sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Minto, logo existo .

Leitura recomendada: Blog da Philoterapia, do filósofo Sérgio Peixoto Mendes

Excelente artigo, vale a pena ler:

Minto, logo existo

O orgulho, no seu sentido pejorativo e vulgar, tem sido a causa de muitos males e desavenças nos dias atuais. O sujeito orgulhoso não consegue, na maioria das vezes, admitir seus próprios erros e, geralmente, opta por mentir em detrimento de um simples e mágico pedido de desculpas. O orgulho e o autoritarismo, que tenta impor uma verdade particular, estão radicalmente ligados a mentira. Reconhecer o erro poderia facilitar a vida de muita gente, mas, para que facilitar se é mais fácil mentir, enrolar e sair impune? Justificar-se com argumentos falaciosos e esfarrapados, corrompido pela mentira, é um caminho aparentemente mais fácil, entretanto, é uma opção burra, apesar de uso muito corriqueiro na vida política e por todo tipo de autoridade. Mentir virou uma arte neste meio público, nele sobrevive quem mente melhor, quem nega com mais veemência.

Hoje é muito comum o sujeito negar a própria imagem. Gente flagrada com a “mão na botija” recebendo propina, gravada em vídeo e áudio, nega. Políticos flagrados em discursos contraditórios negam e pedem para esquecer o que disseram no passado. Do ponto de vista mais filosófico, pode-se dizer que há uma re-invenção dupla do cogito cartesiano que hoje seria mais ou menos assim: Penso, logo minto e Minto, logo existo. Ou algo ainda mais ilógico: eu não sou eu. É o tempo do sujeito que nega a si mesmo diante da sua própria imagem. Recentemente foi assunto na mídia o caso de Odair Silis, prefeito da cidade de Monte Castelo, a 677 km de São Paulo, suspeito de exigir propina na execução de uma obra pública na cidade. O político negou a imagem mostrada na TV minutos antes, sem o menor constrangimento. É impressionante a anterioridade da mentira em relação ao pedido de perdão e, da tão bem vinda, “minhas desculpas, errei”, ou, como diz a garotada: foi mal, tio. O reconhecimento do erro é uma arte incomum, pois tem na sua base uma virtude ainda maior e mais difícil, a humildade. Esta caiu em desuso há muito tempo. Humilde é otario, indivíduo tolo e ingênuo e que, provavelmente, não irá chegar a lugar nenhum, pois todos irão enganá-lo antes.

Caro leitor, experimente ser humilde, bondoso e sensível no trânsito, por exemplo. Experimente falar a verdade o tempo todo. Ensaie pedir desculpas pelos seus erros. Verás que tua vida mudará completamente. Não irá faltar gente ao seu lado para orientá-lo a se internar num sanatório, mas, persista, lute contra esta selva de pedra, dê o seu exemplo, não cuspa no chão, junte os dejetos do seu cachorro, vá em frente. Esmague o seu ego, tenha coragem para nunca ter de dizer: eu, não sou eu.

Infeliz é aquele que renega a si mesmo diante de um delito – ou mesmo diante de um espelho - este se mortifica diante de seu passado, pois, de forma funesta se abraçou às facilidades da arte de enganar, a si mesmo e aos outros. Apesar de colher alguns benefícios passageiros vão se dar mal logo ali adiante.

Sérgio Peixoto Mendes, filósofo.

Contato: autor@sucatinhas.com.br

Fonte:Blog da Philoterapia

4 comentários:

Austeriana disse...

Vivemos sociedades em que "parecer" e "ter" é bem mais valorizado do que "ser".
Todavia, há situações em que a mentira faz falta. Estou a lembrar-me, do «ser vs parecer» nas artes e o quanto nos fazem bem à alma esses resultados! Outra situação em que aceito a mentira é quando ela é mentira piedosa, nos casos em que a verdade só iria agravar as situações.
Abraço.

philoterapia disse...

Marise, esse seu Blog tá profi.

Obrigado pela visita e recomendação do artigo.

Sérgio Peixoto Mendes

Anabela Magalhães disse...

Andei por aqui a rabiar, qual escorpião, e resolvi seguir-te.
Parabéns pelo blog!

Anabela Magalhães disse...

E cheguei aqui via Miguel Loureiro!
:)

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