sábado, 19 de dezembro de 2009

Capacidade de indignação, por Antônio Mesquita Galvão *




A palavra indignação tem sua origem em uma reação diante de algo indigno. Trata-se de um sentimento de revolta experimentado frente a uma indignidade, injustiça, afronta ao bem comum ou desprezo à ética social.
A indignação sempre aponta para uma reação ética contra atitudes, sejam do cotidiano sociofamiliar ou das relações políticas, em que os juízos de valor revelam a ilicitude e/ou impropriedade de algum tipo de comportamento.
A indignação ética desencadeia necessariamente um tipo de reação em que a pessoa toma consciência de algum ilícito e parte para uma demonstração, formal, pacífica ou até violenta de inconformidade.
Há dias, escutei um programa em uma rádio de Porto Alegre em que o assunto “indignação” foi enfocado, a partir da agressão sofrida por Silvio Berlusconi, quando um cidadão italiano, abalado com tanta corrupção moral, botou para fora toda a sua revolta contra aquele homem público. Revendo alguns fatos, passados e não tão passados, recordei a revolta da torcida do Coritiba; a mulher que quebrou os vidros de um hospital que deixou de atender sua filha de dois anos; a sapatada que um jornalista iraquiano deu em Bush, e outras tantas passeatas frente à casa de políticos que se veem por aí.
Essas agressões, todas elas injustificáveis, denotam a que ponto chega a exasperação das pessoas. Quando não se bota para fora a indignação, ela vai se comprimindo num processo de recalque, qual uma mola pressionada. Um dia, o disparo é inevitável. É perigoso o estouro de uma indignação.
No terreno das indignações com os descaminhos políticos, alguns ingênuos costumam citar o voto como ferramenta de faxina na sociedade. Trata-se de um ledo engano. Primeiro, porque a mudança vai levar quatro anos; depois, porque muitos conseguem se reeleger, e, por último, não é raro a gente eleger alguém que parecia sério e competente e depois se revela um desastre. A indignação nasce do sentimento de impotência que temos diante de fatos que contrariam o bom senso, a ética e a decência.
São vazias certas manifestações de desconformidade, pois a corrupção nacional é uma bandeira, a incompetência tornou-se um outdoor dos burocratas, e a indiferença, uma prática usual. A geração crescente de escândalos e a impunidade se tornaram a antítese de nossa capacidade de indignação.
É lamentável constatar que neste país das liminares, de habeas corpus, dos desmentidos do indesmentível e de tantas pizzas, indignar-se é tempo perdido e geração de estresses.

Tema para debate no Jornal Zero Hora - RS.
zerohora.com
Adianta manifestar indignação com a corrupção no país?
* Escritor e filósofo 

Fonte: Jornal Zero Hora 
Imagem:www.depapocomamirna.blogger.com.br/2003_10_01.

6 comentários:

Anabela Magalhães disse...

Este texto cai como uma luva em Portugal, neste final de 2009.
Mundo triste, este, em que nos movemos!

Austeriana disse...

Muito oportuno, este post.
Na actualidade é, de facto, importantíssima a sedimentação da capacidade de indignação e (ao estado a que isto chegou...), sobretudo, o direito a ela.

Ricardo disse...

Cara Marise:
Por motivos pessoais, estive um pouco ausente do acompanhamento dos blogs dos amigos. Como bem sabes, o teu blog é um daqueles pelos quais tenho grande apreço. Então, aproveito o comentário para, primeiramente, parabenizar-te pela série de posts bastante acessíveis aos que se iniciam nesse modo mais crítico de ver o mundo que é a Filosofia. Ótimo começo com o "Vocabulário Filosófico", seguindo-se o "Conceito de Filosofia", e por aí vai.
Parabéns!
Agora, vamos ao texto sobre a indignação.
Penso, como escreveu o autor, que a indignação é um possível começa de mudança da situação injusta. Através desse "impulso" - como o seria o "espanto", na Filosofia -, o indivíduo começa a se "armar" de ferramentas que possam dar conta de eliminar a injustiça/indignidade que constata.
Ainda como escreveu Antônio Mesquita Galvão, a agressão é injustificável, visto que o juízo de valores sobre a possível indignidade é pessoal, e portanto subjetiva. Se fôssemos admitir a solução dos problemas, num Estado Democrático de Direito, pelo caminho da violência, qualquer "imbecil" poderia agredir o mais "santo" dos homens, sob uma justificativa absurda... que, ao ignóbil agente, seria motivo de indignação.
O grande problema - e disso tratam os últimos parágrafos do texto - é quando os tais mecanismos que resolveriam as tais indignidades estão eivados de vícios espúrios.
Nessa situação, a indignação começa a se tornar revolta, pois não se vislumbra uma saída digna para o problema.
Em quase tudo, portanto, concordo com o autor. Só me parece haver um engano quanto à força do voto.
Registre-se, primeiro, que não se votam - em tese - em nomes, mas em partidos. Normalmente não nos lembramos disso e fazemos com que os projetos políticos sejam assuntos de pessoas, enquanto na verdade o são de instituições, que devem, portanto, ter compromissos de mais longo prazo.
Uma grande desmobilização política, por parte da população, é outro problema. Só nos indignamos com corrupções expostas nos jornais, mas não nos importamos em pesquisar a má atuação do político no mais básico, por exemplo, que é a presença ao seu trabalho. Não acompanhamos isso!
O maior engano do ótimo autor, entretanto, pareceu-me quando escreveu sobre a ineficácia do voto que "... muitos conseguem se reeleger". O fato é que eles não fazem isso sozinhos, mas com a nossa "colaboração".
Pretendendo ser absolutamente isento, mas apenas pegando um político em evidência, vejamos o caso do Arruda. Ele "fugiu" do senado para não ser cassado. E... voltou "nos braços do povo" à política. Culpa dele? A mim parece que, menos dele, mais nossa.
Penso, por último, que uma compreensão de que votamos em partidos e não em pessoas, ou seja, votamos em programas partidários, com projetos de curto, médio e longo prazo, com ideologias claramente estabelecidas, faria com que os próprios partidos zelassem por quem leva sua sigla.
Num caso como esse do Arruda, por exemplo, o eleitorado, consciente de que o Arruda é o DEM - isso, em tese... que fique claro -, na eleição seguinte, o DEM sairia com zero votos. Alarmado, teria que rever as fichas dos seus candidatos com maior cuidado.
Desculpe o longo comentário e, novamente, parabéns pelo blog.

Austeriana disse...

Feliz Natal, Marise!
Um abraço.

Anônimo disse...
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Anônimo disse...
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