domingo, 19 de abril de 2009

Triturar Mitos

Uma das funções da verdade, desde os filósofos gregos, é triturar mitos, não com o simples objectivo de os triturar, mas porque quando colocamos os miolos a pensar, duas ideias juntas nos fazem perceber a irracionalidade dos mitos. Ora o mito tem muitas expressões e uma das expressões do mito é a ideia feita ou preconceito. E, na filosofia, não cabem argumentos como “ah, ok, temos preconceitos, mas quem não os tem?” para legitimar o facto de sermos preconceituosos. Em filosofia pensamos e se é preconceito revemos as nossas posições. Como? Argumentando.
Rolando Almeida
É precisamente esse o efeito da discussão pública em filosofia. Isto vem a propósito de um comentário que tenho ouvido e lido as vezes suficientes para escrever aqui qualquer coisa para desmascarar o que me parece claramente falso. O comentário consiste no seguinte: “Não gosto do manual X porque vem com tese-argumento-tese, porque privilegia autores anglo saxões, porque é analítico e porque é complicado para os alunos. Mas gosto do manual do Y (que é, no entanto, um manual concebido com os mesmos ingredientes)”. Isto parece-me irresponsável, porque os manuais são muito próximos no tratamento que dão à filosofia e acontece que as razões invocadas para não gostar do manual X teriam de ser as mesmas para aplicar ao Y. Isto faz-me lembrar uma velha história que assisti algumas vezes na vila nortenha onde nasci e cresci: divertia-me a ver num café próximo de casa, um vendedor de cerveja a trocar o rótulo das garrafas para que o cliente pensasse que estava a beber a cerveja X quando estava era a beber a cerveja Y. E porquê? Porque os clientes tinham a mania que a cerveja Y era muito mais fraca que a X. Mas o vendedor vendia-lhes a cerveja Y com o rótulo da X (por essa razão tinha sempre as cervejas numa bacia de água para remover o rótulo com facilidade) e assim os clientes já gostavam. Este exemplo que assisti ainda pequenino revelou-me que aqueles clientes bebiam rótulos e não cerveja, porque ambas as cervejas eram muito boas, tão boas que nem se distinguiam a um bebedor comum. E este argumento de “odeio X, mas bom é Y” também me parece uma questão de rótulo e nada mais. E com isto não estou sequer a afirmar que os manuais se copiam ou são iguais, longe disso.
O que estou a afirmar é que neste argumento, existe uma boa dose de resistência mitológica e irracional.
Curiosamente pensa-se que existe muita metafísica na concepção de manuais. Os manuais não têm de ser originais, cheios de macacada pelo meio para os animar. Os manuais tem de ser isentos e rigorosos e expor as ideias centrais da filosofia de forma estimulante para o aluno e pela base. Um critério que deve presidir a escolha de manuais é a clareza de linguagem com que se expõem os problemas. Mas não se confunda clareza com fugir da filosofia para falar de historietas aos estudantes. Clareza é explicar Kant ao aluno, sem fugir dos seus argumentos centrais, e numa linguagem clara. Quem disse que isto era fácil? Estimular é usar o que Kant defendeu para pôr o estudante a pensar. Fonte: http://rolandoa.blogs.sapo.pt/90605.html#cutid1

Um comentário:

Ademar Oliveira de Lima disse...

Estive por aqui bebendo um poucode filosofia no seu blog!

"Quem disse que isto era fácil?"

Nada é fácil quando não se tem vontade, eu diria que mesmo com vontade não o é, porém torna-se prazeiroso!!!
Abraço Ademar!!!

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