sábado, 2 de maio de 2009

Argumentos Falaciosos Parte II - O compêndio

Truques de Palavras

  1. Equívoco
  2. Definição: Uma mudança ou modificação no sentido de uma palavra; o que é verdade na primeira definição não é necessariamente verdade na segunda.

    Exemplo: (Do mundo de enunciações políticas ou jornalísticas)

    "Durante a última década, nossos Estados soberanos têm se juntado para formar uma grande unidade político-econômica: o Pacto Hemisférico. Assim sendo, o Pacto está unido, pronto para lutar contra agressões do exterior de todos os tipos".

    Análise: Na primeira frase, o "Pacto Hemisférico" significa uma reunião de cooperação econômica entre entidades políticas distintas. Na segunda, significa uma união geral. O que é verdade na primeira frase não é necessariamente verdade na segunda. Talvez alguns Estados membros queiram agir independentemente do Pacto no caso de eventos não-econômicos, como incidentes de não-respeito aos limites de fronteiras nacionais, de espaço aéreo ou bloqueio de sinais de radiodifusão, por exemplo.

  3. Conotação Contrabandeada

Definição: O uso infundado ou improcedente de termos.

Exemplo: (Do mundo de enunciações políticas)

"Paulo da Silva bebe cachaça diariamente, em grande quantidade. Devemos elegê-lo deputado, colocando nossa comunidade nas mãos de um pinguço?"

Análise: Um pinguço não é simplesmente alguém que bebe exageradamente. A palavra tem conotações sociais extras, de depravação e delinqüência; o locutor não demonstrou que Paulo da Silva se enquadra nessas circunstâncias. Trata-se, pois, de manipulação semântica ostensiva. Lewis Carroll tocou nesse ponto ridicularizando as palavras de Humpty Dumpty para Alice, em Através do Espelho: "Quando eu uso uma palavra, significa exatamente aquilo que quero que signifique".

3. Eufemismo e Hipérbole

Definição:O uso de palavras de exagero e com sentido conotativo (hipérboles metafóricas) ou de suavização eufemística (tentativa de diminuir o impacto), para mascarar uma realidade indesejável, para desensibilizar a consciência.

Exemplos: (a) "campo de recolocação" (eufemismo para designar locais de detenção de prisoneiros)

(b) "campo de concentração" (eufemismo usado durante a II Guerra Mundial para designar locais de execução de pessoas inocentes)

  1. "genocídio" (exagero metafórico usado por sindicatos de empregados para designar a demissão maciça de funcionários)

Análise: O uso de palavras que distorcem a realidade, acentuando determinados aspectos positivos ou negativos, é um exemplo de manipulação semântica.

4. Ênfase Incorreta na Frase

Definição: O uso proposital de ênfase numa frase para dissimular uma intenção que o falante prefere esconder.

Exemplo: (Do mundo de anúncios publicitários)

"Nosso plano de saúde oferece assistência e cobertura integral!!

Exceto em casos de parto e doenças preexistentes"

Análise: A primeira frase está em caixa alta e fonte grande para chamar atenção, dar ênfase, enquanto a segunda está em caixa baixa e fonte pequena, anulando a noção de completude da palavra "integral", conforme está prometido na primeira parte em letras maiúsculas.

5. Uso Incorreto de Etimologia

Definição: O uso indevido das origens das palavras para provar um sentido que não é mais o usual e normativo da palavra.

Exemplo: (Do mundo da Educação)

"‘Educação’ vem das raízes latinas ‘e’ (significando ‘para fora’), mais ‘ducere’ (significando ‘conduzir’ ou ‘trazer’). Assim sendo, ‘Educação’ significa, literalmente, revelar o que está dentro do estudante. A instituição que tenta impor conhecimento de fora para dentro está pervertendo os objetivos da Educação".

Análise: O amplo termo "Educação" hoje em dia acomoda muitos significados, seja qual for o sentido de sua raiz. De qualquer maneira, não é possível provar que certas práticas são boas ou ruins pela simples análise do significado vocabular. Isso também é exemplo de uma definição tendenciosa, porque desconsidera a perda da significação etimológica e os novos valores investidos na palavra "Educação".

6. Acidente

Definição: O erro de tratar como permanente uma qualidade que pode ser apenas temporária.

Exemplo: (Do discurso universitário)

"Na época da ditadura militar, o Professor Silva apoiava o regime vigente. Hoje ele é candidato à chefia do departamento. Devemos eleger um reacionário nosso chefe?

Análise: O fato de uma pessoa ter sido reacionária há vinte anos não significa que continue a sê-lo. Continuar a ser ou deixar de ser um reacionário é um fato que não admite conclusões generalizantes sobre a conduta atual do professor. O argumento desconsidera a possível mudança de ideário do professor.

7. Coisificação, ou Reificação

Definição: O erro de tratar um conceito abstrato (por exemplo, "Liberdade", "Justiça" ou "Progresso") como um ente real e concreto, como uma "coisa".

Exemplo: (Do mundo da política e das redações colegiais apressadas)

"O Brasil se tornará uma grande potência porque esse é o seu destino.

O país caminha prometido ao sucesso".

Análise: Aqui, o locutor está designando algo chamado "destino" como a causa de algum acontecimento. Mas, tudo o que sucede a nós ou ao país é obra do destino? Se isso é verdade, então "destino" parece ser um conceito determinista que se aproveita de um sofisma a partir do conceito de potência. Que ente misterioso vem a ser o destino, que seria capaz de grandes e significantes eventos? A Segunda enunciação mostra também a falácia de circularidade, isto é, de argüir "em círculo", tautologicamente, sem provas para substanciar as afirmações.

A Perversão de Métodos Legítimos de Argumentação

8. Depois do Fato, Portanto Devido a Ele

Definição: O erro de empregar cronologia para sustentar uma prova de causa e efeito. Dito de outra forma, é o erro de acreditar que porque um evento precede outro, o primeiro deve causar o segundo. Por exemplo: Se B segue A, então A devia ter causado B. [Também chamado em Latim de post hoc ergo propter hoc.]

Exemplo 1: (Do mundo empresarial)

"Estávamos perdendo dinheiro na firma há muitos anos. E aí, eu virei gerente. Agora estamos lucrando. A razão é óbvia".

Análise: Talvez sim, talvez não. Não é possível que outros fatores tenham influenciado o andamento da firma (uma mudança no gosto do mercado, uma melhoria no poder aquisitivo da clientela, o desaparecimento de um concorrente forte, por exemplo)?

Exemplo 2: (Do mundo de escritos históricos)

"Tanto a Revolução Francesa como a Revolução Russa foram seguidas de rebelião literária. Claramente, revolta política causa rebelião nas artes".

Análise: E pela mesma lógica, a Primeira Guerra Mundial deveria ter levado à Semana de Arte Moderna em São Paulo, em 1922. Revoluções artísticas não necessariamente decorrem de revoluções políticas; talvez rebelião política e artística sejam ambas causadas por um terceiro fator; é possível também que não haja outra relação além de mera coincidência. Os fatos apresentados não admitem, neles mesmos, qualquer conclusão, pois desconsideram outras incidências possíveis (por exemplo, tecnológicas ou demográficas).

9. Números Grandes

Definição: O erro de tentar "impressionar" com grandes números.

Exemplo: (Do mundo jornalístico)

"Dez milhões de pessoas sofrem de doenças mentais no Brasil. Esse é o nosso principal problema social".

Análise: Num país com cerca de duzentos milhões de habitantes, mais pessoas ainda podem sofrer de outros tipos de distúrbios. Quase todo mundo tem cáries dentárias, mas as cáries não constituem nosso principal problema de saúde. E qual é a regra que mede a seriedade dos problemas sociais em simples números? Grandes cifras nos impressionam muito, mas não deveriam eliminar a lógica para determinar a primazia de uma questão social.

10. Significância Ambígua

Definição: O erro de tentar convencer através de ambigüidade proposital nos termos ou nas premissas.

Exemplo 1: (Do mundo do jornalismo)

"89% dos brasileiros têm problemas de cáries nos dentes".

Análise: Antes de saber se esta é ou não uma afirmação significante, o leitor teria que verificar como o Brasil se compara a outros países do mesmo tamanho ou situação sócio-econômica para saber se este índice está alto ou baixo. A boa matéria jornalística procura estabelecer o contexto do problema para o leitor. Este exemplo também demonstra as falácias de "contextualização" e "números grandes".

11. Citação Fora do Contexto, ou Contextualização

Definição: Selecionar de uma citação apenas os trechos mais "convenientes" para o ponto de vista do falante, e assim distorcendo o sentido do original.

Exemplo: (Do mundo da publicidade de livros e filmes)

O crítico literário escreve: "Eu leria este livro com prazer apenas se fosse o único livro no mundo, ou se eu estivesse numa ilha deserta e não tivesse mais nada para ler".

Na sua publicidade, a editora cita o crítico: "Eu leria este livro com prazer....se eu estivesse numa ilha deserta...".

Análise: Mutilando o conteúdo, a editora dá a impressão de uma resenha favorável – o que não é o caso – para enganar o leitor.

12. Falácias de Estatística

Definição: Existem muitos tipos de falácias com relação ao uso de estatística, entre os quais a apresentação ambígua do contexto no qual a quantificação foi determinada.

Exemplo: (Do mundo da publicidade)

"LAVOL, o fantástico detergente, lava 95 vezes mais branco que qualquer outro sabão" (sem maiores detalhes e comprovações).

Análise: Não vale a pena prestar atenção a enunciações como esta. Não sabemos como foram feitos os testes, ou quais as referências comparativas para admitir o sentido de "mais branco". O uso de estatística obriga o relator a dizer os métodos usados, os controles do fabricante sobre a fórmula do produto e outras variáveis relativas aos concorrentes.

13. Composição

Definição: É o erro de argumentar que o que é válido para todos os membros de um grupo é válido para o grupo como um todo.

Exemplo: (Do mundo universitário)

"Esta comissão deve ser preconceituosa, uma vez que todos os seus membros, como todas as pessoas, têm preconceitos".

Análise: Certo, mas talvez os preconceitos individuais neutralizem um ao outro, ou se contrabalancem.

14. Divisão

Definição: Oposto a composição, é o erro de supor que o que é válido para o grupo como um tudo, também é válido para cada um dos seus membros.

Exemplo: (Do mundo da política governamental ou empresarial)

"Se nós aplicarmos mais 20% em aumentos salariais, todo mundo terá mais 20% para gastar".

Análise: Isso depende de como o dinheiro é proporcionalmente dividido. Alguns podem receber mais do que outros na distribuição desse percentual.

15. Falácia Genética

Definição: O erro de supor que o conhecimento das origens de um produto do intelecto (um poema, um romance, um relato histórico...) permite explicar sua forma ou sua estrutura. É freqüentemente encontrada em críticas literárias que enfatizam excessivamente as influências biográficas na criação literária de autores, como o caso do alemão Johann Goethe e seu romance Os Sofrimentos do Jovem Werther.

Exemplo: (Do mundo da crítica literária)

"Sabemos que o poema ‘Kubla Khan’ veio ao poeta inglês Samuel Coleridge num sonho; assim sendo, deve carecer de estrutura racional".

Análise: Não carece. Tem estrutura racional, apesar de suas origens num contexto normalmente não associado ao racional. O crítico assume como conclusivo que o automatismo da linguagem onírica só pode ser um delírio, nunca um discurso coerente, como no ineditismo poético de Coleridge.

16. A Ladeira Escorregadia

Definição: Argumento sugerindo que se nós permitimos que algo aconteça ou comece, consequentemente uma outra coisa acontecerá, com certeza ou boa probabilidade, seguida ainda de outra coisa, e assim por diante, descendo uma "ladeira escorregadia", até chegar a uma situação claramente indesejável.

Exemplo: (Do mundo político)

"Agora querem registrar armas de uso pessoal. Depois serão todas as armas; e mais tarde vão querer confiscar todas as nossas armas. Será um estado totalmente controlado pela polícia".

Análise: Pensando na possibilidade de um "estado policial", esquecemos que o enunciador não demonstrou a inevitabilidade da seqüência de eventos sugeridos. Se existir qualquer dúvida sobre a conexão entre um evento e outro, não é possível acreditar na enunciação.

Fonte : http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/spe231020021.htm

Continua amanhã Parte III.

Um comentário:

Fugindo da Crise disse...

meus amigos... mt bom esse blog.
vou acompanha-lo ok?
ja desenvolvi estudos sobre o discurso juridico e voces podem imaginar como sao usados os argumentos com essa base de sustentação...

ate a proxima!!!

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