domingo, 20 de junho de 2010

KANT: uma vida para Filosofia


por José Fernandes P. Júnior[1]


                       “Se Sócrates morreu pela Filosofia, Kant viveu para ela


         Immanuel Kant viveu de 1724 a 1804. Oriundo da pequena Königsberg – Prússia, cidade que na época contava com cerca de cinquenta mil habitantes[2]. “Kant vivia uma vida como ensinava”[3], escreveu R. B. Jackmann; com isso queria insinuar que sua vida era marcada por um profundo senso moral, calcada no ambiente educacional pietista que seus pais o legara. Sua existência cumpriu o transcurso de uma vida de extrema intelectualidade, regrada pela disciplina e conduta admiráveis. Quadro bem detalhado dessa disciplina e conduta foi pintado pelo biógrafo Haine: “acordar, tomar café, escrever, jantar, caminhar, tudo tinha sua hora marcada.”[4]

            Fato bem conhecido da vida de Kant era a hora de seu passeio: pontualmente, às 15:30h, fazia sua caminhada, diariamente, sempre acompanhado de seu velho criado Lampe, que, prudentemente, conduzia um grande guarda-chuva. A respeito disso, Diané Collinson nos mostra que “numa das raras ocasiões em que atrasou na sua caminhada vespertina, foi em razão, segundo nos é contado, de estar absorto na leitura de Emílio, de Rousseau.”[5] Essa rotina era tão conhecida que seus concidadãos o tinham como referência no acerto de seus relógios.
           
            Ademais, era homem de pequena estatura. Segundo Will Durant[6], não chegava a um metro e sessenta de altura. No entanto, este homenzinho de Königsber, de frágil compleição, hábitos simples e metódicos é tido como um gigante do pensamento universal.

            De saber enciclopédico, nosso filósofo produziu uma obra de larga amplitude; nas diversas áreas do conhecimento o kantismo floresce, seja na antropologia, epistemologia, metafísica, ética, estética, direito... Dentre suas obras, destacamos as suas três críticas: Crítica da Razão Pura (1781), Crítica da Razão Prática (1788) e Crítica do Juízo (1790), por isso – não por acaso – é conhecido como filósofo das três críticas. No âmbito do Direito, especificamente, conforme Miguel Reale, “o grande filósofo tratou deste em várias obras”[7], sendo essa temática aprofundada em Metafísica dos Costumes [Die Metaphysik der Sitten], obra dividida em duas partes: a doutrina do direito [Rechtslehre] e a doutrina da virtude [Ingendlehe].

            A leitura de Kant não é fácil. Seu estilo rebuscado é permeado de terminologias formais. A respeito disso, “Haine fala de um estilo cinzento, seco, tosco, de uma linguagem afetada, cortês, fria.”[8] Para endossar a difícil hermenêutica do estilo kantiano, Will Durant conta-nos que, “quando Kant entregou o manuscrito da Crítica a seu amigo Herz, homem muito versado em especulação, Herz o devolveu lido pela metade, dizendo que temia ficar louco se continuasse.”[9] Não obstante, conforme registra Garcia Morente, “a Crítica da Razão Pura, seu livro capital, o mais estudado, o mais comentado, o mais discutido de toda literatura filosófica de todos os tempos”[10] é o contraponto que estabelece o convite para enfrentar o desafio de tentar compreender o pensamento kantiano. Desse modo, aceitemos auspiciosamente a ponderação de Will Durant: “aproximemo-nos dele por desvios e com cautela, começando a uma distância segura e respeitosa; comecemos em vários pontos sobre a circunferência do assunto, e depois avancemos tateando em direção àquele sutil centro em que o mais difícil dos filósofos guarda seu segredo, o seu tesouro.”[11]
            A vida de Kant é muito mais minuciosa e mais nobre do que os detalhes aqui expostos. À guisa de introdução, esboçamos um quadro biográfico desse personagem imortal do intelectualismo humano.

            Seu epígono, Johann Herder, escreveu sobre ele:
           
            “Eu tive a grande sorte de conhecer um filósofo [...] nenhum desejo por fama poderiam alguma vez tê-lo tirado do caminho reto e claro da verdade [...] Este homem, sobre o qual eu sublinho com a maior gratidão e respeito era Emanuel Kant.”[12]

            Paralelo a isso e com a mesma convicção, Will Durant afirma que “a filosofia [...] deverá ser sempre diferente, daqui por diante, e mais profunda, porque Kant existiu.”[13]

            O suprassumo do pensamento de Kant está no seu encantamento, que Reale, magistralmente, interpreta: “o dever impõe-se a nosso espírito com o mesmo esplendor com que contemplamos nos céus as estrelas. “Há duas coisas que me deslumbram, dizia Kant, ‘as estrelas no exterior, e o imperativo categórico do dever, a “boa vontade”, no plano da consciência’”[14]

            Nas palavras do próprio Kant, literalmente, lemos: “Duas coisas enchem a alma de uma admiração e de uma veneração sempre renovadas e crescentes, quanto mais frequência e aplicação delas se ocupa a reflexão: O céu estrelado sobre mim, e a lei moral dentro de mim.”[15]

            Por tudo isso, calha bem a epígrafe que cunhei logo de início: Se Sócrates morreu pela filosofia, Kant viveu para ela. Embora, nunca tenha saído de sua provinciana Königsber, toda Europa visitou seu pensamento e cultivou genuflexamente sua filosofia.

            Seu epitáfio é o de um homem devotado totalmente à moral. Assim gravou-se em sua lápide: “O céu estrelado sobre mim, e a lei moral dentro de mim.”


REFERÊNCIAS

COLLINSON, Diané. 50 grandes filósofos. Trad. Maurício Waldman; Bia Costa 2 ed. São Paulo: Contexto, 2004
DURAN, Will. A história da filosofia. Trad. Luis C. N. Silva. Rio de Janeiro: Nova Cultural, 1996. (Col. Os Pensadores)
HELFERICH, Christoph. História da filosofia. Trad. Luis S. Repa; Maria E. Heider; R. Nascimento. São Paulo: Martins Fontes, 2006
LEITE,  Flamarion Tavares. 10 lições sobre Kant. Petropolis-RJ: Vozes, 2007


[1] Professor de Filosofia na rede pública do DF. Bacharelando em Direito. Autor de vários artigos nas áreas da Filosofia e do Direito.
[2] Cf. LEITE. Flamarion Tavares. 10 Lições sobre Kant, p. 33, rodapé.
[3] In: HELFERICH, Christoph. História da filosofia, p. 254
[4] Apud DURANT, Will. A história da filosofia, p. 254
[5] 50 Grandes filósofos, p. 155
[6] Op. cit., p. 254
[7]  Cf. Filosofia do direito, p. 656
[8]  Apud HELFERICH, Christoph. Op. cit., p. 241
[9]  Op. cit., p. 246
[10] Fundamentos de filosofia – lições preliminares, p. 220
[11] Op. cit., p. 246
[12] Apud COLLINSON, Diané. Op. cit., p. 161
[13] Op. cit., p. 246
[14] Op. cit., p. 660
[15] Crítica da razão prática, p. 172





Agradeço a colaboração e a oportunidade, de publicar mais um excelente artigo do Professor José Fernandes P. Junior .
Parabéns pelo seu trabalho.
Marise.

Um comentário:

rafaela disse...

Nossa, Kant talvez seja o filósofo mais dificil do pensar filosófico, mas esse texto biográfico é cativante e convidadtivo à leitura deste colosso da filosofia. Gostei muito. Parabéns!!!

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