sábado, 10 de abril de 2010

No afã de exisitir, por Anna Veronica Mautner

Uma reflexão sobre a premência pela superexposição:A dinâmica do ver e ser visto para poder sobreviver.
Será que os reality shows são mesmo shows e a realidade é real mesmo? A ideia dos idealizadores do gênero é fazer com que ocorra uma vivência de integração social diante de um imenso público, em geral de telespectadores. Um grande número de câmeras observa, grava, filma os que participam da experiência: pessoas escolhidas pelos organizadores. O cenário é desconhecido de todos. As regras e os limites da experiência são comuns a todos. Até entrarem na “casa”, não se conhecem, isto é, não levam sua história, mas apenas sua forma de se comportar. Um dos cuidados que os organizadores costumam ter é o de tornar o grupo representativo no que diz respeito à diversidade dos papéis sociais. Afinal, é da interação das diversidades que se constroem as sociedades. Uma vez ligadas as câmeras, tem início a vivência do espetáculo. De um lado, estão os que vão viver em público; do outro, os igualmente voluntários espectadores. A atração ocorre em tempo real. A gravação não tem nada de policialesco e nem vai para a delegacia de costumes. Se bem que os espectadores podem vivenciar algo parecido com espiar a vida alheia. Não é xeretice porque é propositadamente exposto. Tanto os participantes sabem que estão sendo observados quanto quem os observa sabe que não está fazendo nada de proibido, porque conhece as regras. Não é como espiar por baixo da saia de alguém ou por um buraco de fechadura.
Afinal, o que as mil câmeras apresentam para nós, olheiros? Parece-me que nos é oferecida a intimidade deles, por meio do acesso à sua privacidade. Tudo de comum acordo. Quando penso nessa estranha forma de intimidade que ocorre entre público e grupo observado, penso em outro fenômeno – o Twitter, no qual as pessoas oferecem a quem quiser, sem seleção, a descrição do que fazem e até do que sentem em seu dia a dia.
Essa necessidade de se expor está sem dúvida exacerbada neste século 21. Parece que só existo se estiver sendo vista. Mas por que essa pós-modernidade, na qual estamos mergulhados, exacerbou tanto a necessidade do olhar do outro? Será que é o olhar do outro que diz como estou me saindo no meu afã de existir? Será que, nos séculos passados, as pessoas recebiam feedback mais intenso e denso na relação interpessoal? Será que o fazer está tão dissociado do que sou que não mais me constitui? Existem atividades nas quais a resposta à ação feita é imediata. Por exemplo, a de bombeiro, a de médico, a de motorista de ônibus. Talvez as profissões em que o ato tem efeito imediato leve os que as exercem a se sentir vistos no fazer e, por isso, se sintam como pessoas mais facilmente. O grupo que se mostra no reality show não produz, pois não está suposto produzir, mas apenas vive para gerir sua sobrevivência no espaço considerado. Eles existem e quem os observa – nós, telespectadores – fica numa pacífica inveja desses seres que atingem milhões, e por eles são vistos, apenas por viver e sobreviver. Acompanhamos o encontro de todos no primeiro dia, o mútuo conhecimento e reconhecimento, e até como vão se despindo das armaduras sociais com que vieram e atingem uma intimidade que só pequenos grupos têm. Todo o processo de dinâmica de grupo acontece sob os olhos de mil câmeras. Podemos rever nosso primeiro dia na escola, o começo de nossos empregos, a chegada a uma colônia de férias e outras tantas circunstâncias nas quais, de repente, começamos uma nova vivência em um novo espaço, para exercício de um novo conviver. Nesse sentido, observar os reality shows pode ter caráter até terapêutico. Vejo meus acertos e erros, sabendo que estou vendo realidade, e não ficção. Um romance, uma novela se aproxima disso, mas sempre podemos racionalizar, dizendo que é da cabeça do autor. Nas novelas, assim como na literatura universal, encontramos representações simbólicas de figuras, personagens. No reality show, não: aí é de verdade. Alguns grupos são mais erotizados, outros, mais agressivos, mas sempre se forma uma intimidade. Acompanhamos todas as fases: desde o mútuo conhecimento até a despedida, cada medo, cada traição, cada saudade. Nos reality shows, vemos não uma história, mas vidas sendo vividas, o que é muito menos do que vidas sendo reproduzidas por um artista. Nos reality shows a que assistimos, não encontramos a arte, criação máxima da mente humana. Fonte: Revista Cultura

2 comentários:

Valdeir Almeida disse...

Marise,

Meu blog está em festa. Se possível, passe lá para ver.

Abração e ótimo final de semana.

Isa disse...

Visitando seu espaço, gostei.Parabéns pelo blog.

Com carinho
Isa


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