sábado, 20 de junho de 2009

A diferença

Uma vez imaginei o encontro de Batman e Drácula numa clínica geriátrica, na Suíça.

***

Batman não acredita que Drácula tenha mais de 500 anos. Não lhe daria mais de duzentos. – Tempo demais – diz Drácula. – Estou na terceira idade do Homem. Depois da mocidade e da maturidade, a indignidade... O cúmulo da indignidade, para o conde, é a dentadura falsa. Ele não pode ver sua própria dentadura sobre a mesinha de cabeceira sem meditar sobre a crueldade do tempo. Já tentou o suicídio, sem sucesso. Estirou-se numa praia do Caribe ao meio-dia, para que o sol o reduzisse a nada. Só conseguiu uma boa queimadura. Dedicou-se a uma dieta exclusiva de alho. Só conseguiu que as mulheres o expulsassem da cama. A estaca no coração também não funcionara. Precisava ser de um determinado tipo de madeira benta, usada numa determinada fase da Lua, a logística do empreendimento o derrotara. E ninguém se dispõe a matá-lo, agora que seus caninos são postiços e ele não é mais uma ameaça. Drácula está condenado à vida eterna, à velhice sem redenção e à indignidade sem fim. Internou-se na clínica com a vaga esperança de que a morte, que vem ali buscar tanta gente, um dia o leve por distração.

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E você, Batman? Batman conta que está na clínica para retardar a morte. Não confessa sua idade, mas recusa-se a tirar a máscara para que não vejam suas rugas. Ele não é um super-herói com superpoderes, inclusive o de não morrer, como o Super-Homem. “Eu sou dos que morrem”, diz Batman, com um suspiro. No tom da sua voz está a lamúria milenar da espécie dos que morrem. Drácula parece não ouvi-lo. Esta interessado em outra coisa. “Você vai terminar esse iogurte?” pergunta. Mas Batman continua sua queixa. “Eu já não voava. Hoje quase não caminho. Não posso mais dirigir o Batmóvel, não renovaram minha carteira...”. Mas ele não quer a redenção da morte. Quer a vida eterna, a mesma vida eterna de um homem de aço. “Vamos fazer um trato”, sugere Drácula. “Quando a morte vier buscá-lo, trocaremos de lugar. Você veste este meu robe de cetim e a echarpe de seda, e eu visto essa sua fantasia ridícula, e a...”. Mas Batman o interrompe com um gesto. A morte não pode ser enganada. Claro que pode, diz Drácula. “É só você passar um pouco da minha pomada no seu cabelo que a morte o tomará por mim e...”. – Que cabelo? – pergunta Batman, com outro suspiro, também antigo.

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“Não somos muito diferentes”, diz Drácula. “Somos completamente diferentes!”, rebate Batman. “Eu sou o Bem, você é o Mal. Eu salvava as pessoas, você chupava o seu sangue e as transformava em vampiros como você. Somos opostos”. “E no entanto”, volta Drácula com um sorriso, mostrando os caninos de fantasia, “somos, os dois, homens-morcegos...”. Batman come o resto do seu iogurte sob o olhar cobiçoso do conde. Diz: – A diferença é que eu escolhi o morcego como modelo. Foi uma decisão artística, estética, autônoma. – E estranha – diz Drácula. – Por que morcego? Eu tenho a desculpa de que não foi uma escolha, foi uma danação genética. Mas você? Por que o morcego e não, por exemplo, o cordeiro, símbolo do bem? Talvez o que motivasse você fosse uma compulsão igual à minha, disfarçada. Durante todo o tempo em que combatia o mal e fazia o bem, seu desejo secreto era de chupar pescoços. Sua sede não era de justiça, era de sangue. Desconfie dos paladinos, eles também querem sangue. – Se eu ainda pudesse fazer um punho você ia ver qual é a minha compulsão neste momento – rosna Batman. Mas Drácula não perde a calma. – E veja a ironia, Batman. O morcego bom passa, o morcego mau fica. Um não quer morrer e morre, o outro quer morrer e não morre. Ou talvez não seja uma ironia, seja uma metáfora para o mundo. O bem acaba sem recompensa, e o único castigo do mal é nunca acabar. Drácula continua: – Somos dois aristocratas, Batman, um feudal e outro urbano, um da velha Europa e outro da nova América. Eu era Vlad, o Impalador, na Transilvânia, você, o herdeiro de uma imensa fortuna em Gotham. Eu era o terror dos aldeões, você um rico caridoso. Os pobres nunca ameaçaram invadir a sua mansão com archotes, mas somos, os dois, da mesma classe, a dos sanguessugas. O que nos diferencia é que eu não tinha remorsos. Batman pede que Drácula se retire. Dali a pouco chegará Robin com os netos e ele não quer que as crianças se assustem.

Luis Fernando Veríssimo

Fonte: Jornal Zero Hora - nº16007 - 21 de junho de 2009

3 comentários:

Ana Lúcia Porto disse...

Rs, que estorinha fofinha...!!
Talvez o mau permaneça por mais tempo em
determinadas ocasiões porque precisa de mais tempo para se converter no bem...
Beijos,
Ana Lúcia.

Marise von disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marise von disse...

Ana Lúcia,
Luís Fernando Veríssimo escreve muitas estorinhas
fofinhas e engraçadas, mas que no fundo querem dizer muitas coisas, verdades...

Abraços,
Marise.

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