terça-feira, 11 de maio de 2010

Primeiro viver, depois filosofar?, por Regis de Oliveira Montenegro Barbosa*

Na pauta das reflexões acerca de nossas vidas, deveríamos gradualmente incluir como meta a preparação para a morte. Em livro intitulado Simples Filosofia, o autor, Pablo Capistrano, afirmou que um dos escopos desta é “preparar o homem para a morte”, mas que para isto é mister que “ele conheça a si mesmo”. Teor, aliás, idêntico ao dístico inscrito no oráculo de Delfos, erigido em homenagem ao deus Apolo, na antiga Grécia, marca registrada de Sócrates e que a tanto já exortava os homens.

É necessário sentir o belo e grandioso no aparentemente singelo e pequeno: o brilho da luz do sol reluzindo no verde das folhas das árvores, o farfalhar destas a entoar a música que o vento nelas compõe e que evoca o constante fluir do tempo e da realidade. Momentos que num átimo assaltam nosso espírito e fazem com que captemos, em um facho de luz, o Ser que a tudo permeia e que, paradoxalmente, “se mostra não se mostrando” (Martin Heidegger), mas cujo desvelamento foi constantemente perseguido ao longo da história da filosofia. Então nos damos conta da mediocridade engendrada pelo homem por força de sua postura pragmática e utilitarista: a vida teorética e contemplativa sempre obliterada pela vida ativa, prática e técnica, apanágio do Homo faber (fabricante, fazedor).

Ocupamo-nos em demasia com aspectos da vida que, ao crepúsculo desta, nostalgicamente constatamos que não detinham a mesma relevância e o significado que supúnhamos. Ficamos às voltas quase apenas com situações corriqueiras e negativas: o salário, a conta bancária, a alta dos preços, as injunções políticas, a corrupção, a violência etc.

Havemos de resgatar aquela atitude de espanto e encantamento, a admiração ingênua da qual éramos detentores quando ainda em tenra idade. Mas para tanto temos que operar uma ruptura da atitude dogmática tão ao gosto “dos adultos”, como se tudo fosse sempre velho, óbvio e já conhecido (Gerd A. Bornheim, Introdução ao Filosofar).

Olvidamos a lição do filósofo grego Heráclito, para quem ninguém se banha mais de uma vez no mesmo rio, já que, segundos após, nem este e nem quem o adentrou será o mesmo. Quiçá nos ocupamos do que é de somenos importância em razão da falta de real consciência da fugacidade e efemeridade da vida, com o que deixamos de nos voltar “ao novo”, petrificando formas de pensar e de viver.

Tais considerações fazem rememorar a máxima romana “primum vivere, deinde philosophari” (primeiro viver, depois filosofar), a respeito de cujo conteúdo, neste instante, brotaram-me fundadas dúvidas!


*Magistrado, bacharelando em filosofia

Fonte: Jornal Zero Hora

2 comentários:

Valdeir Almeida disse...

É isso mesmo: há pessoas que tanto falam em se preparar para a morte, mas pouco sabe sobre a própria vida.

Abraços, Marise e uma ótima quinta-feira.

experimental disse...

Cara Marise,
Gostei imenso de ler este texto, mas há muito anos, que viver e filosofar é um exercício constante. Cedo constatei, que a morte está sempre presente na vida, isso me levou a viver a vida o melhor possível. Cada dia ao acordar, penso, este dia vai valer a pena, porque pode ser o Último.
Antigamente existia o curso Histórico-Filosóficas, depois decidiram dividir, em curso de História e Curso de Filosofia, eu licenciei-me em História, mas é evidente que a Filosofia passa muito por ali, só não é aprendida em profundidade. Gosto muito de Filosofia e ainda pensei também fazer este curso, mas por várias razões, não deu. Isto para lhe dizer que gosto muito de Filosofia.
Faço poucos comentários, mas quando faço é um testamento, desculpe.
Beijinhos,
Nela

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