência.

Previno-me contra os iluminados que votam a favor do operariado e das classes desfavorecidas; já é grandiosamente patético o histórico de oprimidos guiados por ilustrados. Que façam a revolução aqueles que realmente precisam dela, pois são os únicos imunes à fraqueza da dúvida e à certeza do auto-engano.

Ausência-de-si! Esta é a verdadeira palavra de ordem da sociedade, principalmente em tempos de eleições. Intelectuais votando em prol de operários, operários em prol de burgueses ressentidos, burgueses ressentidos em prol de ambientalistas, ambientalistas em prol de empresários, empresários em prol de cristãos, cristãos em prol de democratas, democratas em prol de trabalhadores, trabalhadores em prol de pseudo-radicais, pseudo-radicais em prol de miseráveis, miseráveis em prol deles mesmos, e eles mesmos em prol da máquina político-partidária! É a roda-viva que continua a carregar o destino pra lá, para longe de nosso primevo vigor animal repleto da liberdade transbordante que nos permite afirmar: “isso eu posso fazer sozinho”.

Os rebanhos continuarão indo bovinamente às urnas. As classes continuarão em luta. A alienação continuará com seu trabalho de feiticeira às voltas com poções mágicas. Mas os indivíduos! Estes não mais tolerarão a ilusão de um mundo pretensamente individualista; não mais calarão diante das infâmias das manadas; não mais aceitarão serem confundidos pelos supostos iguais. Indivíduos não têm direitos, mas sim um único e imenso dever: viver sem as ilusões e idealismos e falsificações que aprisionam-bestializam-santificam-padronizam-conceitualizam-absolutizam-doutrinam, ou seja, exaurem a tragédia e a beleza da vida. Ainda estamos muito longe de nos tornarmos indivíduos?

“Naquela época, meu instinto decidiu-se de maneira inexorável contra a continuação da condescendência, do seguir-aos-outros, do enganar-a-mim-mesmo. Qualquer modo de vida, as condições mais desfavoráveis, enfermidade, pobreza – tudo me parecia preferível àquela ‘ausência-de-si’ indigna à qual eu me entregara, por juventude, e na qual eu acabara ficando pendurado mais tarde por preguiça, devido ao assim chamado ‘sentimento do dever’.” (NIETZSCHE, F. Ecce Homo. Porto Alegre: L&PM, 2010, pág. 100).


* LUCAS PETRY BENDER é historiador.

Publicado: 21/10/2010 por Revista Espaço Acadêmico

Acesse a fonte:

blog da Revista Espaço Acadêmico

 

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Tempo de trapaça - Por J.R.Guzzo


"Nas demais sociedades civilizadas vale o princípio pelo qual é permitido tudo o que não é expressamente proibido em lei. No Brasil é proibido tudo o que não é expressamente permitido"

Todo cidadão que acompanha, mesmo de longe, o noticiário político seria capaz de jurar que há uma campanha eleitoral em andamento no Brasil e que diversas pessoas querem suceder ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais de 2010. Há a ministra Dilma Rousseff e o deputado Ciro Gomes, do lado do governo, o governador José Serra, pela oposição, e outros mais. Ao mesmo tempo, o público é informado diariamente de que não há nenhuma campanha eleitoral e nenhum candidato à Presidência. Os comícios não são comícios. A propaganda não é propaganda. Os candidatos não são candidatos. O que é isso tudo, então? É exatamente o que parece, mas o governo e a oposição não podem dizer que é. Podem fazer tudo. Mas não podem falar; aí já seria contra a lei, que, na sua ambiciosa lista de regras destinadas a regular tudo, marca o dia 6 de julho do ano que vem para o começo das campanhas. Como se sabe, temos leis eleitorais rigorosíssimas neste país, possivelmente as mais severas do mundo. Enquanto nas demais sociedades civilizadas vale o princípio pelo qual é permitido tudo o que não é expressamente proibido em lei, no Brasil dos tribunais eleitorais a coisa funciona ao contrário: é proibido tudo o que não é expressamente permitido. É uma surpresa, no fundo, que alguém consiga ser eleito com tanta proibição assim – e a saída para os políticos, inevitavelmente, é trapacear. É o que está acontecendo no momento.
É ruim, porque a campanha eleitoral de 2010, como tantas que vieram antes dela, começa em cima de uma falsificação por atacado da verdade. O presidente Lula, por exemplo, viaja sem parar pelo Brasil fazendo comícios e pedindo votos para quem for o candidato do governo – e ameaçando o país com a ruína se o eleitorado cometer a estupidez de preferir um outro nome. Mas ele diz que está "inspecionando obras". (Já da inspeção que a lei manda fazer, a dos tribunais de contas, o presidente vive reclamando.) E os comícios, com ônibus fretado, despesa paga pelo Erário e sorteio de casas entre a plateia? "Qualquer reunião com mais de três pessoas já é comício", diz Lula. Ou seja: o que é que se vai fazer? Afinal, o presidente da República não pode ficar trancado em casa. Se acham que é comício quando ele discursa em lugares onde há gente reunida, paciência. Quanto aos votos que pede para a ministra Dilma, nenhum problema. O presidente diz que está apenas elogiando uma grande servidora do governo – e apenas dando a opinião de que ela seria um colosso como sua sucessora. Que mal haveria nisso?
A ministra Dilma, por sua vez, faz rigorosamente tudo o que os coordenadores de campanha prescrevem para um candidato. Há tempos deixou de comparecer com regularidade ao seu local de trabalho e passou a correr de um lado para outro atrás de votos, seja em shows de música popular com o cantor Dominguinhos, seja em "fiscalização de obras" nas margens do Rio São Francisco; há pouco foi vista inaugurando um estádio de futebol em Araraquara. O que isso tudo teria a ver com as funções que é paga para exercer na Casa Civil? Do lado da oposição, a peça de teatro é estrelada pelo governador José Serra, que quer a Presidência tanto quanto qualquer um dos seus adversários, mas diz que só vai tocar no assunto no ano que vem. Serra não pode fazer campanha aberta como Lula faz; tem de se contentar com os limites impostos pelo seu cargo. Carrega a mão, por exemplo, na propaganda oficial; a última, no gênero, é a decisão da Assembleia Legislativa que autoriza o governo a fazer publicidade de suas obras em outros estados, para "promover o turismo" em São Paulo.
Registre-se, enfim, a notável contribuição do deputado Ciro Gomes, que recentemente passou a ter seu domicílio eleitoral em São Paulo, para manter aberta a possibilidade de candidatar-se ao governo paulista. Mas o deputado não mora em São Paulo; só a Justiça Eleitoral acredita nisso. Tudo o que fez foi passar quatro horas na cidade, no começo de outubro, apresentar um endereço de fantasia e assinar um papel num cartório garantindo que reside ali. Um cidadão "comum", como diria o presidente Lula, não pode ter um domicílio falso; aliás, vive tendo de provar onde mora com contas de luz, correspondência de bancos ou carnês de crediário, e se der um endereço que não é realmente o seu vai, com certeza, arrumar complicação. Já para ser candidato a presidente da República ou governador do estado não há problema nenhum.
Não se sabe, é claro, quem vai ganhar as eleições de 2010. Mas a verdade, desde já, está levando uma surra.

Fonte: Revista Veja - Edição 2136 - 28 de outubro de 2009.
Veja  a imagem em: estagio-e-trainee.blogspot.com/2008/01/fique-...

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Em meio ao tsunami da informação por Paulo Ghiraldelli Jr



Logo após a crise do PT de 2005, a professora Marilena Chauí escreveu que não era dada à prática de ler jornais.  Uma parte da juventude, já decepcionada com ela por causa da sua defesa pouco racional do PT, ficou mais inconformada ainda com tal declaração. Afinal, ela, que tanto fez na imprensa, chegando até a ter uma coluna semanal na Folha de S. Paulo, uma vez vendo a imprensa ter de malhar o PT, agia como a avestruz: cabeça enfiada no buraco, xô realidade. Era isso?
Não vou dizer que não era. É claro que Marilena estava magoada. Ninguém coloca 40 anos de sua vida em uma proposta política e, então, vendo tudo desmoronar, aceita o destino com tranqüilidade. Todavia, as pessoas esperam que o filósofo saiba enfrentar coisas assim com sabedoria. Até mesmo quem não tem uma idéia correta do que é um filósofo, quer acreditar que se trata de um intelectual que tem a mente aberta, alguém que pode mudar de idéia, pode engolir adversidades sem teimosia. Essa cobrança recaiu sobre ela. Veio então o tal “silêncio obsequioso”. Marilena se recolheu à academia e desta à aposentadoria. Uma vez no Conselho Nacional de Educação, justamente ali, onde poderia falar grosso, parou de falar.
Nas cambalhotas desses passos pouco alvissareiros, penso que Marilena acertou em alguma coisa. Atirou no que viu e acertou no que não viu. Ela acreditou que não deveria mais dar importância à imprensa porque esta estava distorcendo tudo. Acertou, mas não pelo que falou, e sim pelo que não falou.
De 2005 para cá a imprensa brasileira, especialmente os jornais impressos e as revistas, tem caminhado rapidamente na mesma direção de fragilização da imprensa mundial. A divulgação das informações via Internet demorou a ameaçar a imprensa, mas, enfim, ameaçou. A crise, agora, é sentida por todos. Os jornais não estão se agüentando nas pernas. Então, inicia-se uma transformação psicológica, às vezes não clara para os próprios jornalistas que a vivem, que segue na direção de agradar o leitor a qualquer custo. Os jornais querem agradar. Os jornalistas querem ser lidos. Querem mostrar para os chefes de redação que eles são lidos, que são importantes. Empurram para fora dos jornais e para fora de todo lugar intelectuais que eram amigos, mas que, agora, são concorrentes. Ao mesmo tempo, há uma bajulação do leitor jamais vista. Com isso, o eco do senso comum cresce absurdamente. Nasce a ditadura do senso comum sobre a imprensa e, quanto mais democracia temos – graças à Internet – mais a informação é produzida por nós mesmos para nós mesmos segundo nosso gosto mais pasteurizado. O resultado é este que vivemos: a cada dia nós temos uma dificuldade imensa de usar da imprensa para levantar elementos corretos para uma crítica de instituições ou pessoas ou governos que não são criticados pela maioria, ou pelo que se pensa que é a maioria.
A situação fica engraçada, pois até as frases que foram usadas, no passado, para atacar essa situação, são reiteradas sem mais conteúdo algum, e criam o sentido oposto. Por exemplo, quem hoje diz “a unanimidade é burra”, não diz nada. Pois exatamente quem fala isso, está dentro de uma unanimidade setorizada, que lhe dá a impressão de estar atuando de modo crítico e ousado.  O fenômeno dos blogs, twitters, podcasts e vídeos criou um mundo de jornalistas amadores que competem quase de igual para igual com os profissionais dos jornais impressos. Conquistam leitores. Trabalham de graça. Os jornalistas profissionais, desesperados, não conseguem não publicar em seus próprios blogs seus furos, pois ficam com medo de que o furo não seja furo em um prazo de segundos. Então, eles próprios solapam as bases financeiras dos jornais. A idéia trazida pela Internet é que toda notícia é gratuita para o consumidor, e que a imprensa deva ser virtual e tire seu lucro da propaganda. Sim! Mas a fase de transição para essa situação que aponta ser a correta é terrível.
Nessa fase, muitos imaginam que não irão sobreviver – e estão certos. Então, se agarram ao lema, às vezes pouco claro, mas que está virando regra: “não podemos perder o leitor”. Assim, se eu publico uma pesquisa, encomendada pelo governo, e esta pesquisa diz que Lula está com 80% de aprovação popular e, depois, tenho de publicar outra em que ele cai de aprovação, fico temeroso de publicar esta segunda, pois posso não só desagradar o governo, que paga a maior parte de minha propaganda, mas posso desagradar o leitor, que não quer que o país entre em crise e prefere acreditar que seu presidente está fazendo a coisa certa, e que vai bem. Em poucos movimentos, o eco do senso comum vai catalisando a si mesmo e, ao final, há uma total incapacidade de crítica.
Não estou dizendo a bobagem que ouvimos nos anos noventa, de que estávamos sob o tacão do “pensamento único”. Há diversidade, é claro, pois mil coisas estão acontecendo e sendo noticiadas com uma velocidade nunca vista antes, e num volume assustador. Todavia, essa diversidade, ela própria, tende a formar uma perigosa unidade momentânea de fundo conservador.
Eis como isso funciona. O volume de matérias que vai de todos para todos é imenso e a velocidade da troca é intensa, mas cada vez mais ele pode, em determinados momentos, seguir um único corredor, com um efeito de falsa mobilização. E isso até pelo fato que a análise não é mais permitida, todo mundo repassa o que recebe sempre tentando só chamar a atenção.  O caso do fora Sarney na imprensa e no twitter foi significativo disso. Sarney ficou sólido a cada dia, com apoio de Lula – era visível isso. Mas a gritaria do eleitor aumentou contra ele, uma vez que ele começou a provocar o leitor a partir de suas declarações no Senado. Ao mesmo tempo, todo e qualquer movimento de rua contra ele foi barrado, uma vez que o PT, o único partido com capacidade de mobilização de rua, aderiu à proteção de Sarney. Isso não causou revolta contra Lula, pois a Internet catalisou a raiva, mas de uma forma esquisita. Vários que votam em Lula, mesmo sabendo da preferência do Presidente pelo Senador, vieram para o lado dos que reclamaram do Senador apenas por ódio geral à política, e todos descontaram o ódio contra Sarney no twitter. Ora, isso gerou um movimento falso de oposição. Não estou dizendo que o movimento virtual é falso, o que estou contando é que, neste caso, surgiu sem conteúdo. Enquanto isso, a própria Justiça conseguiu calar a boca do Estadão que, por sua vez, agradeceu o fato. Pois se pudesse atacar Sarney até o final, iria acabar por bater em Lula e, então, sofreria a retaliação. Retaliação não só de Lula mesmo, que poderia tirar as estatais da jogada de alimentar a imprensa, mas retaliação do leitor. Esta última talvez viesse a ser até mais perigosa que a de Lula. Ao menos é isso que corre pela cabeça de muitos dos jornalistas.
Pode ser que este fenômeno que estou descrevendo aqui não dure muito. Pode ser quer a própria Internet, daqui a pouco, mostre que ela tem caminhos de liberdade que não estamos sabendo usar no sentido de mudanças substanciais, e não da reiteração do senso comum que estamos vivendo. Mas, no momento, especialmente no Brasil, o que estamos vivendo é isso. Nenhum de nós que está nesta avalanche de dar e passar informações sabe se o que estamos ouvindo é algo que podemos repetir sem ferir nosso único real desejo atual, o de sobreviver na tarefa de dar e passar informações, de se fazer notar, mesmo que não sejamos profissionais da imprensa. Tudo que todos começam a desejar, em uma situação assim, é não ofender aquilo que imaginamos que é o pensamento do senso comum.
Dessa forma, uma série de questões são criticadas e comentadas, mas somente na sua superfície. Ninguém quer aprofundar nada. A autocensura, essa figura que parecia que não mais iria estar entre nós, voltou. Não temos medo do tal “censor da ditadura”, que não existe mais, temos medo de nós mesmos, de falarmos algo que não condiz com a psicologia cordial que se instaurou no meio intelectual. Todos nós queremos ser conscientes, críticos, mas cordiais. Não queremos nos inviabilizar perante o comprador de nosso produto, o texto. Assim é que estão funcionando os jornais impressos, e também a TV. Aliás, parte da academia já havia aderido a isso há algum tempo. O poder de fogo do blogs, de reiteração do senso comum, faz os jornalistas não afrontarem mais ninguém. Jornalistas de esquerda e de direita chegam a um acordo tácito. Eles só podem falar na medida em que não contrariam seus públicos cativos. E eles estão confusos em saber qual o seu público cativo. Tornam-se conservadores em costumes na medida em que disputam com os blogs a preferência do leitor. Pois os blogs, na sua maior parte, representam a emergência dos escolarizados não politicamente engajados. Eles representam uma classe média conservadora em costumes que, enfim, sempre odiou ter de ir para a rua ou para os partidos para ter de mudar as coisas. Os jornalistas acreditam que estão perdendo para essa gente, e então, passam a reiterar o que dizem os blogs. O senso comum se amplia assustadoramente com essa alimentação de dupla mão.
Dessa forma, o que ocorre entre nós é um movimento quase que inverso do que se deu com o “fenômeno Obama”. Nos Estados Unidos, os não participativos viram nos blogs, vídeos e similares a sua chance de terem “um novo partido” que, enfim, atropelou pela esquerda o Partido Democrata e o Partido Republicano. No Brasil, não sei se podemos falar do mesmo fenômeno, vindo da direita. Mas, ao menos no momento, podemos falar de um fenômeno parecido, mas no sentido do conservadorismo moral, tanto na direita quanto na esquerda.  Isso está levando de roldão os jornalistas, mesmo os mais atentos, mesmo os que se achavam sabidos e autoconscientes. Cada profissional da escrita está tentando esticar o braço e dizer “eu estou aqui, aqui ó”.
Ainda que esse movimento possa, em alguns momentos, ser menos conservador que agora, o fato é que tudo vai se tornar mais aguerrido logo. Pois junto com a imprensa jornalística também o livro vai se modificar muito, uma vez que aquele que seria o potencial leitor logo estará cativo de programas de TV em canais online dirigidos a um público diminuto e específico. Este público seria o leitor do livro daquele intelectual que, neste futuro próximo, estará dirigindo o programa de TV.  Isso nós vamos assistir ainda neste final de década.


© Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo


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domingo, 27 de setembro de 2009

Loucuras Filosóficas do Alexandrelli - Programa Sobre Maquiavel - 17/09/09

Assista TV pela internet, http://www.justtv.com.br.

Loucuras Filosóficas do Alexandrelli Fabio Alexandrelli apresenta o filósofo Paulo Ghiraldelli Jr., O Filósofo da Cidade de São Paulo e ambos discutem sobre diversos temas filosóficos. Seus neurônios nunca mais farão sinapses da mesma cor.

Na Just TV: http://www.justtv.com.br (direto online no seu PC) Programa transmitido ao vivo todas as quintas ás 19h.

Programa exibido dia 17/09/09

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Fonte:http://www.youtube.com/watch?v=qVKnZIkvqoM

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

A Arte de palavrear

Artifício bastante usado nos discursos políticos, a retórica é um dos instrumentos centrais na estratégia de argumentação. Dentro do pensamento filosófico, Aristóteles estabeleceu os conceitos fundamentais para convencer, persuadir e emocionar.

por Isabella Meneses*

Talvez isso possa parecer um tanto difícil, mas pense em um político que você, leitor, julga ser habilidoso. Ok, pense no que o torna hábil: é sua capacidade de descobrir o que determinada população precisa? Ou seria a capacidade de propor soluções pertinentes e, de fato, resolver esses problemas? Agora, pense em como esse político, essa figura pública, atinge os seus eleitores, como ele chega até essas pessoas. Em que pesem as novas tendências do marketing político e os últimos avanços tecnológicos, esse político - velho ou moço, homem ou mulher, caucasiano ou afrodescendente - consegue alcançar o seu alvo com algo tão simples quanto elementar: os políticos usam as palavras.

Que os políticos gostam de falar (e realmente precisam falar) todos sabem; o que poucos têm noção é que, na maioria das vezes, as palavras que são ditas nos discursos políticos não são jogadas a esmo, mas, ao contrário, exaustivamente pensadas, estudadas e ensaiadas. A essa "arte-técnica" da oratória dá-se o nome de retórica. E, diferentemente do que se imagina, a retórica não é um recurso criado pelo marketing eleitoral.

Aristóteles tem um livro que, infelizmente, não faz parte do catálogo editorial brasileiro, mas nem por isso deixa de ser fundamental. Em "Retórica", o filósofo grego analisa com precisão os elementos que constituem um discurso. A leitura do livro mostra que alguns conceitos tidos hoje como inovadores já eram analisados pelo pensador, como o fato de a retórica ser dividida em três tipos: a política (ou deliberativa); a forense (ou legal); e o epidíctico (ou a oratória que censura ou louva um determinado elemento, aspecto, personagem).

No caso da retórica deliberativa, Aristóteles teoriza que a maneira mais importante e efetiva para obter sucesso em persuadir o eleitorado e dissertar sobre as coisas públicas é entender profundamente as formas de governo, assim como seus costumes, suas instituições e seus interesses. Isso porque, argumenta Aristóteles, "os homens são convencidos por considerações de seus interesses; e seu interesse está baseado na manutenção da ordem estabelecida".

Nelson Rodrigues se referia àqueles cuja capacidade retórica era superlativa como "homem-discurso". No caso, o jornalista se referia ao também jornalista e político Carlos Lacerda, um dos principais algozes do então presidente Getúlio Vargas. Lacerda - ou Corvo, como era conhecido - era dotado de uma verve tão apaixonada quanto inflamada não apenas ao falar, mas também ao escrever. Não por acaso, uma de suas biografias se chama "O demolidor de presidentes".

A discussão mais comum, hoje em dia, gira em torno da chamada retórica de Perelman, que tirou seus exemplos de discursos filosóficos e políticos, entre outros. Devido a isso ele assume o caráter de convencimento que a retórica proporciona aos discursos dos oradores. "Eu diria que a retórica se configura por um conjunto de estratégias linguísticas que visam à persuasão por meio da comoção", opina a professora e doutoranda em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Suzana Leite Cortez. João Bôsco Cabral dos Santos, doutor em Estudos Linguísticos pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), explica melhor: "o orador chama atenção construindo uma imagem que espelhe aquilo que seus ouvintes gostariam de ouvir. A gesticulação e a forma como se aproxima, toca e fala com as pessoas têm que estar em sintonia com a forma como as palavras são ditas e como esse orador direciona seu olhar". Para João Bôsco dos Santos, "nos dizeres políticos é preciso falar o que o outro quer ouvir de si, como se fosse o outro dizendo para si mesmo".

No maior dos dicionários da língua portuguesa, o Houaiss (Ed. Objetiva), a palavra "retórica" recebe significado de: "1. a arte da eloquência, a arte de bem argumentar; 2. emprego de procedimentos enfáticos e pomposos para persuadir ou por exibição; discurso bombástico, enfático, ornamentado e vazio; 3. discussão inútil; debate em torno de coisas vãs" - sendo os dois últimos indicados como de uso pejorativo.

Se todos esses significados, para o bem ou para o mal, fazem parte da política, fica fácil dizer que a "retórica é intrínseca à arte da política". E essas são as palavras do professor e doutor em História Econômica, Fábio Duarte Joly, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Segundo Joly, "sendo a política um exercício do convencimento com o intuito a se chegar a um consenso, a retórica joga nela um papel fundamental".

O eleito

Quanto a esse último item, como não pensar no presidente dos Estados Unidos, eleito no fim de 2008, Barack Obama? "Yes, we can" foi o mote que fez história, que realmente moveu multidões às urnas. "Ele sensibilizou seus eleitores, utilizando o que denominamos uma retórica da redenção redimida: creiam-me, erramos, mas somos fortes, os melhores, sempre", sentencia Bôsco. Já para o cronista português, José Manuel dos Santos, ouvir Obama "é voltar a ler a Retórica de Aristóteles. Ele convence porque argumenta (logos ), porque emociona (pathos ) e porque há um 'eu' que diz 'vós' e é reconhecido (ethos )".

A parceria entre Obama e seu jovem redator de discursos de 27 anos, Jon Favreau, certamente funcionou melhor do que o esperado. Favs, como é conhecido, tornou-se um especialista na escrita do próprio presidente e entre os discursos deste escondem-se inúmeras palavras redigidas ou editadas pelo chamado prodígio.

Preparando um discurso

A preparação de um discurso requer inúmeros cuidados, principalmente porque suas variações dependerão dos resultados que o orador pretende obter e do público ao qual ele irá se dirigir, como adverte Joly. "A emoção, a necessidade de tocar fundo os atos humanos, é uma característica marcante", enumera Cortez.

Mesmo com essas subjetividades, de acordo com Bôsco, é possível elaborar uma lista das principais características de um discurso retórico, que deve:

* Remeter a uma crença das pessoas do auditório; * Fabular imagens de realização de quem o escuta; * Conter dizeres que enganam porque persuadem por sua verossimilhança com um real possível; * Produzir efeitos de espelhamento do outro naquele que escuta; * Legitimar memórias, desejos imaginários, valores de verdade; * Fomentar a capacidade de um ser de sentir-se realizado; * Conter dizeres que deixam escapar vestígios da imaginação de quem ouve, que revelam seus saberes; * Provocar no ouvinte sensações de poder.

Divulgação Ricardo Stuckert/Abr

A propósito, muito se fala em torno das habilidades oratórias do presidente dos EUA, mas esquece-se de que o Brasil tem um presidente - considerado por alguns um demagogo - que também tem o dom da palavra. Nesse caso, ficam claras, portanto, as diferentes maneiras de se apoderar da retórica. Em seus discursos, o presidente Lula se preocupa em utilizar um recurso que, na opinião de Bôsco, é voltado para conquistar os que fazem questão de rejeitá-lo, mas só consegue aumentar o apreço dos que o amam e "fomenta, ainda mais, o recalque de uma sociedade de uma social democracia falida, calcada na força disciplinarizante de instituições reguladoras", brada o professor. À sua maneira, Cortez prefere indicar o uso de expressões populares, "como uma forma de estar mais próximo do grande público".

Usar ou não usar? Eis a questão

Duas coisas podem acontecer àqueles que decidem realmente usar a arte de bem argumentar em seus dizeres. Podem receber grandes elogios sobre as performances utilizadas ou pelas belas e sábias palavras - mas, nesse caso, o elogio seria mais bem aplicado se dirigido aos ghost writers por trás dos discursos -, ou críticas ferrenhas atacando-os, acusando-os de fazer logomaquias por meio de happenings bizarros a e exagerados que transformam a política, por exemplo, em uma técnica para única e exclusivamente conquistar o poder. "A retórica desprovida de qualquer estudo científico é comumente vista como discurso 'floreado'. Daí podemos falar em algo pejorativo", arrisca Cortez. Como foi dito anteriormente por Joly - que também é o organizador da obra "História e Retórica: ensaios sobre historiografia antiga" (Ed. Alameda) -, Bôsco concorda que a retórica sempre fez parte da política e afirma que "a política sempre foi constituinte, constitutiva e constituída pela retórica".

"O ser humano sempre teve necessidade de fazer valer suas opiniões", completa Cortez, que coloca, além disso, que o uso da retórica tem bases culturais e se diferencia conforme mudam as habilidades de orador para orador e os entornos sociais. O que difere seu uso atual com o de tempos anteriores é que hoje ela funciona como um ponto de tensão "da competição entre marqueteiros", indica Bôsco. "Outrora a retórica era sempre apagada dos dizeres políticos porque soava como dizeres de uma égide proselitista, demagógica", ele compara. Atualmente, é como se os oradores fizessem parte de um "campeonato de força ilocucionária". A professora Suzana discorda dessa mudança. Para ela, são os "sujeitos que fazem parte da política" que podem mudar as formas de discursar, e não o contrário.

Do fim ao princípio

De volta ao político imaginado no início deste texto, é preciso saber que ele está sujeito aos desvios que a sensação do poder pode proporcionar. Todavia, se ele é lembrado por suas habilidades oratórias, isso pode ser considerado algo bom. Retornando às palavras do cronista português, "a reanimação de um verbo político inanimado é o início de um início. Porque a dignidade da política começa na dignidade da palavra que a diz".

Para Joly, mesmo que o senso comum ligue retórica à enganação, se as pessoas souberem avaliar os discursos políticos tendo em vista sua construção retórica, elas terão meios suficientes para analisar melhor um determinado político. Dessa forma, torna-se óbvio dizer que a retórica por si só não é boa ou má. Bons ou maus são aqueles que se utilizam dessa arte com, ou sem, suas próprias noções de integridade.

*Isabella Meneses é jornalista e colaboradora de Conhecimento Prático FILOSOFIA

Fotos: Divulgação

Marketing Político Carreira levada ao ápice ao longo da década de 1990, o marketing político já é de conhecimento mesmo do público que não é militante. Além disso, no entanto, há os bastidores. No filme "Recontagem", protagonizado por Kevin Spacey, a alta cúpula decide com ações de marketing de guerrilha quais são as estratégias que devem ser tomadas para vencer as eleições para a presidência em 2000.

Perelman Filósofo do direito, o polonês Chaim Perelman (foto acima) observou que as áreas da Filosofia, do Direito e da História se estabeleciam utilizando a retórica como instrumento elementar. No site do Programa Especial de Treinamento em Ciências Jurídicas, há mais informações a respeito. Disponível em: http:// www.puc-rio.br/sobrepuc/ depto/direito/pet_jur/ c1mmeyer.html

Logos, Ethos, Pathos Logos, Ethos e Pathos são as três principais formas de persuadir a audiência/ público/leitores. Logos é o apelo utilizado à razão; pathos é o voltado às emoções; e ethos é aquele calcado na reputação de quem se pronuncia.

Happenings bizarros Entre acontecimentos dignos de nota vale a pena recordar a performance do ex-deputado federal Roberto Jefferson durante um depoimento na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o escândalo dos correios. Naquela ocasião, o político atraiu a atenção usando artimanhas específicas de retórica, como se vê no link a seguir: http://www.youtube. com/watch?v= OkhaxJOI5Ss&NR=1

Entornos sociais Os artifícios da retórica necessitam respeitar o contexto da audiência. De nada adianta, por exemplo, apresentar uma fala rebuscada para um público que não partilha do mesmo código de compreensão de quem transmite a mensagem. Nesse sentido, cabe ao político - caso se trate de um político - analisar se as metáforas cabem e se serão bem aceitas dentro daquele cenário. Talvez por esse motivo, a mensagem central é sempre a mais simples. Tome-se como exemplo o fato de Lula e Barack Obama terem feito uso, em 2002 e 2008 respectivamente, menção à ideia de "mudança".

Fonte: http://filosofia.uol.com.br/filosofia/ideologia-sabedoria/17/a-arte-de-palavrear-artificio-bastante-usado-nos-discursos-133499-1.asp

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Charges que nos levam a pensar...Geraldo Fernandes - Passo Fundo - RS

As charges são de Geraldo Fernandes, e estão no "Chargeonlie" como Geraldo PassoFundo. E como Geraldo Fernandes, no Jornal "O Nacional" de Passo Fundo - RS. Charges que nos levam a pensar... ...e a filosofia? Fonte: Fonte: Geraldo Passo Fundo e-mail: geraldopassofundo@terra.com.br

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Ética e Política

A ética é uma das grandes áreas em que se divide o pensar do ser humano desde os primórdios da filosofia, na Grécia Antiga. E desde essa origem a ética teve e tem uma íntima ligação com a política, chegando mesmo a uma quase identificação naquele momento da Antiguidade. É que ética é um conceito eminentemente ligado ao colectivo (ao social) seja esse colectivo a corporação (o caso das éticas profissionais), a nação ou a humanidade (onde se colocam todas as questões dos direitos humanos). Assim é que a filosofia política foi sempre tratada dentro do grande capítulo da ética que, com a física (e a metafísica) e a lógica, compunham o quadro geral da filosofia na Antiguidade.

O conceito de ética é também algo estreitamento vinculado ao sentimento dos povos, ao seu modo de viver e aos seus costumes, como indica a raiz grega da palavra (ethos), e tem naturalmente evoluído no seu conteúdo, como evoluem esses costumes ao longo do tempo e da história. As éticas de hoje são em vários aspectos profundamente diferentes das antigas, e a forma de encarar a escravidão é provavelmente o exemplo mais evidente dessas diferenças que abrangem muitos outros aspectos relevantes. Os antigos não conheciam, por exemplo, nenhuma ética da humanidade e um dos seus princípios de virtude era o de fazer o mal aos povos inimigos.

Quanto à política, a sua ideia desdobra-se em dois conceitos diferentes que convivem quotidianamente na opinião dos cidadãos e na motivação da acção dos políticos: um é o de que a política, a mais nobre das ocupações humanas, é o empenho na realização do bem comum, do bem da colectividade ao qual se aplica como a um propósito final; é a concepção de Platão e de Aristóteles, dos filósofos gregos que a explicitaram na sua polémica de afirmação da filosofia (que se confundia para eles com a política), contra o pragmatismo dos sofistas e dos retóricos que ensinavam a linguagem eficaz para o manejo das assembleias e das funções políticas. O outro é o de que a política é a arte e a sabedoria de conquistar e de manter estável o poder; o fazer o bem, nesta visão, não é propriamente um fim, mas um meio de ganhar o apoio dos cidadãos para a conservação e a estabilização do poder, empregado em paralelo com outros meios também válidos, como o marketing, o controle dos media, o clientelismo, o populismo e até mesmo a mentira, a violência e a corrupção. Este é o conceito derivado das interpretações mais correntes dos conselhos de Maquiavel e é o que melhor se enquadra nas concepções da ciência política moderna, entendida a ciência como conhecimento neutro, isto é, destacado de qualquer consideração de natureza ética.

Relações de Conflito

Um primeiro campo de relacionamento, que tem sempre suscitado mais interesse nas especulações e nos debates que se travam sobre o tema, é o dos conflitos entre os principias da ética e a realidade da política.

Assim, ética e política sempre tiveram uma intensa relação dialéctica de conflito, na convivência, variando os termos e os temas desse confronto. Entre esses temas, sempre se ressaltou o da mentira política, como uma espécie de agressão mais aceitável aos princípios morais. Platão, por exemplo, dava aos médicos e aos políticos o direito ao uso da "mentira útil", aquela capaz de agir como um fármaco sobre os indivíduos e sobre a Pólis em estado de doença. Modernamente, a polémica da mentira e da verdade tem-se situado em torno do conceito da "razão de Estado" que se originou nas relações de diplomacia entre os Estados monárquicos e se estendeu às relações governantes-súbditos, significando projectos e informações que tinham de ser mantidos em segredo nos círculos mais íntimos do poder.

A dialéctica da política com a mentira tem ainda outras áreas de contacto, a actividade política necessariamente tem uma dimensão que é o "fazer imagem", construir e cultivar a imagem do líder, a imagem do candidato, a imagem do partido, algo que fácil e correctamente escorrega para o "forjar a imagem", com o sentido de forçar os limites da verdade, e se confunde frequentemente com a impostura e a mentira útil para o forjador. É sabido que a política lida muito com "versões", e não tanto com verdades científicas, cujo estabelecimento é missão da história, com seus métodos e sua perspectiva de tempo.

O entendimento que compatibiliza esses conflitos da ética com a política é o de que ambos os conceitos têm tudo a ver com a vida humana, com o Ser do homem em sociedade, e este Ser recusa qualquer tipo de enclausuramento dentro de princípios absolutamente rígidos. Se a moral, no âmbito do indivíduo, admite margens de flexibilidade no que respeita aos seus princípios, a ética, que preside as acções na perspectiva da colectividade, invoca tantas vezes a razão, atributo essencial desse Ser, a fim de validar margens de tolerância para as acções políticas, sem que tenha de renunciar ou abrir mão de seus princípios, simplesmente flexibilizando-os. (Texto Adaptado)

http://www.cfm.org.br/bancotxt/des_etic/3.htm

Fonte: http://www.espanto.info/f10ner/f21.htm

Confira as charges da Zero Hora - RS.

Charges da Zero Hora - Nº16005 - 19 de junho de 2009. Charges de Marco Aurélio e Iotti.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Será que a política perdeu o sentido? Por que não enxergamos nada?

Fonte: Jornal Zero Hora - nº16001 - 15 de junho de 2009 - Marco Aurélio.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

UMA QUESTÃO DE ÉTICA!

Ao ver Lula defendendo seu filho que recebeu R$ 5 milhões de reais da TELEMAR para tocar sua empresa, Elio Gáspari publicou essa história buscada no fundo do baú:

Em 1966, o presidente Castello Branco leu nos jornais que seu irmão, funcionário e com cargo na Receita Federal, ganhara um carro Aero-Willys, agradecimento dos colegas funcionários pela ajuda que dera na lei que organizava a carreira...

O presidente telefonou para o irmão mandando ele devolver o carro. O irmão argumentou que se devolvesse ficava desmoralizado em seu cargo. O presidente Castelo Branco interrompeu-o: "Meu irmão, afastado do cargo você já está. Estou decidindo agora se você vai preso ou não". "E o Lula ainda sonha que não existe ninguém nesse país com mais moral e ética que ele".

Élio Gáspari

Recebi por e-mail do colega Professor Paulo.

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